JUVENAL - CAPÍTULO17

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            Tudo bem na fotografia com moradores do lugar, os dois sorrindo, mas não depois da foto, quando aquela mulher simples que registrou o sorriso dos dois lhe disse:
            — Muito bonita a sua filha.

            Aquela mulher poderia ser mãe dela e ele poderia ser pai daquela mulher. Velho. É isto: um velho de boné ridículo, rindo como criança, montado no jegue, na outra foto. Um velho que ri apaixonado sobre um jegue, eis o que ele é, e assim se vê, de dentro de sua condição, aprisionado no retângulo seguro por indicadores e polegares, ruminando a revolta que lhe amarga a boca seca. Nada de água, velho, não fuja daí, encare-se de frente. Ela, que recusou seu filho trinta e tantos anos mais moço que ele, poderia querer este velho de mais de oitenta? As fotos não mentem, são piores que espelho. “Veja-se, velho!” Veja-se o velho e esqueça o apaixonado, o que se excita olhando aquelas coxas nas fotos, aqueles lábios. “Esqueça, velho!” Não, não fique imaginando o possível formato dos mamilos dela, afaste da memória as curvas das nádegas, sepulte este tesão extemporâneo, incestuoso, tarado. Sim, velho, ela poderia ser sua neta, velho pervertido. Guarde essas fotos, esqueça. Não, você não viajou para Fernando de Noronha, não dormiu com ela no mesmo quarto, não viu a calcinha dela secando no box do banheiro, não sentiu os abraços dela no mar, não passou sem querer a mão na bunda macia dela, “desculpe, foi sem querer”, não recebeu beijos afetuosos na bochecha, nem aquele muito próximo dos lábios, não foi massageado por ela, não andou abraçado com ela, não a teve dormindo em seu ombro no avião, não segurou sua mão, não ficou fingindo que dormia, enquanto ela se trocava, vendo na penumbra do quarto aquelas coxas e aquela bunda dentro da calcinha branca, nem se lembra do contorno dos seios entrevisto pelos olhos quase fechados, “por que não prestei atenção nos mamilos?”, esqueça, você não é um menino olhando pelo buraco da fechadura, não viu nada, você não sentiu nada, nada disso aconteceu. Foi sonho, velho. Acorde!

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