DOS DIÁLOGOS INFORMAIS - 13 E 14

13

— Depois eu mostro pra você.
— Ah, mostra agora...
— Nossa, como você é curiosa!
— Mostra, vai, só um pouquinho...
— Não, aqui não.
— O que que tem; ninguém tá olhando...
— Não, na rua não.
— Só um pouquinho...
— Calma, quando chegar na sua casa, eu mostro. Você tem certeza de que não tem ninguém lá, né?
— A esta hora não tem ninguém, fica tranquilo. Mas mostra um pouquinho agora... A gente tá no carro, vidro fechado, ninguém vê.
— Não.
— É grande?
— Eu acho de bom tamanho.
— Você deixa eu pôr a mão um pouquinho?
— Deixo você pegar quanto quiser, mas não agora.
— Mostra pra mim. Se você mostrar, eu mostro a minha. Quer ver?
— Quero, mas não aqui. Quero ver com calma. Você deixa eu acariciar?
— Deixo! Deixo sim. Você acaricia a minha e eu pego na sua...
— No meu, você quer dizer.
— É, no seu. Ai, mostra o seu pra mim...
— Calma que a gente já está quase chegando.
— Mas fala pra mim ao menos como ele é.
— É um dragão.
— Ai. Deve ser lindo! A minha é uma flor, uma rosa.
— Grande?
— Como você disse, de bom tamanho.
— Acho que o meu dragão vai gostar da sua rosa.
— Ela está louca de vontade de conhecer o seu dragão.

— O sinal abriu. Mais um quarteirão e chegamos na sua casa...



14

— ... água, comida, fruta, essas coisas.
— Isso não é mais do que a sua obrigação.
— No dia em que você não tiver essas coisas vai ver o valor que elas têm.
— Eu sei o valor da comida; comida, aliás, que eu cozinho pra você, caso você ainda não tenha percebido.
— Então não fale que eu não ponho nada nesta casa!
— Você põe essas coisas e se manda.
— Eu vou trabalhar! Trabalho duro, trabalho que paga o aluguel, o IPTU, a comida que você come, a luz, a TV que você assiste, enquanto eu dou duro.
— E o que você quer agora? Quer que eu também saia pra trabalhar? E quem vai cozinhar, lavar e passar suas roupas, limpar a casa e tudo isso que eu faço de graça pra você?
— Isso aí qualquer empregada faz.
— Então contrata uma empregada, ingrato! Aí você vai sentir o valor do meu esforço que você despreza!
— Com certeza uma empregada ia me sair mais barato que você...
— Você quer me trocar por uma empregada?
— Não! Não é isso que eu quero! Eu quero que você arrume um emprego, nem que seja só pra pagar uma empregada.
— O quê?! Você quer que eu volte a ser secretária!?
— Secretária, balconista, caixa, qualquer coisa.
— Por quê? Você ganha tão bem!
— Quer saber por quê? Porque eu não aguento mais chegar em casa e encontrar você com essas cobranças de que eu não converso com você, de que eu não trago nada pra melhorar nossas vidas. Sabe por que eu não converso com você? É porque não tem assunto. As coisas mais interessantes que você tem pra me dizer são que deu trabalho passar as minhas camisas, que você quase queimou o feijão, que você falou ao telefone com aquela chata da sua mãe.
— Melhor que você, que não diz nada...
— Não digo porque não tem diálogo. Quando eu falo, você responde com monossílabos e a conversa morre, isso quando você tira os olhos da TV...
— Eu não falo, porque não tenho o que falar, ora.
— Pois é, é disso que eu estou falando. Comigo acontece muita coisa, todos os dias. E me sinto útil, produtivo. Eu gostaria de falar com você sobre meu trabalho, sobre os problemas que eu enfrento e resolvo todos os dias...
— Fala, então...
— Não, não assim. Se você trabalhar, você também terá coisas pra me contar, bem mais interessantes do que o feijão que quase queimou. Você também vai se sentir útil, terá seu próprio dinheiro no fim do mês, sem ter que me pedir toda vez que precisa.
— Ah, então é isso! Você quer ficar com mais dinheiro!
— Não! Eu não quero mais do que tenho! Eu quero aquela mulher por quem me apaixonei e com quem me casei!
— Mas eu sou a mesma, não sou?
— Não, aquela era ativa, inteligente, trabalhadora, esperta.
— Você se encheu de mim? É isso?
— É isso.
— Você quer se separar?
— Não! Você ficou burra agora?
— Então eu sou chata e burra. Por que continua comigo?
— Porque eu amo você!
— Mas não demonstra isso.
— Estou demonstrando agora. Quero o melhor pra você.
— Não estou entendendo...
— Saia de casa, arrume um trabalho, enriquece sua vida.
— E quem vai cuidar da casa?
— Uma empregada, uma faxineira, sei lá. Alguém que também vai trabalhar, ganhar...
— Alguém que eu vou ter que pagar, né?
— Não. Eu pago. O que você ganhar é só seu, você faz o que quiser com o seu dinheiro.
— Mas você não vê nada de interessante em mim?
— Vejo sim, mas isso eu falo depois, na cama.
— Tá bom. Vou procurar um emprego amanhã...

Nenhum comentário :

Postar um comentário