JUVENAL - CAPÍTULO 21

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A água. Morna, generosa, molhando o corpo, envolvendo gostosa a pele, os pelos, os cabelos, relaxando os músculos, as tensões. Sem dúvida não era coincidência que pai e filho se apaixonassem por ela, sem contar o doutor França, da casa de repouso, que se insinuava também com propostas. Deveria emanar dela uma carência que estimulava esses homens igualmente carentes a alimentar fantasias com ela. É certo que a relação no casamento com Roberto tinha sido muito ruim e a fez pensar em nunca mais se envolver com homem algum. Mas é igualmente certo que seja uma mulher, ainda bonita nos seus trinta e seis anos, e parece que a dedicação compulsiva ao trabalho não consegue disfarçar seus próprios desejos, tão escondidos, que nem ela os admite. Esses homens estão lhe mostrando isso. Até quando vai fingir que não vê?
            A água. Líquido prazer a purificar-lhe o corpo do sal do suor, dos imperceptíveis resquícios de urina nos pelos púbicos, das minúsculas partículas de fezes do ânus, das bactérias da vagina, dos pés, da pele. E a bucha macia, o sabonete de glicerina, os perfumes das espumas do xampu e do sabonete, o barulho da espuma e da água no piso do box. Jamais poderia supor que pudesse ser tanta a recuperação daqueles idosos. Teses são teses. Nem sempre a prática confirma. Não neste caso. Sim, a prática mais que confirmou que a atenção, o respeito, a proximidade, a amizade e — por que não dizer — o amor tinham mais poder que os antidepressivos, os ansiolíticos, os hormônios. Seu Nicolau, Escolástica, Dona Virgínia, Seu Manoel, o Lupércio (que graça o Lupércio! Setenta e sete anos, voltando a estudar); seu Jerônimo, a Maria Antônia, o Nicanor Gonçalves, que gostava de ser chamado de Gonçalves, o Robério, o Juvenal... Juvenal era o melhor do seu trabalho. Aquela inteligência e aquela sensibilidade esmagadas pela velhice e agora sendo recuperadas, melhor, sendo revividas. Difícil sair de uma visita em que não levasse uma novidade, como se ele fosse a própria consciência da viabilidade das hipóteses iniciais. Mesmo os problemas, os “retrocessos”, eram claramente configurados por ele. Impressionante Juvenal! Por que tinha que estragar um trabalho tão bonito com essa paixão? “Por que eu não resolvi antes meu problema e arrumei um marido que me compreendesse, que me amasse, que me desejasse...” Então hoje seria só amiga desse homem extraordinário que era Juvenal. Um grande amigo Juvenal...
            A água. Neste instante, só caía do chuveiro numa tepidez de blusa de cashmere, de sol da manhã, coberta líquida do corpo nu, seduzindo-a para que não saísse debaixo dela, absorta que estava no pensar alheio ao prazer do corpo. O mais impressionante de Juvenal foi revigorar o físico. Em tempo relativamente curto engordou, diminuindo as rugas e a flacidez da pele; endireitou muito a coluna; ganhou agilidade — então ela não viu em Fernando de Noronha? —; remoçou, sem dúvida. O biótipo, corpo longo, magro, é bem favorável; foi durante a vida toda um homem que não precisou carregar o peso extra da obesidade, da gordura que contribuísse para deteriorar a elasticidade da musculatura. Mas ele recuperou a potência sexual. Incrível! Então ela não sentiu em Fernando de Noronha naquele abraço no mar? Era o pênis dele ereto o que sentiu e mesmo deixou-se sentir, pelo “interesse científico” de perceber a extensão do seu trabalho. “Mas que bobagem! Onde é que eu estava com a cabeça?” Até o estimulou, falando carinhosa em seu ouvido, acariciando seu pescoço... Sim, era culpada. Teria sido melhor que fosse ela a sair correndo do abraço e nadado até cansar, até dar cãibra no braço. E ele era mais sensato que ela; não foi por timidez que ele fugiu; foi o bom senso que ela não teve. Não precisava excitá-lo para saber se era sexualmente potente; bastava perguntar. Por que não perguntou? “Que droga de médica eu sou?” Intimamente dizia-se que era por respeito que evitava questões sobre sexualidade; queria evitar constrangimentos. Os idosos não ficam à vontade para falar desse assunto. Mentira! Era preconceito. “De fato, eu não fico à vontade...” E por que insistiu em viajar com ele? Bem que ele resistiu, já devia estar apaixonado. Claro! Essa foi a causa daquela depressão antes da viagem! “Meu Deus! Como eu sou burra para as relações amorosas!” Não era ela mesma que pregava que os idosos ainda são gente? Pois então: gente se apaixona, sente tesão, essas coisas. “Doutora, como você é imatura! Se Juvenal é um adolescente como se diz, você é uma criança estúpida, uma criança brincando de médica com velhinhos desamparados.”
            A água. Banhava seu corpo, carregando alguns fios de cabelo que se soltavam de seu couro cabeludo, as minúsculas sujeiras, invisíveis células mortas de sua pele, e escorria para o ralo e daí para os esgotos, até chegar no rio Tietê, escorrendo para o Paraná, para o Rio da Prata, lá entre o Uruguai e a Argentina, para o Oceano Atlântico. Nesse caminho, parte se evaporaria, formaria nuvens e cairia em chuva, dando vida por onde passasse. Parte ficaria no mar, envolvendo os continentes, as ilhas e Fernando de Noronha. Que fazer? Abandonar o tratamento? Diminuir paulatinamente as visitas? Conversar? Fazer de conta que não aconteceu nada? “Mas ele é meu amigo, meu conselheiro, eu gosto dele.” Que fazer? É, não deveria ter confundido as coisas, viajado com ele, estimulado, ainda que com boas intenções, sua paixão. Sabia que ele estava acordado quando se trocou na penumbra do quarto. Que irresponsabilidade! Onde já se viu, doutora; uma médica fazendo strip-tease para seu paciente... Que exibicionismo barato! Por que não se trocou no banheiro como das outras vezes? Não, no fundo, queria excitá-lo, seduzi-lo como qualquer mulher vulgar. E agora, que fazer? O banho está tão bom... É preciso pensar com calma, devagar, conversar com ele, talvez. As coisas estão começando a se aclarar. O banho está bom...

