JUVENAL - CAPÍTULO 28

28


            Sim, foi bem recebido pela família. A casa de venezianas amplas, de salas arejadas e mosaicos portugueses foi feita para receber. Por certo o falecido Valério deve ter sido um bom anfitrião, a julgar pelas cachaças e pelos vinhos expostos numa cristaleira da sala de jantar. Quantos amigos teriam vindo ali bebericar com ele e jogar conversa fora... Era o patriarca, sua presença ainda impregnava a casa e os corações daquela gente, aturdida sem seu comando, e talvez por isso o tenham recebido tão bem. Bem possível que tivessem saudades de alguém mais velho por perto, alguém que lhes solicitasse respeito e lhes mandasse colocar flores no vaso ou reconhecer a firma de um documento.
            Deu pouca atenção ao constrangimento de Marta, como se fosse ele a revelação de suas atividades no sul, escondida de seus detalhes. No seu entender, nem ele nem ela tinham mais tempo para respeitar o sentimento de reserva que todos naquela família revelavam quando se tratava de questões pessoais. Eram muito afetivos e comunicativos nas relações mais superficiais, mas parcimoniosos na demonstração de afetos mais profundos e até mesmo no relato sobre suas atividades profissionais. “Danem-se ela e suas travações com a família.” Ele estava ali e perto dela estaria até seu último dia, quando as lágrimas dela seriam para ele. E ela teria que aceitar que o pai morreu e ele não. Ele não era o pai; era o homem, um velho mais velho que seu pai, mas um homem, ainda vivo, ainda com sonhos e com energia para realizar coisas, como deve ser um homem, como ela lhe ensinou que deveria ser um homem. Nenhum resquício de dúvidas sobre seu desejo de tê-la para si permanecia. Quando um homem se sente homem, não há impossibilidades que consigam prevalecer em seu íntimo, como se o lúcido desvario dos heróis se apossasse dele. Ele estava ali, homem como era e se sentia, naquele momento da vida dela em que a morte se impôs tentando afastá-los. E ela era a médica, a que por profissão afronta a morte, prolonga a vida, mas que naquele momento tinha acabado de perder sua pior batalha. A morte decidiu dar-lhe uma demonstração de força. Desta vez era ele o que cuidaria de seus ferimentos.
            Agora, na cama, pensava essas coisas, luz do abajur acesa iluminando fraca e amarelada as paredes brancas do quarto de hóspedes, um quarto simples, despojado, apenas os móveis essenciais, mas arrumado numa limpeza confortável. Também este quarto tinha constrangido Marta, provavelmente preocupada com a comparação com a casa dele em São Paulo, que ela conhecia muito bem. Juvenal procurou tranquiliza-la, dizendo-se muito bem instalado, como de fato se sentia neste momento. E de fato os requintes de sua casa eram supérfluos. O importante é que o guarda-roupa conteve com sobras as roupas claras e leves que trouxe para adequar-se ao calor de Belém.
            O ar pesado e úmido da noite o fazia suar. No corpo, só a calça do pijama. Segurava com as duas mãos um romance inacabado, aberto em uma página qualquer, esquecido pela força do pensar nela. Só então se deu conta de que estava há muito tempo assim, com o livro nas mãos, costas nuas encostadas no travesseiro que o separava da madeira da cabeceira da cama. Num gesto lerdo, deixou o livro sobre o criado-mudo; não o leria mesmo hoje. Imagens do jantar lhe vieram à mente, o constrangimento de Marta aos poucos se diluindo, até incorporar-se à conversa animada com a família, ao mesmo tempo em que se dissipavam seus temores de que pudesse estar sendo invasivo da privacidade dela. E as falas e os risos se prolongaram por horas, até que o sono deles viesse e fossem se retirando, ela, logo depois da mãe e do irmão mais novo. Os outros irmãos ainda o consultaram sobre questões legais, não só a respeito da herança, mas também sobre as ligadas aos seus negócios e trabalhos.

            Agora precisava dormir. Amanhã faria com que ela lhe mostrasse a cidade e lhe daria, no fim do passeio, o anel com o brilhante solitário. Trouxe-o de São Paulo guardado no bolso do paletó do terno azul claro. Ainda estava guardado nesse bolso, no paletó pendurado dentro do guarda-roupa. O anel era dela desde o momento em que o viu exposto na vitrine da joalheria. E ela que interpretasse o gesto como quisesse. Apenas achava um presente digno dela e estava ansioso e feliz por lhe dar. Deitou-se. Um brilhante solitário. Um solitário.

Nenhum comentário :

Postar um comentário