JUVENAL - CAPÍTULO 27

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            — O senhor sabe... é a primeira vez, desde que... desde que... o Valério se foi, que ouço risos nesta casa. Esta casa era alegre...        
            — Como este mundo dá voltas, dona Valquíria... Tempos atrás, era eu que não ria; vinte anos chorando por dentro minha esposa. Eu morri junto com ela... Até que sua filha entrou em minha vida. Vivi de novo, ganhei uma sobrevida que não esperava. E hoje é a senhora que me diz que trago alegria...
            — Ora, seu Juvenal. Isso é do senhor mesmo. Sempre pensei que paulista era sério, sisudo, sempre correndo para trabalhar e ganhar dinheiro... O senhor, não. É divertido, bem humorado, ajudou o Leandro com os papéis...
            — Queria que soubesse que devemos a ela. Ela me ensinou.
            — “Eu” ensinei, Juvenal. Eu não ensinei nada. Mamãe tem razão; isso é coisa sua.
            — O que eu estou querendo dizer à sua mãe — e isto eu aprendi com você, quer você queira quer não, foi você que me ensinou — é que não podemos fazer nada pelos mortos e nem saber deles. Eu — se é verdade que alguma consciência sobrevive após a morte — gostaria que as pessoas, quando eu me for, continuassem gostando da vida e não morrendo comigo. Hoje eu entendo isso, graças à Marta. Por isso, dona Valquíria, peço que amanhã a senhora ponha flores sobre a mesa, mas não as flores dos velórios; ponha as flores que enfeitam a casa e os cabelos. Podem ser até as mesmas flores que saúdam os mortos, mas a senhora vai colocá-las no vaso sobre a mesa para enfeitar a casa e saudar a vida. E abra as janelas, ouça música. A vida continua, e bonita, dona Valquíria... E por falar em vida, este jantar, hein! Que maravilha! Este pato no cutupi está o máximo!
            — Não é cutupi, Juvenal. É tucupi.
            — Seja lá o que for, está ótimo!

            Trocar de propósito o nome da comida, sorrir, perguntar sobre a cidade, sobre a região, sobre o clima; falar sobre São Paulo, pedindo apoio para Marta; fazê-los rir, elogiar a comida, a recepção, a casa; ajudar o irmão de Marta na legalização dos papéis, conversar com todos, saber de suas atividades. Porque precisava cobrar de Marta a vida — essa moça mais magra, abatida, sem brilho, vestida de roupas escuras. Foi sincero o que disse à mãe dela: de fato sentia-se pleno da vida que ela lhe tinha ofertado. No ar quente e úmido do começo da noite, ele sentia odores desconhecidos que vinham de fora. E não muito longe dali, a floresta imensa regurgitava seus cheiros de mata, de terra úmida e de frutas, dadivosa e fértil, reciclando as águas do mar de rios que convergiam para o rio-mar. As águas que molharam abundantes a tarde, na chuva pesada que caiu por quarenta minutos, no seu ciclo diário de cair do céu e evaporar, já gestando a chuva de amanhã, que virá pontual, como se de água fosse feita aquela terra grávida de vida. Aquela é uma terra feminina, farta, Marta, a exigir dele o úmido dos sentimentos próximos, o úmido de beijos úmidos, de suores de corpos juntos, de humores vaginais, esperma, sangue, saliva; úmido dessa energia primordial das águas dos rios que geraram os peixes do jantar e o úmido dos mangues que criaram os caranguejos do jantar, o tucupi, o pato e o prazer do jantar.

Um comentário :

  1. Muito legal a descrição da terra no ultimo paragrafo. Ficou ótimo.

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