JUVENAL - CAPÍTULO 25

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              — Juvenal...
           — Marta! Que boa surpresa! E que coincidência; estava escrevendo para você e veja quem liga para mim: você! Tudo bem?
            — Não, as coisas não vão bem comigo não, Juvenal.
          — Então, ainda bem que estou mandando boas notícias sobre seus velhinhos, inclusive sobre este velhinho aqui. O Nicanor, veja você... Não, não vou falar, você que espere a carta. Eu...
            — Juvenal...
            — ... falo também da renovação do contrato da Lurdes e ...
            — Juvenal, papai faleceu.
            — Como? O quê?!
            — Papai faleceu, Juvenal, hoje de manhã...
            — Não é possível! Ele estava melhorando, já ia para casa. Não é possível.
           — Isso é relativamente comum, Juvenal, sobreveio outro enfarte, não pudemos fazer nada... Ai, meu Deus, como é difícil...
            — Marta, Marta. Não, por favor, não chore; ai, meu Deus... ou chora, não sei... você está sofrendo... chora sim... Que tristeza... Eu estou com vontade de chorar também...
            O tenso diálogo, entremeado de silêncios, durou uns poucos minutos, mas foi suficiente para que Juvenal percebesse o despreparo de Marta e dos irmãos. No final da conversa, pediu para falar com um dos irmãos, o que estivesse mais equilibrado, para que pudesse orientar sobre procedimentos legais. Foi possível conversar sobre quase tudo, desde o atestado de óbito, até o inventário de bens e a partilha da herança, sempre se desculpando de estar falando dessas coisas nessa hora, mas com agradecimentos do rapaz, que, como comerciante, tinha boas noções sobre os trâmites legais. E pensou em ir para Belém cuidar ele mesmo dos documentos, mas não iria sem consultar Marta.

            Ela lhe pediu que não fosse, já tinha feito muito; ficaria constrangida com sua presença lá. E também queria ficar sozinha, pensar em tudo que não estava conseguindo pensar, desde que o pai adoeceu. Respeitou, mas conseguiu a permissão para telefonar uma vez por dia, entre sete e oito horas da noite. Quanto às cartas, continuaria escrevendo, mais livres dos relatos dos acontecimentos, mais poéticas, reflexivas.

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