DOS DIÁLOGOS INFORMAIS - 12

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— ... e aí, de noite, ele se veste de mulher.
— Só faltava essa...
— É sério! Ele se veste mesmo!
— Cê tá de brincadeira... Como é que você sabe?
— O Arnaldo me contou.
— E como é que o Arnaldo sabe?
— Ele viu.
— Mas ele sai vestido de mulher?
— Acho que não. Ele fica no apartamento dele, sei lá.
— Mas eu já fui na casa dele e ele não estava vestido de mulher.
— Eu também. Mas o Arnaldo, outro dia, marcou com ele de saírem juntos pra balada. Só que o Arnaldo se aprontou antes da hora marcada e decidiu ir mais cedo, passar no apartamento dele e tomar uns drinks antes de saírem. Ele tem uns uísques bons, você sabe.
— Tem. E umas cachaças de primeira, também.
— O Arnaldo chegou, o porteiro avisou no interfone, mas ele não autorizou a subida, disse pro Arnaldo esperar um pouco. O Arnaldo esperou uns cinco minutos, ele não avisava pra subir, o Arnaldo decidiu subir e apertou a campainha. Então o Arnaldo se tocou de que talvez ele estivesse com uma mulher e já ia se mandando, quando ele abriu a porta e mandou o Arnaldo entrar, se desculpando pela demora. O Arnaldo disse que ele tava meio nervoso, cheio de dedos, sabe como é. Logo ofereceu um drink e disse que ia acabar de se aprontar, tava só de cueca. O Arnaldo foi se servir e atrás do barzinho, sabe o barzinho dele?
— Sei.
— Atrás do barzinho tinha um vestido vermelho embolado no chão. Disse que era um vestido bonito. O Arnaldo ergueu o vestido e era um vestido grande, deveria ser de uma mulher alta, foi o que ele achou. Mas aí o Arnaldo se lembrou de que ele tava com uma manchinha vermelha perto do lábio quando veio abrir a porta, que parecia batom. Na hora ele achou que podia ser de uma mulher que estivesse lá, só que não tinha nenhuma mulher. Aí pintou na cabeça do Arnaldo que aquele vestido não era de uma mulher, era dele. Quando ele voltou pra sala, o Arnaldo decidiu jogar o verde pra ver se colhia maduro. Pegou o vestido, disse que era muito bonito e falou pra ele que às vezes tinha vontade de vestir um vestido e que uma vez, numa festa à fantasia, tinha se vestido de mulher e gostou. Aí ele se abriu e disse que também gostava e que se o Arnaldo quisesse podia vestir o vestido dele. O Arnaldo disse que era muito grande pra ele, mas se ele quisesse, podia usar o vestido, que ele esperava — cê acha que o Arnaldo ia perder uma oportunidade dessas... Ele então mostrou um guarda- roupa trancado que tem lá, com um monte de vestidos, escolheu um e se vestiu, com calcinha e tudo. E pôs meia-calça, soutien — ele tem aquele corpo malhado, você sabe — e foram pra sala, ele com sapato de salto e tudo.
— Cê tá brincando...!
— Sério! O Arnaldo não ia inventar uma coisa dessas, ainda mais dele. Aliás, o Arnaldo me pediu pra não contar pra ninguém. Só tô contando pra você. Pelo amor de Deus não conta pra mais ninguém!
— Eu não! Ele forte daquele jeito, praticante de jiu jitsu, eu é que não quero me indispor com ele. Mas quem diria!... Justo ele, machão, maior pegador de mulher...!
— Mas não acabou. Tem mais!
— Não me diga que ele cantou o Arnaldo...!
— Não é bem isso. Imagina a cena: ele, de vestido preto, peruca e salto alto, andando meio rebolante, vai até o som e põe Sinatra, chega no Arnaldo e chama pra dançar...
— E o Arnaldo topou?
— O que você faria no lugar dele? Você não iria querer contrariar o cara, iria?
— Eu hein...
— Pois é. O Arnaldo topou, não tinha o que fazer ali. E aí ele colou o rosto no rosto do Arnaldo, pôs a mão do Arnaldo no peito dele e tudo. E o Arnaldo teve que dançar a música inteira.
— De rosto colado?
— De rosto e do resto!
— Quem diria...
— Mas aí o Arnaldo sentiu que o cara começou a ficar com tesão e cortou o barato dele. E perguntou se eles iam ou não iam sair pra balada. Aí ele pediu pra esperar um pouco, foi se arrumar, e voltou de novo o machão que a gente conhece. Saíram pra balada e ele, como sempre, saiu com uma gata.
— De novo o maior pegador, né?

— Maior pegador? Maior giletão, isso sim!

Um comentário :

  1. Nossa!, não?
    Se não fosse o Arnaldo que tivesse contado, não dava para acreditar, né?

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