JUVENAL - CAPÍTULO 16

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            A solução era a viagem. Para ambos. Na oscilação dos sentimentos, entre o ciúme pelo filho e a compreensão paternal, a depressão e a ansiedade, o desespero e o desejo de lutar, o sono exagerado de fuga e a insônia, num desses momentos de medo de perdê-la ligou para ela e disse, sem responder às perguntas formais de início de conversa:
            — Vamos para Fernando de Noronha.
         Também ela dispensou quaisquer outras considerações perfeitamente cabíveis naquela situação:
            — Vamos. Passo hoje mesmo numa agência de viagem e faço as reservas.
            E assim foi. Mais tarde, chegava à casa dele com tudo pronto. Viajariam três dias depois, voo charter Fly até Natal, noite no hotel e, na manhã seguinte, num Bandeirante até o arquipélago.
          — Fly? Fly é mosca. Quem pode confiar numa companhia que tem nome de mosca? Se o avião passar numa nuvem de inseticida, estamos perdidos...
            — Você está com medo?
            — Você não?
            — Não do avião.
            — Do que, então?
            — Sei lá, estou insegura, há anos que não viajo...
            — É. Eu também.
            — Então está tudo bem. Assim, um ajuda o outro.
 Mais uma vez ela tinha razão. Sentia-se outro homem quando voltaram de Fernando de Noronha e ele se perguntava como podia ter ficado tantos anos sem uma viagem dessas, alimentando depressões. Ainda vivos na memória e nas fotografias os momentos de felicidade só comparáveis com a da infância e mais tarde, quando namorava Veridiana. Neste momento, organizava o álbum com todas as fotos, mesmo aquelas em que se achava ridículo, como a que está de boné, óculos escuros, camiseta regata, segurando as sacolas, corpo branco avermelhado, depois de uma semana do sol escondido de sua pele durante décadas, cara de parvo, turista que não se sente à vontade na sua condição. A foto foi feita em Natal, nas dunas de Genipabu, que decidiram conhecer, na volta do arquipélago.               
            Sobre a mesa da sala, mais de uma centena de fotos espalhadas, um mosaico de realidades aprisionadas, de olhares fixados, instantes retidos definitivamente no tempo, documentos desordenados a comprovar a verdade de seu passado recente. A mão direita, guiada pela intuição, ia construindo pacientemente uma lógica que sequenciava aqueles retângulos coloridos, deixando fluir as emoções potenciais ali contidas. E organizava, bem arranjadas no álbum, as muitas fotos dela, no avião, no barco, no biquíni amarelo de flores discretas, no susto da onda, na branca areia da praia, no restaurante olhando o mar, de chapéu, de vestido, de short... E as de paisagem, maravilhosas paisagens de céu e mar azuis, de pedras, de caminhos, de barcos, de recifes, de golfinhos... E em cada uma recordando o seu momento, instantes de felicidade guardados para sempre no colorido luminoso das fotografias.
            Presentes, também, as recordações que a câmera não fixou, que iam desde o prazer da comida e da cerveja gelada até a insônia da primeira noite dos dois no mesmo quarto, camas separadas, mas tão próximos... Porém, de todas as lembranças, a mais forte era a de quando entraram pela primeira vez no mar, mãos dadas, o friozinho gostoso da água contrastando com a pele quente do sol forte no calor da manhã, subindo aos poucos pelas canelas, pelos joelhos, pelas coxas, molhando o calção, o sexo, a cintura, até que a onda se arrebentasse no peito, fechando os olhos no impulso do mergulho. O som da água nos ouvidos, e nadar, braços em movimentos ritmados e coordenados com o bater dos pés no fim das pernas horizontalmente esticadas sobre a água, nadar, até ouvir os gritos aflitos dela, temerosa de que se afogasse, e boiar olhando, olhos semicerrados, o sol e um céu azul, azul... Depois nadar devagar para voltar na direção do inesperado abraço dela, braços em torno do seu pescoço, mãos acariciando seus cabelos molhados e seu rosto, sentir sua pele macia e lisa pela loção de filtro solar e pela água, as coxas grossas e firmes roçando nas suas, o rosto molhado, os cabelos molhados encostando em seu rosto, os seios espremidos na parte superior do biquíni se esmagando ainda mais no seu peito, o som do riso dela ecoando em seu ouvido direito e a reprimenda carinhosa por ele ter ido tão longe, aquele corpo amado, desejado, seminu, abraçado na leveza da água tempo suficiente para que superasse a surpresa, ficando assim, agarrada a ele, os dois balançando nas ondas que iriam quebrar metros adiante, tempo suficiente para que se esgotassem as falas e sentisse o prazer de abraçá-la, e se excitasse tanto, que com certeza ela sentiu seu pênis rijo erguendo o calção, como se buscasse rasgá-lo e rasgar também a parte de baixo do biquíni, que deveria esconder um tufo generoso de pelos negros e, escondido entre os pelos, um buraco úmido como ela toda, que aquele pênis desejava loucamente penetrar. O pênis esmagado pela sunga do calção, pela pressão do púbis dela, pelo peso de sua idade, pela moralidade imensa como o mar; e foi por isso que ele se afastou quase bruscamente do corpo dela e se atirou de novo na água, nadando, nadando, nadando paralelo à praia, para não preocupá-la, até se cansar, e depois deitar-se exausto na areia, com cãibras no braço esquerdo, ofegante na areia branca, massageando o braço, vendo-a chegar e perguntar preocupada:

            — Tudo bem?

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