DOS DIÁLOGOS INFORMAIS

DOS DIÁLOGOS INFORMAIS


            Quando eu ainda estudava no Ginásio (assim se chamava) do então chamado Instituto de Educação de Americana (hoje tem outro nome), meus amigos e eu encontramos na escola uma velha porta abandonada e decidimos colocá-la num cavalete e fazer com ela um jornal mural que seria exposto no pátio, para que fosse lido pelos alunos no recreio. Chamava-se “A Janela”, nome sugerido por um amigo. E ali “publicávamos” nossos textos — quer dizer: pregávamos com tachinhas nossos textos datilografados —, que eram muito lidos pelos outros alunos, porque preenchiam a falta do que fazer nos intervalos. Pregávamos bobagens de toda ordem, de poemas a comentários pseudopolíticos, de notícias a piadas.
            Eu, dentre outras coisas, redigia a seção de humor, e faziam sucesso minhas releituras cômicas e absurdas das histórias infantis clássicas, publicadas em capítulos. Depois a escola migrou para um prédio novo, muito maior, onde permanece até hoje, e nosso mural também migrou — nós, então, já no Colegial, mais afeitos às práticas literárias e mais presunçosos do que sempre fomos. E continuávamos pregando no mural nossos poemas, nossos comentários, nossas histórias e nosso humor, tudo sempre lido pelos nossos ávidos leitores de intervalos de aulas, com o espaço em frente à porta suportada por um cavalete disputado a tapas.
            Dentre as bobagens que escrevíamos e afixávamos no mural, nessa época criei uma seção a que intitulei “Dos Diálogos Informais”. Eram diálogos em que pretendia mostrar as relações entre pessoas e, sobretudo, as dificuldades e desentendimentos (tínhamos que ser críticos! — como convinha ao espírito da turma). E como tudo que colocávamos lá, meus diálogos eram bastante lidos. Pois foi um desses diálogos que acabou com o jornal — fechou A Janela, como brincávamos depois.
            Nesse diálogo eu queria mostrar essas pessoas que estão mais interessadas no que querem dizer do que em ouvir o que o outro diz. Era uma conversa entre dois amigos que pouco prestavam atenção ao que o outro dizia e acabavam distorcendo um a fala do outro, terminando por brigar, com socos e pontapés. Só que nesse diálogo decidi dar nomes às personagens; um era Diógenes e outro, Arquimedes. Por que esses nomes? Queria evitar nomes conhecidos, que eventualmente identificassem pessoas; por isso escolhi nomes gregos (andava descobrindo Filosofia e lendo História da Grécia, nesses tempos). E não é que no período noturno (eu estudava de manhã) havia dois meninos que se chamavam Diógenes e Arquimedes... Pra complicar, os dois manifestavam tendências homossexuais... Imagine a leitura que meus leitores noturnos fizeram do diálogo... Juro que não conhecia as duas figuras! E nem depois da confusão quis conhecer.
            Fui chamado pela diretora, levei uma bronca brava e a custo consegui convencê-la de que foi coincidência, o que evitou a suspensão iminente. Resultado: a diretora “empastelou” o jornal, proibindo qualquer publicação nossa. E não houve argumento que a fizesse mudar de ideia.
            Isso aconteceu em 1961, se não estou enganado, e como se vê a ditadura já germinava nessa época. Aliás, “empastelar” jornais (como se nomeavam esses atos) era uma prática relativamente comum nos jornais do interior. Lembro-me de quando isso aconteceu com o jornal da minha cidade, O Liberal, assim chamado e que continua sendo publicado até hoje. Provavelmente o empastelamento foi a mando do prefeito, descontente com as críticas do jornal. Mas essas coisas nunca se provavam... E era fácil empastelar um jornal, porque na época os textos eram compostos por um tipógrafo, que com uma habilidade incrível ia catando com uma pinça uma a uma das letras do texto, mais os espaços e pontuações. Para empastelar o jornal bastava virar a caixa com os tipos (letras, etc.). Eram depois vários dias para pôr tudo no lugar. Como se vê, censurar a imprensa era relativamente fácil nesses tempos...
            Mais tarde apareceu o linotipo, uma geringonça que imprimia em chumbo derretido uma linha inteira, que depois, junto com as outras linhas, era arranjada numa caixa de ferro do tamanho da página, que posteriormente ia para a impressão. Então o tipógrafo virou linotipista. Aí já era mais complicado empastelar um jornal, mas nada que atrapalhasse a ditadura que viria em 1964, com seus métodos mais sofisticados e “legalizados” de empastelar.
            Recentemente, numa conversa, lembrei-me desses fatos da adolescência e me deu vontade de voltar a escrever meus Diálogos Informais. Talvez seja um desejo subconsciente de superar o trauma literário que aquela diretora da minha escola causou, com seu autoritarismo repugnante. Hoje não tenho mais A Janela para publicar, mas tenho este blog, que não deixa de ser uma janela aberta para mim. (Agradeço à Lu e ao Gil por isso). Só que desta vez quis fazer de maneira diferente dos da adolescência.
            Diferente daqueles diálogos, estes serão despretensiosos. Não pretendo fazer a cabeça de ninguém e nem mesmo “fazer Literatura”. Apenas quero me divertir escrevendo e espero que seja divertido para quem leia. Se houver alguma “moral da história”, isso fica por sua conta. Também, diferente dos de antes, pretendo sempre partir de falas de fato ouvidas. Então a primeira fala será uma que de fato ouvi; ou de pessoas conversando, ou de alguém falando ao celular, ou de alguém que conversou comigo. A partir dessa fala imagino uma possível continuidade e vou construindo as personagens, até um desfecho plausível. Como exemplo: outro dia, andando na rua, ouvi de um rapaz falando ao celular a seguinte frase: “... e aí, de noite, ele se veste de mulher.” Parti dessa frase e inventei uma conversa entre dois amigos. E assim com todos os diálogos, alguns que já escrevi e outros que pretendo escrever, sempre partindo de falas realmente ouvidas, como a que eu ouvi hoje de duas amigas conversando: “já que ele não liga pra mim, acho que eu vou ligar ele.”

