JUVENAL - CAPÍTULO 18

18


            Quando ela chegou, ele já havia acabado de arrumar as fotos em três álbuns, em ordem cronológica. Só então ela se deu conta de quantas fotos eles fizeram na viagem. Riu-se muito de algumas, relembrando as situações; emocionou-se com outras, comentou lugares, pessoas... Mais preocupado em observar suas reações, ele apenas respondia, contido nos sentimentos e na economia do riso. Por fim fechou o último álbum, sentou-se ao lado dele no sofá, segurou suas duas mãos e disse emocionada:
            — Foi uma bela viagem. A melhor que já fiz. E os álbuns que você arranjou ficaram lindos!... Posso levar para mostrar para meu orientador e para uns amigos?
            — Pode. São seus. Eu fiz para você.
            — Para mim? Pensei que você quisesse as fotos.
            — Não, são suas. Logo eu vou desta para melhor e você fica com uma lembrança minha.
            — Ah não, Juvenal! De novo com essas ideias de morte?
         — Não, não, doutora; não se preocupe. É só uma constatação. Uma pessoa na minha idade precisa estar preparada para isso. É normal, não é?
            — Você não vai se deprimir de novo...
            — Não, estou feliz. Esta também foi a melhor viagem da minha vida. Estou cheio de ânimo...
            — Assim é melhor.
            — Imagine... até escrevi um poema...
          — Um poema? Não me diga! Parece que você está mesmo animado! É por isso que está aí meio tímido. Posso ler?
            Não, não podia, era bobagem, coisa de quem não tem o que fazer. Mas queria mostrar, não falava diretamente dela, mas era para ela, a métrica estava imperfeita, mas ela não notaria isso, deveria ter feito em decassílabos, mas que fazer se o primeiro verso tinha vindo de onze? Queria mostrar, mas o pudor, nudez, o mar no poema, o escuso, esse expor-se ao escrever; e quando se sentiu apenas um velho fazendo charme, mostrou o poema:

                                   O mar, como amar, circunda e ilha a terra
                                   Devolve em onda mansa o sal profundo
                                   Lágrima oceânica que a alma espera
                                   Falas sussurradas do amor do mundo.

                                   O mar, como amar, oferta peixes vivos
                                   Contido pela terra, inverso infinito
                                   Aos olhos que se perdem — um ser lascivo
                                   Aos corpos que mergulham — imenso agito.

                                   Mar, que em mim é mar, me faz amar a vida
                                   Como se eu contivesse do mar a lida
                                   O ir e vir das ondas do meu passado.

                                   E eu do mar contido me vejo ilhado
                                   Ao mesmo tempo sou mar e continente
                                   Se amor ou dor, mar ou mágoa, estou contente.

            — Que lindo, Juvenal!...
            — Gostou?
            — Muito! Gostei muito! Não sabia que você era poeta.
            — E não sou. Apenas fiz um poema, não significa que sou poeta.
            — Como não é? Este é um poema muito bonito. Você escreveu outros, escreve sempre?
            — Não. Só fiz este, deu vontade...
            — É o primeiro? Que incrível!
            — Na adolescência escrevia... Acho que estou virando adolescente...
            — Faça outros, Juvenal.
            — Ah... sei lá... É uma coisa meio démodé. Metrificado, rimado, e ainda por cima, soneto.
            — Deve ter sido difícil, metrificar, essas coisas...
            — Deu vontade de fazer assim. Versos undecassílabos, métrica pouco comum...
            — Você é incomum, Juvenal. Faça outros. Não tem importância essa coisa de métrica. Poesia nunca é fora de moda.
        — É. Isso é verdade. Mas eu gostei de fazer este poema. Pensei em fazer mais, me deu realmente prazer.
            — Isso, Juvenal! Escreva um livro.
            — Um livro? Um livro... Pode ser... Será que eu consigo?
            — Claro! Não se preocupe com o livro. Vai escrevendo. Quando perceber, já tem o livro.
            — Um livro... O senso comum diz que um homem só é completo se tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Filho, eu tive um; árvores, eu plantei muitas. Só falta o livro para eu ser um homem completo...
            — Com livro ou sem livro você já é um homem completo, Juvenal.
            — Ora, pare de me bajular! Mas está bem, vou fazer. Por você. Para você.
            — Faça por você, Juvenal.
            — Faço para você. Quem escreve quer leitor. Você é a única leitora que eu quero. Além disso, você é a minha musa. Todo poeta precisa de uma musa. Você é a minha.
            — Que coisa maravilhosa! Vou pôr no meu cartão: “Doutora Marta Ribeiro Felício, médica e musa.” E quando perguntarem de quem eu sou musa, direi que é de um jovem poeta de oitenta e três anos.

            — É. Eu sou um jovem poeta velho. Ou serei um velho poeta jovem? Ou um velho jovem poeta?

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