JUVENAL - CAPÍTULO 20

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            Entrou lenta e cansada no pequeno apartamento de um quarto em que morava, abandonando a pasta e a bolsa sobre as estampas de flores grandes amarelas e azuis e as folhas verdes nos tons pastéis do tecido que revestia o sofá da sala. Mais que de costume, o apartamento estava arrumado; a Célia tinha vindo naquele dia fazer a faxina, tudo minuciosamente limpo e bem arranjado, que era como gostava de deixar a casa. Olhou a pasta e a bolsa sobre o sofá e sentiu que agredia aquela ordem. Melhor tirá-las dali e colocar sobre a cama; melhor ainda sobre a bergère no canto do quarto do que sobre o chenile com seus relevos beges tão caprichosamente paralelos da colcha esticada certinha nas franjas que caíam dos lados da cama de casal. No criado-mudo, o despertador digital mostrava em vermelho 16:32 e era um desses raros dias em que estava à tarde em casa. Bom que estivesse assim tão limpa e asseada, diferente da bagunça de roupas atiradas sobre a bergère, portas do armário embutido abertas, cama amarfanhada, que deixou pela manhã, muito cedo, ao sair apressada para o plantão no hospital.
            Cansaço, um cansaço de quem de um momento para o outro atenua um ritmo frenético de dias seguidos e se dá conta de que pode parar. Bem diferente do cansaço de depois de uma atividade esportiva ou do da quarta- feira de cinzas, depois das folias do Carnaval; nem o cansaço do trabalhador braçal, o do boia-fria, após o corte de cana. Era só um estar sem fome, sem vontade de nada, um estar sem, vazia do que se perdeu definitivamente no cotidiano.
            Conteve a vontade de se atirar sobre a cama macia e dormir, ciente de que aquele sono não seria só cansaço, mas fuga também. Também não era hora de pensar sua vida, porque, com os sintomas iniciais de depressão, tenderia para a auto-piedade e para a culpa. Conhecia-se muito bem. Indefeso, seu interior perambulava por aquele limite parecido com beira de abismo em que qualquer escorregão da mente pode remeter à queda sem volta do descontrole emocional, e só pararia quando tivesse a sensação de ter chorado a última lágrima, num sofrimento inútil, vazio de soluções que pareciam nunca existir. Não. Necessária sua racionalidade. E ela lhe dizia que voltar-se para si própria neste momento era inútil. Olhos fechados ao lado da cama, respirou fundo para que sentisse o que havia de físico em seu cansaço, seu corpo exigido em excesso pela mente, mal dormido, extenuado. Com certeza o banho era o melhor que poderia fazer por si neste momento.

 Lenta e cansada como chegou em casa, foi se despindo, primeiro os sapatos, depois as meias de algodão com pequenas flores vermelhas bordadas combinando com a blusa, a calça de sarja azul claro, a blusa de algodão (com pequenas flores vermelhas estampadas combinando com as meias), o soutien branco. Só de calcinha, foi para o banheiro, já sabendo que durante o banho lavaria a calcinha branca e a deixaria pendurada na torneira do chuveiro. Nenhuma vontade de abrir a bolsa e reler com calma o livro de Juvenal dedicado a si, “como era mesmo a dedicatória?”, como chegou a pensar no caminho para casa, na esperança de encontrar nas entrelinhas uma saída para o problema que tinha criado. Depois faria isso. Se fizesse.

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