JUVENAL - CAPÍTULO 19

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            Uma semana depois, Juvenal ainda lutava com o computador recém-comprado, mas já conseguia digitar e imprimir os textos. Logo Raul percebeu a paixão do pai, lendo as duas dezenas de poemas já escritos compulsivamente; mas não sentiu ciúme. Foi mais forte o sentimento de respeito por esse pai, que conseguia sempre reviver, como a lhe indicar que a vida sempre vale à pena. Por esse respeito, não comentou nada com ele, e o ajudou a vencer a insegurança com a “máquina infernal”, como Juvenal chamava. Instalou os programas e pacientemente digitou no próprio computador um roteiro de procedimentos para acessar os programas e o arquivo de poemas e imprimiu essas orientações nos diversos tipos de letras, para que o pai pudesse escolher os mais adequados para os poemas. A pedido de Juvenal, definiu horários de aulas de computação, mas no íntimo desejava que o velho amigo fosse aceito por Marta. E quando questionado sobre sua paixão por ela, disse que era coisa superada, que não tinha jeito mesmo, o que em parte era verdade. Andava saindo com uma cliente também casada, e embora não fosse um sentimento tão forte como o que teve por Marta, era progressivo e crescente, mais sólido também, porque tinha bases concretas. O que tinha de certo era o lento definhar do casamento, apenas apoiado em compromissos formais e em princípios morais cada vez mais discutíveis.
            Os poemas de Juvenal haviam mudado muito. Da rigidez dos primeiros sonetos, tinham evoluído para textos simples na concepção, ritmo dado pelos versos livres, sem métrica definida, valorizando palavras que ele considerava as essenciais da mensagem. Agora expressavam uma percepção sensível da realidade e de si mesmo, poemas cheios de metáforas, assonâncias e aliterações, que lhes conferiam fluência e sonoridade. Juvenal se sentia redescobrindo as palavras e com elas a realidade que traziam — assim disse a Raul.
            — É como se a palavra “casa”, por exemplo, contivesse tudo que eu sei sobre casa e ao mesmo tempo tudo que ainda se pode vir a saber e tudo que já se soube de casa, você me entende? E tudo isso cabe em quatro sons combinados. É como se cada vez que eu escrevesse a palavra ela tivesse um novo significado, fosse uma palavra nova, sem deixar de ser a velha palavra de sempre. É incrível, filho! Você me entende?
            — É como o senhor, não é, pai?
            — Sei lá. Pelo menos é como eu vejo...
            De fato, os poemas mudaram o olhar de Juvenal sobre o mundo. Além da natureza revista em Fernando de Noronha, traziam, nos mais recentes, a cidade, sua casa, suas memórias de infância e, sobretudo, sua percepção do amor. Como quem se apazigua consigo mesmo, lhe parecia indiferente revelar ou esconder seu amor por Marta. Este amor gerava um primeiro fruto concreto que o transcendia. Até então, apenas tinha reformado — seu corpo, sua casa. Agora, criava.
            Não mostrava os poemas para Marta. Só o faria quando tivesse trinta poemas escritos. Por que trinta, não sabia e nem estava interessado em explicar-se. Apenas pareceu-lhe um bom número, um desafio suficiente, difícil de ser atingido, no começo, e muito fácil, após o quinto poema. Quinze dias depois do primeiro, estava próximo desse número e em vinte e um dias o livro de um exemplar único estava pronto, com capa encadernada em couro vermelho, título em dourado: “Versos de Marta”. A primeira página em branco; na segunda, o título; na terceira, a dedicatória escrita a mão: “Porque te respeito, porque te quero bem, porque te amo. Com amor, Juvenal.”

            Ao ler a dedicatória, Marta só conseguiu dizer “eu não sei o que dizer.” E não disse mais nada, refugiando-se na leitura dos poemas para disfarçar o indisfarçável constrangimento.  

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