JUVENAL - CAPÍTULO 29

29


            Um sol intenso, na manhã seguinte, penetrava por algumas frestas da veneziana, por volta das oito horas da manhã. Com certeza, no meio da tarde, a chuva viria pesada, molhando as folhagens das mangueiras das ruas, enchendo cada buraco e escorrendo em enxurradas para o rio. Mas agora era o sol, inundando de luz, lá fora, as atividades das pessoas, desde os vendedores ambulantes até os que negociavam no Ver-o-Peso. Preguiça. Da casa vinham sons longínquos da cozinha, alguém lavando as panelas, os talheres e as louças do jantar de ontem, porque todos ficaram submissos ao sono, que foi vindo devagar, crescendo junto com a conversa animada que Juvenal tinha provocado. Justo que ninguém se preocupasse em lavar a louça, que todos fossem dormir em paz, como há dias não o faziam, que se deixassem para amanhã — aquela manhã — as tarefas do pós-jantar.
            E nesse momento, ali, na preguiça modorrenta do despertar, olhava, sem querer sair do macio dos lençóis de algodão e do travesseiro de penas de pato, um fio de sol que vazava a veneziana e iluminava minúsculas partículas de pó suspensas no ar, na penumbra clara do quarto. O corpo relaxado, pele à mostra na roupa sumária que tinha vestido para dormir, olhar no filete de sol, não pensava, apenas dividia-se entre voltar a entregar-se ao sono e levantar-se para ir ao banheiro urinar, escovar os dentes, lavar o rosto na água fria, pentear os cabelos e quebrar o jejum. Já adivinhava o dia fora do quarto, achando bom o calor que estava fazendo; e crescia um desejo de andar por Belém, corpo imerso em toda aquela luz que o sol ofertava.
De bruços na cama, o corpo indolente, braço direito sob o travesseiro, perna esquerda encolhida, direita esticada, dava mostras de querer mover-se, primeiro no espreguiçar-se, depois no encolher-se brevemente na posição fetal e por fim no deitar-se de costas, olhando o forro do quarto, olhos agora despertos, mão esquerda acariciando a coxa. Marta quase se sentia bem naquela manhã, sem o peso da angústia culpada dos últimos dias. Por certo Juvenal já tinha se levantado e precisava fazer-lhe companhia, embora soubesse que ele tinha sido tão bem recebido pela família, e, neste momento, deveria estar conversando animado como ontem, com sua prosa inteligente e divertida, repleta das informações que só quem já viveu muito pode ter, tão ao gosto das pessoas da casa. “Esse Juvenal...”
            Mas não foi a obrigação de fazer-lhe companhia que impulsionou suas pernas para fora da cama, pés procurando os chinelos sobre o tapetinho. Foi uma espécie de alegria de estar junto dele, um desejo de beijar-lhe a face e provocar a timidez que ele revelava nesses momentos. Assim, sentada na beira da cama, olhava a porta do guarda-roupa aberta, procurando mentalmente o traje certo para aquele dia. Nada de luto, como pediu Juvenal. Uma roupa leve, o short de flores grandes, talvez, e a regata de seda cor-de-rosa. Outra vez Juvenal lhe pôs os pés no chão, parecido com o começo do tratamento, quando seu ceticismo deprimido, traduzido em argumentos inteligentes, irônicos, perspicazes, a fez repensar sua tese e aprofundar suas reflexões. “Esse Juvenal...” Parecido com o livro de poemas, quando lhe mostrou a própria solidão e a noção de que havia bem mais que uma mera tese no ganhar a confiança de um idoso pelo afeto. Queria o afeto? Pois tome amor em troca, minha cara Marta. Parecido com o dia de ontem, quando, surdo à sua recusa, veio de São Paulo ao seu socorro, exigindo que ela voltasse à vida e parasse de se culpar. Pés nos chinelos, iria abrir a janela e vestir-se de vida, porque fora do quarto um homem descoberto e refeito por ela a estava esperando para ofertar-lhe o que tinha de vida.
            Quando Juvenal bateu à porta, ela acabava de vestir a regata de seda cor-de-rosa sobre o short de flores grandes que cobria a calcinha azul-claro, deixando à mostra as coxas morenas.
            — Já vai...
            — Posso entrar?
            — Entra, Juvenal.
            Abriu a porta devagar até que se estendesse o braço e ficou assim, meio vexado, meio atônito, mão direita na maçaneta redonda, mão esquerda equilibrando uma bandeja de madeira, com frutas, suco, leite, café e açúcar, encantado com a beleza dela, sem saber o que fazer.
            — Desculpe, pensei que você ainda estava deitada e... eu lhe trouxe o café...
          — Ô, Juvenal... Se eu soubesse, não tinha levantado. Ninguém, nunca, trouxe café na cama para mim.
            — É, não é?... Agora fico eu aqui, com cara de tacho e uma bandeja na mão... Vou levar de volta.
            — Ah, não! Nada disso! Nem pensar, Juvenal! Faço questão do meu café na cama! Nada de levar de volta!
            — Mas você está tão bonita nessa roupa, que é uma pena voltar para a cama. Vai amassar...
            — Se isto é condição para que eu tenha o meu café na cama, eu ponho a camisola de volta.
            — Deixa de bobagem. Já que se levantou, vai escovar os dentes; deve estar com aquele gosto amanhecido na boca. Assim saboreia melhor o suco de cupuaçu. Mas vai logo, senão vai me dar cãibra no braço...

            — Tá bom. Mas depois eu volto e tomo o café na cama! Pode me esperar. Coloca essa bandeja ali na cômoda. Não sai daqui, hein, Juvenal...

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