JUVENAL - CAPÍTULO 22

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                —... e então, seu Juvenal, deu-se isso. E o que eu vou fazer? Vou pra debaixo da ponte?
            Ele ouvia o relato de Lurdes sobre sua situação com o aluguel da casa, preocupada com o despejo iminente, se não aceitasse pagar o que o proprietário pedia para renovar o contrato. Na mão, segurava a carta de Marta ainda fechada. Ia abri-la, sentado na poltrona, quando a empregada se aproximou tímida e ansiosa, querendo falar com ele. Mas sensibilizou-se com a situação da mulher e conteve a vontade de abrir a carta, que quase fez com que ele a mandasse esperar, quando ela pediu para conversar. Só que Lurdes costumava ser discretíssima, e que se lembre, nunca o havia procurado, a não ser para pedir materiais de limpeza, essas coisas. A carta ficaria para mais tarde. Já tinha esperado tanto a possível resposta de cinco suas que mandou, que não custava nada esperar mais um pouco. Interessou-lhe o problema da empregada.
            — E o que você quer que eu faça, Lurdes? Que lhe aumente o salário? Eu já pago acima do preço de mercado...
             — Não, seu Juvenal! Eu sei que o senhor me paga bem, não tenho do que me queixar não! Eu só queria me aconselhar com o senhor. O senhor é doutor, estudado; quem sabe o senhor me dá uma luz pra esta situação...
          — Está bem, Lurdes. Vou ver o que posso fazer. Mas fique tranquila que o proprietário não pode colocá-la para fora assim, de uma hora para outra. Fique tranquila. Vou dar uma olhada nas leis atuais e amanhã lhe digo alguma coisa mais certa. As leis de inquilinato vivem mudando, e há muitos anos que não acompanho, entende? Amanhã conversamos, está bem?
             — Obrigada, seu Juvenal, muito obrigada. Então amanhã eu procuro o senhor. Obrigada.
          Estranho este sentimento. Há pouco era vital ler a carta e agora estava mais interessado em vasculhar na biblioteca a lei do inquilinato. Ainda precisava elaborar melhor os argumentos finais da defesa da causa do filho. O juiz havia dado ganho de causa, mas era preciso argumentar para sustentar os valores da indenização, no encontro da sexta-feira, no fórum. É, teria muito trabalho naquele dia, levado por essas circunstâncias que trouxeram à ativa o advogado aposentado. Primeiro o filho, com a causa de indenização e reparação por danos morais pelo calote de um cliente, que havia adquirido dele e revendido um quadro, sem pagar; e ainda o acusou de roubo. E hoje, Lurdes. Com certeza o proprietário estava se aproveitando da ignorância dela e do marido para aumentar mais que o dobro o aluguel.
            É possível que o simples fato de ela dizer que tinha um advogado já o fizesse mudar de ideia quanto ao preço. Talvez resolvesse o caso por telefone mesmo. Sugeriria um aumento simbólico, negociaria e conseguiria uma redução significativa. Se não, iria para a justiça e acabaria por conseguir a mesma coisa. O aumento no aluguel daria ao salário dela e teria um serviço ainda melhor do que ela já faz, agradecida por sua ajuda... É... Não deveria ter parado de advogar, ainda mais quando parou. Sem dúvida foi egoísta. Considerou que já havia ganhado o bastante e não precisava mais da profissão. Até era verdade. Mas agora revia em si um entusiasmo idealista dos tempos de estudante da faculdade do Largo de São Francisco. Importava a satisfação emocionada do filho quando ganhou a causa e o agradecimento de Lurdes.

            Pena que Marta não estivesse aqui para dividir com ela essas satisfações. Ela gostaria muito; saberia que era a responsável por esse vigor produtivo. Então não falava com tanto orgulho do tal de Lupércio, mais novo que ele, que tinha voltado a estudar? “Marta, Marta, Marta!... Como será que está você?...”

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