JUVENAL - CAPÍTULO 30

30


            Quando se preparava para deitar-se, Marta iria se lembrar desses momentos da manhã, lembranças atadas ao gosto da pasta de dentes, como se os hábitos fossem marcas de que sua vida tinha uma regularidade, como se uma ação tantas vezes repetida contivesse pedaços de sua existência. A mão direita parou o escovar frenético e um sorriso de espuma branca suportou o ardido de menta da pasta ao olhar sobre a pia o anel que tirou para lavar as mãos. E a imagem do velho tímido não se associou ao momento da entrega do anel, no banco da praça, entre o alarido de crianças e a algazarra de pardais; nem ao constrangimento do shopping, quando, fascinado com o pijaminha de seda, fez questão ele mesmo de entrar na loja de roupas íntimas femininas — único homem lá dentro — e comprá-lo para ela, apesar dos protestos. A imagem que lhe veio forte, num relance, foi de sua face de menino naquele velho segurando a bandeja com o café da manhã. “Esse Juvenal...”
            Terminou as abluções, enxugou as mãos e o rosto na toalha branca pendurada ao lado da pia; certificou-se da qualidade da escovação, olhando no espelho um sorriso sem alegria, feito das contrações forçadas dos músculos faciais para esticar os lábios e exibir os dentes ao olhar atento a possíveis pequenos detritos, quase um olhar só por olhar, porque nunca tinha encontrado nada que justificasse esse hábito. Mas desta vez, deixou-se olhar, como se agora olhasse para si mesma, vendo aquele não-sorriso desfazer-se até que os lábios se juntassem relaxados e se incorporassem perfeitos na harmonia estética do rosto. Bonita e surpreendentemente feliz, assim achou-se. Desse modo se viu, ao sentir outro sorriso na face, igual ao que via no espelho, um sorriso feito do desfazer-se da mágoa da morte do pai, da satisfação de ter passado o dia com aquele homem que materializava seus estudos, seus esforços, como se fosse um filho gerado do melhor do seu trabalho, gerado dela mesma no que tinha de melhor.
            Juvenal, um filho, um pai, um irmão, um homem. Um velho? Juvenal seria mais velho que ela nesses últimos dias? E não era isto que ela buscava, quando iniciou sua tese e seu trabalho? Não era a crença de que “idosos são pessoas descartadas pelo sistema que endeusa a juventude para estimular o consumo”? Este velho havia acreditado nela e lhe agradecia com tudo que tinha, num amor generoso e gentil como um jovem jamais é capaz de dar. Juvenal, um homem.
            Talvez agora estivesse se revirando na cama, refazendo o dia, como ela. Ou estaria dormindo, na paz de quem está bem consigo mesmo. Ela sim precisava repensar-se, mostrar-se que tinha a força que despertava em seus idosos. E a frase dita por Juvenal quando passeavam pelo Ver-o-Peso a assaltou ao olhar-se por inteiro no espelho do guarda-roupa do quarto, já com o anel de volta ao dedo. Juvenal lhe perguntava sobre o trabalho, recordando trechos inteiros da tese, sabidos de cor.
            — É. Preciso pensar no meu futuro — disse em resposta.
            — O futuro é hoje, Marta.
            A frase foi dita com um abraço carinhoso em seu ombro direito. Isso foi à tarde, quando era futuro este ver-se no macio da seda bordô do pijama curto. O futuro era agora no presente de seda a cobrir a intimidade de seu corpo no quarto. O que faria aquela mulher de trinta e seis anos no futuro? Experimentou desabotoar o primeiro botão da blusa do pijama, o segundo, o suficiente para puxar a blusa e desvelar um seio. Se quisesse, poderia despir-se toda, ou simplesmente voltar as costas para o espelho e deitar-se na cama. Mas em vez disso, olhou as mãos espalmadas no ar, deixando-se sorrir satisfeita, ao tentar decifrar as linhas da mão. Uma dessas linhas deveria traçar seu destino; as mãos, o destino nas mãos. De novo abotoou os dois botões da blusa do pijama de seda e lentamente dirigiu-se à cômoda.
