DOS DIÁLOGOS INFORMAIS - 23

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— Qual a diferença de namorar e casar?
— É que casar mora junto e namorar cada um mora na sua casa.
— Que nem a mãe e o pai, né? Eles são casados.
— É.
— Eu, quando crescer, vou querer casar.
— Eu não. Só vou querer namorar.
— É? Por quê? Não é bom casar?
— Quando casa, mora junto e dorme na mesma cama...
— É verdade! A mãe e o pai dormem juntos...
— Então. Eu não quero ninguém dormindo na minha cama. Eu gosto de dormir sozinho.
— Eu gosto de dormir junto. Quando eu fico com medo de monstro, essas coisas, eu vou dormir na cama da minha mãe e gosto. Então acho que eu vou gostar de dormir junto, assim nenhum monstro vem me assustar...
— Eu não tenho medo de monstro. E quando a gente foi pra praia, eu dormia na mesma cama com o meu primo e a minha prima. Nem dormi direito, porque toda hora um chutava minha perna... Prefiro dormir sozinho.
— Por que será que eles gostam de dormir juntos? Será que eles têm medo?
— Sei lá...
— Quando casa, sempre tem de dormir junto?
— Acho que sim... Se bem que...
— O quê?
— Minha mãe e meu pai são casados e separados...
— É? Eles são casados e não moram na mesma casa? Não entendi...
— É complicado mesmo, porque minha mãe mora com o namorado dela e meu pai com a namorada dele e eles dormem na mesma cama, meu pai com a namorada dele e minha mãe com o namorado dela.
— Nossa! Que confusão!
— A gente se acostuma...
— Então você me enganou! Você disse que namorado não mora na mesma casa!
— Pois é, não deveria morar, mas mora. Eu perguntei pra minha mãe se agora ela é  casada com o namorado dela e ela disse que não era, porque eles não tinham um papel.
— Papel? Que papel?
— Sei lá, um papel que todo mundo que casa tem que ter. Ela disse que o papel dela ainda era o do meu pai.
— E seu pai também tem um papel?
— Acho que sim, não perguntei pra ele.
— E você já viu o papel da sua mãe?
— Não.
— Deve ser um papel diferente, né... Será que tem figura?
— Figura?
— É, coraçãozinho, florzinha, um enfeite...
— Não sei não... Nunca vi esse papel...
— Se sua mãe arrumar um papel com o namorado dela, ela pode casar com ele?
— Foi o que eu perguntei, mas ela disse que não pode; só se antes ela arrumar outro papel que fala que o papel do meu pai não vale mais.
— Outro papel?
— É, outro papel. Ela chamou papel de consórcio, convórcio, uma coisa assim...
— Nossa! Eu nunca ouvi falar de uma coisa dessas!
— Não sei por que eles dão tanta importância pra papel...
— Os adultos são complicados, não?...
— Muito complicados. Minha mãe disse que quando eu crescer eu vou entender essas coisas.
— E você mora com a sua mãe, né?
— Moro.
— E o seu pai? Você nem vê seu pai?
— Vejo. Tem um dia da semana que eu vou pra casa dele.
— E dorme lá?
— Durmo. Tem um quarto só pra mim lá.
— Você tem duas casas!
— Mais ou menos...
— Que confusão...
— Mas sabe que até é bom... Quando eu vou na casa do meu pai ele deixa eu jogar games, que minha mãe não deixa. E lá tem computador, televisão no meu quarto, super legal!
— É? E por que você não mora com seu pai?
— Não pode. Minha mãe disse que quando separa o filho fica com a mãe.
— Por que eles se separaram?
— Não sei direito. Os dois brigavam, não se entendiam, sei lá...
— E por que eles não arrumam logo aquele papel?
— Sei lá, é complicado, tem a casa da praia que os dois querem, sei lá...
— E o namorado da sua mãe, é legal?
— Até é. Ele se esforça pra me agradar, dá chocolate escondido da minha mãe...
— E a namorada do seu pai?
— Também. Só faz comida que eu gosto, me beija...
— Quando eu crescer, vou casar, mas não vou querer me separar...

— Eu só vou querer namorar. Pra namorar não precisa de nenhum papel...

Um comentário :

  1. Grande Gilson... Uma delícia de texto. Fui seu aluno no velho, e bom, Equipe, da rua Martiniano de Carvalho. Anos 77, 78 e 79, se não me engano. E com você iniciei minhas aventuras na escrita. Tenho um blog de poesias, escrevi um livro e sempre que posso me deixo levar por essa linda forma de expressão. Por coincidência, hoje, minha filha é professora do Equipe. Seu nome é Marina Cardoso e dá aula para crianças de 6 ou 7 anos. Estive outro dia com Alsonia (não sei se é assim que se escreve) e foi muito legal. Quero te dizer que suas aulas foram muito importantes para mim e que, por diversas vezes, a escrita que aprendi contigo foram fundamentais em minha vida. Espero poder reencontrá-lo um dia. Muito obrigado. Mauricio de Almeida Cardoso.

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