DOS DIÁLOGOS INFORMAIS 2 E 3

2


— Quanto custa?
— 20 reais em dinheiro, 25 no cartão.
— O quê? Mas isso é um absurdo!
— É o preço, senhor.
— E se fosse um assalto?
— Seria de graça.
— Então este é um assalto.
— Cadê a arma?
— Não tenho.
— Um assalto sem arma...
— Mas esse preço é um absurdo!
— Tem que considerar meu lucro. O lucro é a essência do capitalismo, o senhor sabe.
— Lucro do seu ponto de vista. Do meu é roubo.
— Tá me chamando de ladrão?
— Normalmente esse é o nome que se dá pra quem rouba...
— Não vou discutir. Quer levar, leva; não quer, não leva.
— Não levo. Por esse preço não levo. Posso muito bem passar sem isso. Não vou ser seu cúmplice. Passe bem.
— Quanto custa?
— 20 reais em dinheiro, 25 no cartão.
— Quanto? 25? Mas isso é um assalto!
— A senhora tem arma?...



3
— Mãe, tô com fome. Faz meu prato.
— Faz você.
— O quê?
— O feijão e a mistura estão em cima do fogão. O arroz precisa esquentar.
— Que foi, mãe. Você sempre fez meu prato.
— É, mas agora não faço mais.
— Por quê? O que que eu fiz?
— Não é o que você fez. É o que você não faz.
— E o que eu não faço?...
— Seu prato, por exemplo. Quer que eu fale mais? É fácil, você não faz nada...
— Também não é assim, né mãe.
— É assim, sim!
— Vai, faz meu prato, faz...
— Tá com fome? Levanta a bunda dessa cadeira, desliga esse computador e vai pegar comida. Tá em cima do fogão. Conhece o fogão? Então, tá lá sua comida.
— Então não vou comer, vou morrer de fome!
— Você que sabe...
— Pô, mãe, qual foi? Você sempre me deu comida, o que mudou agora?
— Mudou que eu mudei; me enchi dessa sua apatia. Você tem razão, eu sempre te dei comida, desde que você era bebê e chupava meus peitos até murchar, isso faz mais de vinte e cinco anos!
— Ô mãe, que grossura! Me poupe desses detalhes sórdidos de minha existência.
— Sórdido? Qual é! Agora vai cuspir no prato que comeu? Ou melhor, nos peitos que chupou?
— Mãe!
— Olha pra você. Você continua mamando até hoje nas minhas tetas e nas tetas do seu pai.
— Puxa, mãe. Eu só queria comer um prato da sua comidinha gostosa, não precisa agredir...
— Agredir? Agressão é essa sua vida inútil, o dia inteiro na frente do computador, dos games e da TV! Isso é agressão! Agressão ao bom senso!
— Eu não passo o dia inteiro no computador, nos games e na TV...
— Ah é! Você para pra dormir também...
— Eu namoro!
— É verdade; aquela infeliz que acredita que você tem algum futuro...
— Eu tenho um futuro!
— Belo futuro! Formado há quase dois anos e nunca trabalhou. Mas essa moleza está acabando, filho. A partir de amanhã você vai procurar emprego.
— Tá bom, eu faço meu prato. Mas eu não sei como esquenta arroz...
— Na cozinha, além do fogão, existe um treco que se chama micro-ondas. Vamos lá que eu te apresento. Você deixa o prato um minuto nesse maravilhoso aparelho ligado e pronto, seu arroz está quente. Não é complicado, você vai ver. É bem mais fácil do que acessar a internet.
— Vai ser sempre assim, ou só hoje, mãe?...
— Não é só isso não! Fiz seu pai tirar férias e mês que vem vamos viajar.
— E eu?
— Você que se vire. Você que cozinhe pra você, ou pede pra sua namorada, sei lá. E tem mais: trate de arranjar um emprego, porque o nosso dinheiro vai pra viagem...
— Tá falando sério, mãe?
— E quando a gente voltar, quero que você procure um lugar pra morar, vá viver sua vida, que já está na hora...
— Mas eu não sei cozinhar!
— Aprende. Eu também não sabia e aprendi.

— Sério que eu vou ter que fazer meu prato, mãe?

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