JUVENAL - CAPÍTULO 23

23


            Na mão, a carta ainda fechada. Os olhos perdidos na luz fosca da tarde. Da cozinha vinham os ruídos da arrumação de Lurdes, finalizando seu trabalho. Melhor esperar que Lurdes fosse embora para abrir o envelope e ler com calma, sem riscos de ser interrompido. Tempos atrás estaria sentado na mesma poltrona envolto em pensamentos mórbidos. Mas, neste momento tranquilo de fim de tarde, pensava em pessoas que amava, não mais em Veridiana, que já se foi, “que Deus a tenha”; seu filho, Lurdes, Marta... Em sua mente misturavam-se procedimentos jurídicos, lembranças do passado e Marta.
            Como tinha sofrido essa moça. E procurou a ele para se aconselhar. Foi ele que insistiu para que fosse para Belém e deixasse tudo por aqui, até que a situação se resolvesse. Afinal foi seu pai que a sustentou para que fizesse a melhor faculdade de Medicina do país, e agora, que precisava de médico, ela deveria assisti-lo. O trabalho? Ora o trabalho... Foi definitivo o que disse para ela:
            — Ninguém é insubstituível, Marta. Só as pessoas que a gente ama. Você cuida dos pais de tanta gente; não pode deixar de cuidar do seu.
            E ela chorou agradecida em seu ombro por uns cinco minutos. Ele deixou-a ficar, sem dizer mais nada, apenas ofereceu-lhe um lenço, esperando que se aliviassem as tensões dos sentimentos em choque, até que dissesse:
            — Eu sabia que você iria me ajudar a resolver este impasse, Juvenal. Você é o melhor amigo que eu tenho. Muito obrigada...
            E se foi para Belém cuidar do pai enfartado, “um pai mais novo que eu, vejam só...” Não comentou nada sobre o livro de poemas, nem precisava. Certamente aquela não era a hora. Havia um pai moribundo para ser cuidado. E seu amor por ela ia além de tudo, além até da presença dela, e ganhava dimensões que nem ele conseguia alcançar. Voltar a advogar era uma extensão desse amor, não tinha dúvidas, porque amor de fato é vida, é justiça, é criação — é tudo isso que andava vivendo. Pois amor de fato nunca é mórbido, feito de tristezas e depressões. É vital. Vital como foi por muitos anos seu amor por Veridiana. E vital como estava sendo por ela. Amor, quando é amor de fato, a pessoa se ama, se quer bonita, saudável, produtiva e viva; e quer se dar, não importa o modo, como se todas as pessoas fossem objeto de seu amor. Assim ele a amava. Não importava que ela não respondesse as suas cartas. Sem dúvida deveria ter muitas razões para isso. Ele continuaria escrevendo todos os dias, contando as novidades, incluindo poemas, perguntando sobre ela, mas sem exigir resposta. E a cada três dias copiaria seus escritos do computador e mandaria para ela suas dez, doze páginas.
            Lurdes tinha terminado seu serviço e vinha despedir-se dele, cheia de agradecimentos.
            — Fica tranquila, Lurdes. Talvez você tenha que pagar um pouco mais, mas não esse absurdo que o proprietário está exigindo. Traz para mim amanhã o telefone dele, e daqui por diante não converse mais com ele. Diga que ele converse com seu advogado. Se ele a procurar, pode dar meu telefone. Até amanhã, Lurdes.
            Ler a carta, enfim. E soube que seu pai ainda inspirava muitos cuidados, coração debilitado e sempre havia o risco de sobrevir outro enfarte. Tentavam reabilitá-lo para uma operação de ponte de safena, mas estava difícil, porque se apresentava desnutrido; parecia que tinha perdido o ânimo para a vida, justo ele, sempre um homem tão cheio de vida. Mas Juvenal entendia muito bem essa reação de desejar o fim da vida, coisa de velho, de quem desama. Talvez ele mesmo, tempos atrás, se estivesse no lugar do pai de Marta, também não lutasse pela vida. Sem talvez: não lutaria com certeza. Marta está sentindo que pouco pode fazer pelo pai, está amarga, achando que “santo da casa não faz milagres.” Se ele morrer, ela se culpará, chamará para si a responsabilidade da morte do pai. E sofrerá; já está sofrendo. Está só, tendo que confortar a família. Mas quem a conforta? Segue lendo a carta:
            “...só você me conforta, Juvenal. Não sabe como é bom receber suas cartas. À noite, quando todos dormem, vou para o meu quarto ou me sento junto à cabeceira da cama de meu pai e leio e releio suas cartas tão cheias de boas novidades e de carinho (...)”. É. Realmente não deveria esperar resposta. Dirá isso bem claro na próxima carta. “Não se preocupe, minha querida Marta, em responder minhas cartas. Já fico muito feliz em saber que você as lê (...)”. Foi generosa, cinco páginas tristes e culpadas. Também dirá que não se culpe — embora saiba que ela não se convencerá. “Quando você volta, Marta...” Vontade de vê-la. Sim, as fotos de Fernando de Noronha!... Não ficou com nenhuma. Mas tem os negativos! Amanhã terá suas cópias. Aquela em que ela está linda, sorrindo, segurando o chapéu que a brisa quer levar, será ampliada e posta num porta-retratos. “Agora, a carta. Não direi que estou com saudades. Nada que possa preocupá-la. Só no final, fecho da carta:”                                                                       

                                                                       “Saudades, Juvenal.”

Um comentário :

  1. Muito lindo, acho que ela está apaixonada pelo Juvenal. E ele ama sem esperar ser amado...

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