JUVENAL - CAPÍTULO 26

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            Foi no décimo primeiro dia após a morte do pai dela, que ele decidiu viajar para Belém, preocupado com a conversa que tiveram ao telefone, em que ela disse que estava pensando em abandonar a Medicina, porque não conseguiu reverter a depressão do pai, o que, a seu ver, tinha criado o quadro favorável para que viesse o segundo e fatal enfarte. Nem sabia muito bem o que iria fazer lá, mas com certeza mostraria a ela que ele era uma prova viva de suas qualidades como médica. De alguma maneira teria de conseguir afastá-la de lá e das dolorosas lembranças dos recentes acontecimentos. E havia o exame. Quase dois meses sem seu exame que deveria ser mensal.
           Fazia parte de sua metodologia de acompanhamento dos idosos — e era rigorosamente seguido por ela — um exame geral. De início, Juvenal achava esta a parte mais chata dos cuidados médicos que recebia da doutora e brincava:
                — Você é muito chata quando vira médica...
            Aos poucos, foi se integrando na rotina do acompanhamento de seu estado geral essa parte mais técnica, em que ela apalpava o fígado, os intestinos, as vísceras todas, e auscultava o coração, os pulmões, examinava a próstata, as articulações, testava reflexos, enfiava aquela horrorosa espátula na boca para examinar a língua, fazia-o tirar os sapatos para examinar o estado das unhas do pé e ver entre os dedos e fazia uma bateria de perguntas, cujas respostas eram minuciosamente anotadas numa ficha, cheia de campos a serem preenchidos — procedimentos que nos últimos meses sempre a levavam a concluir que sua saúde estava ótima.
            Mas no mês e meio em que estava em Belém, havia deixado essa incumbência para o médico recém-formado que a substituiu. Nos telefonemas e nas cartas, insistia que Juvenal recebesse o rapaz, mas ele se recusava, dizendo que só aceitava a doutora Marta. Esse tinha sido um estratagema que inventou para pressioná-la a voltar e a retomar sua profissão. E, contrariamente ao que fazia na época da doença do pai, nos relatos sobre seus pacientes, sutilmente procurava preocupá-la com problemas físicos e psicológicos que, afinal, idoso normalmente tem.

      Entretanto parecia que essa estratégia não estava funcionando. Até sentiu que ela se desinteressava dos antigos pacientes. Por isso decidiu usar a si mesmo como desculpa para viajar. Inventou que andava sentindo umas dores esquisitas no peito e no ventre e que estava muito preocupado com isso, sobretudo depois que leu num jornal um artigo sobre câncer e se identificou com alguns sintomas da doença. Obviamente Marta ficou muito preocupada, mas de nada adiantou a insistência para que procurasse o rapaz doutor. Lá, esperaria que ela o examinasse com o rigor de sempre, constatasse que tudo estava bem com ele, para revelar que só inventou essas dores para poder estar perto dela.

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