DOS DIÁLOGOS INFORMAIS - 17 E 18

17

— E aí, beleza?
— Beleza, e aí?
— Beleza.
— Só...
— E lá, rolô?
— Só, cara...!
— Beleza!
— Beleza, cara, beleza!
— Rolô todas?
— Só! Todas, cara...
— Mó beleza, então...
— Só, cara.
— E...?
— Tudo mó beleza, cara, mó beleza...
— Cara, beleza!
— Só.
— Só...



18

— Jacó, você roubou o tênis do meu marido!
— Eu não roubei não. Eu me apropriei, porque seu marido roubou o tênis do meu filho!
— Ele não roubou o tênis do seu filho; ele achou o tênis do seu filho, e achado não é roubado.
— Ele “achou” o tênis que meu filho tinha tirado no vestiário para tomar banho! Você queria que meu filho tomasse banho de tênis?
— Ele quis dar uma lição no seu filho, pra ele ser mais cuidadoso, não largar o tênis dele assim...
— Ah é? Mas não precisava usar o tênis do meu filho pra dar uma lição. Se ele usou é porque roubou!
— E você precisava roubar o tênis dele por isso? Ele pegou o tênis do seu filho por uma boa razão, por uma razão nobre. Já você roubou o tênis do meu marido por vingança, e vingança é um atributo só de Deus!
— E ele usou o tênis por uma razão nobre também? E não ponha Deus no meio disso, que Deus não tem nada a ver com a cleptomania do seu marido!
— Cleptomania? Cleptomania é a sua, que roubou o tênis do meu marido!
— Não, minha cara, eu só quis dar uma lição pro seu marido, pra ele ver que não é nada bom roubar o tênis dos outros! Foi por uma razão nobre...
— Trate de devolver o tênis do meu marido, ele não lhe pertence!
— Sabe o que é pior dessa história? O tênis do seu marido é uma porcaria e o do meu filho era um tênis caro, de marca, que ele encomendou especialmente para praticar ginástica. Se quer saber, mesmo pegando o tênis do seu marido, fico no prejuízo...
— Bem feito! É bom pra você não pegar as coisas dos outros!
— Sabe o que eu fiz com o tênis do seu marido? Eu dei pro zelador. E acho que nem ele vai querer aquele tênis fedido.
— Fedido? Fedido era o tênis do seu filho, que eu tive que lavar pra tirar o cheiro!
— Ah, então você é cúmplice do seu marido!
— Por quê? Só porque eu lavei o tênis? Eu não ia deixar meu marido usar um tênis com chulé...
— E não lhe ocorreu perguntar de quem era aquele tênis?
— Ele disse que achou...
— E seu marido fica usando coisas que ele “acha”? O que mais que ele anda “achando”? A verdade é que seu marido estava de olho no tênis do meu filho e aproveitou que ele ia tomar banho e surrupiou o tênis dele. E ainda largou o coitado descalço! Ele chegou em casa com os pés sujos e ainda eu tive que comprar outro tênis pra ele, porque a mesada dele não dava pra comprar. Olha o prejuízo que o ladrão do seu marido me deu.
— Eu acho que é bom seu filho ter que lavar os pés. Com aquele chulé que ele tem, precisa lavar muito os pés!
— E por falar em chulé, não pense que estou satisfeito em desapropriar o tênis fedido do seu marido. Aquele lixo não paga nem a metade do tênis do meu filho, aliás, dos dois pares de tênis do meu filho, o que seu marido roubou e o que eu tive que comprar. Vou expropriar outras coisas de vocês, podem esperar!

—Jacó!...

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