DOS DIÁLOGOS INFORMAIS 4 E 5

4

— Alô.
— (...)
— Sou eu.
— (...)
— Não. Eu não estou interessado, obrigado.
— (...)
— Acho. Acho a promoção interessante, mas não estou interessado.
— (...)
— Não. Eu não quero nem de graça.
— (...)
— Não. Eu não leio jornal.
— (...)
— Existem outras maneiras de eu me informar.
— (...)
— Deixa eu tentar explicar pra você: parei de ler jornal desde que acabaram com a vida daquele casal com acusações falsas. Você deve ser jovem, não sabe desse caso. Procure se informar.
— (...)
— Não quero mesmo; e se fosse assinar algum jornal, não seria esse pasquim que você está querendo empurrar pra mim, o mesmo que publicou aquela falsa notícia.
— (...)
— Sei que você está fazendo o seu trabalho. Mas obrigado, não quero uma semana de jornal de graça. Ofereça pra quem lê jornal.
— (...)
— Boa tarde.

(Mais ou menos assim, este diálogo realmente aconteceu. E também é verdade que não leio jornal pelas razões dadas à moça do telemarketing).






5

— “Eu no lugar dela já tinha dado um pé naquele cara há muito tempo!”. Mas a Lurdes, sabe como é a Lurdes, sei lá, parece que gosta de sofrer...
— Ela gosta mesmo é dele.
— Só pode gostar, né... Pra aguentar o que ela aguenta...
— O cara ainda não arranjou emprego?
— Nada! Faz uns bicos de encanador, de eletricista, mas emprego pra valer, nada...
— E ela sustenta o cara?
— O cara dá uma ajuda, mas fixo só o que ela ganha.
— Vai ver o cara comparece de outro jeito...
— Ah, ah, ah!... Só faltava, além de tudo, o cara não comparecer...
— É, uma coisa é certa: o cara é bonito.
— Isso é, mas como dizia minha mãe, beleza não põe à mesa...
— Vai ver é isso: ela põe à mesa e ele põe em outro lugar...
— Ah, ah, ah!... Vai ver é isso mesmo.
— Você não perguntou pra Lurdes disso?
— Perguntar, assim diretamente, não perguntei; mas ela disse que ele é muito carinhoso com ela. E sabe, onde rola carinho rola outras coisas...
— Com certeza deve rolar. Vai ver que pra ela é melhor um vagabundo bonito que comparece do que consolo de mão...
— Ah, ah, ah!...
— Mas você não perguntou sobre isso do cara não trabalhar?
— Perguntei, perguntei! Mas, você sabe, eu não gosto de me meter na vida dos outros, ainda mais na vida de casal. Eu só falei o que eu achava, que não era certo ela sustentar o cara. E sabe o que ela me respondeu? Disse que eu estava com inveja! Pode?
— Ela disse?! Que danada! Só porque tem um cara bonito que come ela!...
— Pois é! Eu não troco o meu, que não é lá essas coisas, mas trabalha duro e paga as contas no fim do mês.
— Eu também não! Se bem que, pra dizer a verdade, bem que eu gostaria que o Anderson comparecesse mais...
— Eu também gostaria que o Júlio fosse mais presente... Mas, sei lá, ninguém é perfeito, né...
— É, o Anderson tá longe da perfeição...
— O Júlio também. É... cada um com sua vida, né?

— É, cada um com sua vida...

2 comentários :

  1. É o que eu penso: cada um com sua vida. Não sou de ficar comentando a vida dos outros.

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  2. Gostei muito deste texto Gilson, e a razão que você apresentou é a mesma que me faz refletir cada vez que leio uma notícia...

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