            Bem, chega de história e vamos aos diálogos. Se possível, divirta-se.





1


— Acho que está na hora da gente terminar...
— O quê?!
— Terminar nosso relacionamento, acabar.
— Mas por quê? Assim sem mais nem menos. A gente nem brigou...
— Não dá mais. Se a gente continuar, eu vou começar a detestar você e eu não quero isso.
— Mas por quê? O que eu fiz? Você se apaixonou por outra?
— Não. Eu me enchi de você.
— Mas até outro dia você era apaixonado, fazia declarações de amor, me dava presentes...
— Isso já faz mais de dois meses, né Carolina.
— E o que mudou? Você me achava linda... Não acha mais?
— Você é muito bonita, seu corpo é lindo, seu sorriso, seu cabelo, tudo...
— Então o que é?
— Quer mesmo saber?
— Quero, claro que quero!
— Você é chata, superficial, egocentrada.
— Eu?! Eu sou assim?
— É.
— Você nunca me disse isso. O que eu fiz pra você achar isso?
— Estamos juntos há mais de seis meses; há três vivendo no mesmo apartamento. É tempo suficiente pra gente se conhecer.
— A gente tá junto há mais tempo. Sete, oito meses...
— Seis meses e dezessete dias, exatamente. A gente começou dia...
— Tá certo. Não vou discutir com você essa coisa de números. Sei como você é. Mas me diz por que você quer terminar.
— Já disse.
— Me diz uma coisa que te chateou pra que eu entenda.
— Só uma? Tá bom. Há poucos minutos atrás eu disse que fui promovido a chefe. E o que você disse?
— Não lembro...
— Você disse: “legal”. E em seguida: “fui convidada para desfilar na Fashion Rio. Super legal, não é? Acho que vai ser um up na minha carreira. Você não acha?” Não foi isso que você disse?
— Sei lá, acho que foi. Mas o que tem isso de mais?
— Tem tudo. É um exemplo de como você é.
— Mas você não acha legal que eu vá desfilar no Rio? Todas as modelos dão a vida pra isso!
— Acho e foi o que eu lhe disse. Cumprimentei você por isso. Dei a maior força, fiquei feliz por você. Mas e você? O que você me disse sobre a minha promoção?
— Não lembro.
— Você disse: “legal”. E só. Você faz ideia do que significa pra mim essa promoção?
— Acho que é bom pra você, sei lá...
— São anos trabalhando duro, me empenhando, fazendo cursos... Não é só pelo salário substancialmente melhor, fora outras regalias. É também o reconhecimento do meu valor, meu potencial, minha capacidade, meus méritos...
— Você vai ganhar melhor? Quanto?
— Não te interessa. Estamos terminando, esqueceu?
— Eu também vou ganhar melhor. Pra esse desfile a agência paga mais e...
— Tá vendo? Você não está nem aí pra mim.
— Não é verdade. Eu estou contente que você vai ganhar mais.
— Claro que é bom ganhar mais. Mas pra mim o importante não é isso! O importante é a promoção, o reconhecimento! Deixa pra lá. Você não entende isso.
— Entendo, entendo! Pra mim também é importante o evento do Rio. É um up na minha carreira, sinto o maior orgulho de mim. Mas com isso eu vou ganhar mais...
