JUVENAL - CAPÍTULO 24

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            Tinha razão; o proprietário assustou-se quando ameaçou entrar na justiça. Também, coitado, quase tão velho quanto ele, recebendo uma aposentadoria ridícula, precisava daquele aluguel para ter um fim de vida com alguma dignidade. As economias da vida inteira aplicou na compra do terreno e na construção de duas casinhas que alugava. Que culpa tinha, se o filho mais novo resolveu casar-se e tinha pedido a outra casa, a maior, a de aluguel mais alto? Como iria viver? Da aposentadoria humilhante? E poderia cobrar aluguel daquele filho destrambelhado que nem tinha onde cair morto? Quem sabe se casando tomava juízo... Então, ele até já não tinha arrumado um emprego? É verdade que ganhava pouco, mas era um emprego; melhor que viver na vadiagem... Não, não podia negar-lhe a casa. Restava a outra, a de Lurdes, gente honesta que pagava tudo nos conformes, não tinha queixa. Mas o aluguel estava muito barato, contrato antigo, muito abaixo do mercado.
            A vontade de Juvenal foi pagar o que o homem pedia, coitado, trabalhador honesto, que só estava querendo um fim de vida decente. Imagine, sessenta e cinco anos e ainda fazia uns servicinhos de pedreiro para ajudar na renda, sustentar sua velha, diabética, que vivia adoentada. Mas e Lurdes? Outra coitada, maior ainda, marido cobrador de ônibus, filharada na escola... “Ó, mundo tão desigual...”, a poesia de Gilberto Gil lhe veio à cabeça, lembrança da música do disco que Marta lhe deu no aniversário junto com o pulôver azul claro de cashmere.  
            Então fez o que achou justo. Propôs um aumento de vinte por cento acima da inflação, que o homem aceitou, “fazer o quê...”; e reajustou o salário de Lurdes para que pudesse honrar o compromisso. Cento e vinte cinco reais. Para ele não era quase nada. Mas para essa gente... Também havia uns reparos para serem feitos em sua casa, no muro do lado, na parede da lavanderia e mais a troca de uns encanamentos velhos. Trabalho para uns quinze dias, que o homem gostou mais do que do aumento. E havia ainda a promessa de indicá-lo para pequenas reformas na casa do filho e na do vizinho, que, sabia, estava pensando em trocar o piso da garagem e do quintal. Isso se gostasse do serviço. “Sou bom pedreiro, o senhor vai ver.”
            Quando o telefone tocou, ele estava sentado em frente ao computador, digitando o relato desses acontecimentos para Marta, atendendo a uma solicitação de que contasse tudo sobre suas atividades, principalmente as do advogado redivivo. Já a vida dela, ao contrário da sua, andava sem muitas novidades. O pai apresentava melhoras no estado geral de saúde e no ânimo para viver. Mais importante tinha sido o reencontro com ele, poder conversar, resolver pequenos atritos da adolescência, reatar um amor atrapalhado pela distância dos últimos anos.
            As cartas dela não tinham nem a frequência, nem a prolixidade das suas, mas eram suficientes para que se mantivesse informado. Normalmente não tinham minúcias, nem muitos fatos novos e falavam de uma rotina de andar por Belém, rever lugares, visitar umas pessoas e ir para o hospital acompanhar o pai, que já tinha saído da UTI e estava num quarto. Breve talvez fosse para casa, onde, quem sabe, melhoraria de vez. Ele já pensava em relatar (quando o telefone tocou) o resultado dos telefonemas que deu durante a semana aos pacientes dela e à clínica, para mantê-la informada, conforme ele mesmo tinha sugerido, antes de ela ir para Belém, como um modo de facilitar sua ida. O telefone tocou pela terceira vez — quem seria?
            Fosse quem fosse, atrapalhava a redação da carta. Talvez Raul, que andava ligando para ele todos os dias, desde que ganhou o caso e o fez receber a indenização. Mas Raul ligava à tardinha, à noite, não agora. Marta não deveria ser, ela não gostava muito de telefone e ligar de Belém ficava caro. E não adiantou nada dizer-lhe que pagava as despesas, que ligasse a cobrar. “Nada de gastos inúteis, Juvenal. Além do mais, você escreve tão bem...” — foi isso que ela disse. Em vez de conjecturas, melhor atender de uma vez. O quinto toque:

            — Alô...

Um comentário :

  1. Gostei da descrição da historia do imóvel, das reações, muito verdadeiro. Acho que é a Marta ao telefone.

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