            A água. A água do banho, da vida, da sede. A que penetra na terra, na boca, nos poros. A que afoga, que falta, ressuscita. Água das coisas úmidas, da bruma, da saliva, dos humores. A que banhava aquele corpo nu de mulher, a pele morena do sol do arquipélago e a parte branca das partes que ficaram ocultas do sol na praia. E ela ali nua em si. “Andei muito afastada da minha sedução. Sepultei a adolescente que se apaixonava.” O que será que dela atraía os homens? Desejo não se esconde, pelo jeito, nem que se queira. E eles viam nela uma mulher, não a doutora competente, a estudiosa, a profissional. Uma mulher como estava agora; assim a desejavam. “Mas eu ainda sou bonita, não sou?” E a mão respondeu à constatação, acariciando o ombro molhado, o abaulado do ombro esquerdo, como se um homem, alguém, a mão firme de um homem que se suaviza no contato com a pele feminina, um homem que desejasse aquele corpo e procurasse com sua mão de homem o seu pescoço, a nuca embaixo dos cabelos molhados, e os dedos viessem delicados da mão firme e segura desse homem e tocassem os lábios entreabertos dela, e tímidos penetrassem na boca procurando a língua para que ela, assim, chupasse os dedos dele neste gostar de estar sendo desejada, e esta mão, como a dela agora, descesse pelo colo procurando os seios, ainda bonitos, mesmo que não fossem firmes como aos dezessete anos, os seios olhados com malícia pelo doutor França através do decote quando ela se abaixou, olhados timidamente por Juvenal no escondido da parte de cima do biquíni e na penumbra do quarto, olhados com gula por Raul como se quisesse rasgar-lhe a blusa e o avental de médica, os seios que os dedos dela ou desse homem de mãos firmes tocavam agora no gostoso de circundar o mamilo esquerdo envolto pela auréola arrepiada, enquanto a outra mão dela desse homem buscava as nádegas de poucas celulites, arredondadas, macias pela água morna do chuveiro, apalpando-as ora firme, ora suave, os dedos aos poucos se insinuando no vão das nádegas e insolentes atendendo ao desejo dela de que acariciassem o ânus e ameaçassem penetrar no ânus que levemente se oferecia relaxado ao toque, enquanto a outra mão desse homem acariciava espalmada o ventre e o dedo indicador penetrasse o pequeno orifício do umbigo, o mindinho da mão do homem dela já tocando os pelos e a mão agora desinteressada das coxas grossas se metesse quase inteira entre as pernas buscando o úmido da água e o úmido da natureza dela, quase se encontrando com a outra mão que a excitava ao revés e o dedo médio da mão por fim achando o clitóris e suave, lento, aos poucos ousando um ritmo crescente, mais, mais, até que ela, embaixo do chuveiro, no banheiro de um prédio, que visto de uma altura de aproximadamente quinhentos metros quase nem se perceberia entre os milhares de prédios da imensa cidade de São Paulo, até que ela chegasse ao orgasmo, que lhe amoleceu as pernas, dobrando um pouco os joelhos, fazendo-a arfar quase num gemido que se misturou ao som constante do chuveiro e da água que levava para o oceano os fluidos do seu corpo relaxado.

Um comentário :

  1. Muito delicado este capitulo, as descrições das cenas são perfeitas. Impossível não se envolver. Aprendi muito. Adorei.

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