— Faça bom proveito da grana que vai faturar. Só toma cuidado pra não tropeçar na passarela...
— Eu nunca tropeço. Mas é só por isso que você quer terminar?
— Isso é um exemplo, Carolina.
— Você não se sente mais atraído por mim? É isso? Não gosta do meu corpo?
— Gosto! Gosto muito! Só que tem dois problemas...
— Dois? Que problema tem meu corpo?
— Seu corpo, nenhum. O problema é você. Há quanto tempo a gente não transa?
— Não sei, não fico contando...
— Quatorze dias, Carolina. Um dia, você estava menstruada; no outro, tinha que levantar cedo; no outro, estava com enxaqueca...
— Mas isso era verdade!
— Não duvido. E não é só não transar...
— Que mais que é?
— Ninguém fica transando o tempo todo. Tem o depois. Por melhor que seja a transa, tem o depois. E o depois é feito de convivência, diálogo, atenção, entendimento, cumplicidade. E é aí que a coisa pega.
— Mas a gente conversa bastante...
— Não, Carolina. Você fala e eu ouço. Nossas conversas são sempre sobre você e as chatices do seu trabalho, as fofocas, os ciúmes das suas colegas, as viadagens dos costureiros...
— Mas essa é a minha vida!...
— Pois é. É a sua vida e eu não estou nela.
— Mas você participa, me dá conselhos...
— Não mais, Carolina. Procure um analista pra te dar conselhos.
— Eu não preciso de analista. Quem precisa é você. Eu estou bem.
— Preciso sim. E tenho. Eu faço terapia, esqueceu?
— O que eu preciso é de você. Você quer que eu vá embora?
— Quero.
— E onde eu vou morar?
— Sei lá. Volta pro seu apartamento.
— Mas eu aluguei!
— Alugue outro pra você, sei lá. Se vira.
— Mas eu gosto de morar aqui. Você cozinha bem...
— Cozinha você, agora.
— Eu não sei!
— Aprende. Eu também não sabia.
— Eu não gosto. Estraga as unhas, engordura os cabelos...
— Então come no restaurante, compra comida pronta, se vira...
— Eu não quero ir embora!
— Mas vai. Você tem três dias pra arrumar uma casa pra você. Depois disso vai encontrar suas coisas na portaria, seus cremes, suas roupas, tudo.
— Minhas roupas?
— É. Finalmente vou ter meu guarda-roupa de volta.
— Mas você tem a sua parte.
— Tenho. Um décimo.
— É mais, é um terço. Não tenho culpa se eu tenho mais roupas que você.
— Na verdade é menos de um quarto. Mas isso não interessa mais. Agora o meu apartamento é meu inteirinho. Entendeu?
— Mas...

— Nem mas, nem mais, nem mais nada, Carolina. Se manda!

4 comentários :

  1. Essa Carolina é uma besta, mesmo. Não sei por que ela topou ir morar com esse cara.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Quando era aluna do Gílson no Museu não compreendia porque ele dava preferencia aos textos divertidos e bem humorados, com o passar do tempo e da vida compreendi que uma das condições para se manter são é não levar a vida muito a sério ! Rir ainda é o melhor remédio !

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