            Juvenal não se preocupava com o futuro, vivia simplesmente, sem recusas dos fatos, fossem eles o despejo de sua empregada ou a paixão por ela. No futuro de eles dois, a morte. O mesmo futuro/passado de seu pai e de todas as pessoas. Mas antes da morte, havia o prazer do suco de açaí, os afetos das pessoas, as dores, as dádivas, as dívidas e os saldos. Foi o que leu nas linhas das mãos: este momento desenha o futuro que se quer, quando se quer. No quarto ao lado havia um homem a esperá-la no seu paciente futuro. E fora da casa, a chuva caía sobre as ruas, os rios, o rio-mar e o mar. O cheiro suave da colônia também a esperava sobre a cômoda. E ela, o que esperava? E por que deixar-se em espera?
            Olhou para trás a ver-se de costas no espelho, o redondo das nádegas no reluzir discreto da seda, os cabelos negros descendo até o começo das costas, e sentiu que aquela era a imagem que queria de si, a que se refletia com certeza plena no imaginário de Juvenal, que a viu assim, neste pijama, na intimidade de um quarto, o Juvenal que com certeza não só a vestiu, mas a despiu também do pijama, desejoso do seu corpo amado por ele como ninguém amou, nem seu ex-marido, nem ninguém, o Juvenal que não dissociava ela mesma, Marta, do seu corpo, que resgatou o sexo reprimido, esquecido, morto, só para poder sonhar com penetrar seu pênis na vagina deste corpo dela, para em sonhos se darem o prazer maior do corpo, o Juvenal, que em fantasias pouco ligava para suas rugas, para a flacidez de sua pele envelhecida, para os cabelos brancos e se enchia de sensualidade e vigor, com certeza ávido de beijar sua boca, de chupar-lhe os seios, de beijar-lhe as coxas, as nádegas, de meter a língua na sua vagina, na concavidade entre as nádegas, no seu ânus, e subir com a língua lambendo suas costas, seu pescoço, sua nuca, e a língua buscando sua boca, sua língua, com certeza, com certeza sabia muito bem o que queria, e queria ela, ela toda, em cada momento de sua vida, fosse no anúncio do dez com louvor da tese, fosse no vazio da morte do pai, o Juvenal, que se declarou unilateralmente seu homem sem limites de sua masculinidade que habitava seu corpo de homem capaz de vestir sua mão com um anel de brilhante e seu corpo de seda para despi-la como uma rainha ela que agora neste presente com certeza umedecia a ponta do dedo indicador esquerdo na suavidade da colônia e a levava a acariciar de leve o pescoço porque se fosse o caso de ele sentir seu cheiro que fosse o de perfume o que com certeza lhe agradaria com certeza o excitaria mais — ele — Juvenal — que se livraria da timidez e deixaria por fim atuar o homem que fantasiou aqueles momentos tantas vezes.
             E porque com certeza isto era inevitável, agora que seu destino a dirigia para este gesto; e porque com certeza este era um objeto dispensável para que desse os passos seguintes que deveria dar; e porque com certeza este gesto deveria estar marcado na linha da vida de sua mão, ela despiu os chinelos — que ficaram abandonados no centro do quarto, enquanto ela ia para o quarto dele, que, com certeza, a esperava.







São Paulo, jun. a dez. de 1996.
Digitado de dez. l996 a fev. 1997.
Revisto em abr./mai de 2008.
Revisto em set/out de 2013.
   Idem mar/abr de 2014.






DEDICATÓRIA



            Ao homem que me inspirou Juvenal, que aos noventa anos consegue ser um homem apaixonado.

            À doutora, aqui representada pela doutora Marta, que com seu respeito despertou a paixão deste homem.

            A todos os velhos, esmagados pelo desprezo do “sistema que descarta as pessoas idosas e endeusa a juventude para estimular o consumo”.


Com carinho dedico.

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