JUVENAL- CAPÍTULO 15

15


            Mas que pena o pai deprimir-se justo agora que precisava tanto de um confidente... Lá fora, um dia acinzentado ia se findando, anúncio de noite friorenta; talvez garoasse... E dentro, o mesmo frio do último mês, o mesmo pai glacial, alma se deteriorando, sentado na mesma poltrona, ouvindo sem ouvir um concerto de Brahms, pensando sabe-se lá o quê. “Mas que porra! É meu pai!” Interrompeu aquela conversa com jeito de “faz favor, se manda e me deixa em paz”, desligando o aparelho de som no meio do segundo movimento do concerto e acendendo as luzes, sem se preocupar com a cara surpresa de Juvenal.
            — Pai, preciso falar com o senhor.
          A atitude intempestiva do filho sugeria que o problema era sério e a ansiedade era insuportável. Mas a vontade de ficar sozinho era mais forte. Sarcasmo.
            — O que é? Está precisando de dinheiro novamente?
           — Deixa de lado um pouco suas ironias. É sério. Preciso conversar com alguém e não conheço ninguém em quem confie mais do que o senhor. Sei que anda aí meio pra baixo, deprimido, mas preciso da sua lucidez...
            — O que é? Está enlouquecendo?
            — Estou.
            — Então, por que não procura um psiquiatra?
            — Estou precisando de um amigo, saco! Que merda de pai é você?
            — Tá certo, desculpe. Pode falar, estou ouvindo.
            Silêncio. Desconfiança. Falta de clima para falar.
            — Deixa, vá... Outra hora eu falo. Desculpe a invasão. Fica aí ouvindo seu disco...
          — Quer falar, fala, filho. Desculpe o meu jeito. Ando preocupado, talvez deva também me abrir com você. O que é; fala... É problema com a sua mulher?
            — Mais ou menos...
            — Já sei. Se encheu dela.
            — Mais ou menos...
            — Está apaixonado por outra?
            — É! É isso aí!
            — Isso acontece...
            — Aconteceu, pai.
            — E qual o problema?
            — Como “qual o problema”? É um puta problema!
            — Com aquela mulher que você tem, não me admira...
            — Ela tem qualidades, vai. O problema não é ela.
            — Então qual é? Tá difícil administrar as duas?
            — Você teve amantes, pai?
       — Não. Eu sempre fui apaixonado por sua mãe. Não tive outra mulher por isso, não por preconceito ou por falta de oportunidade. Eu e sua mãe sempre fomos apaixonados. Sua mãe era uma grande mulher, diferente da sua, que é medíocre. Mas qual é o problema?
            — O problema é que ela não está a fim...
            — É. Aí é problema... Você insistiu?
            — Muito.
            — Tentou seduzir? Deu presentes, flores... Mulher gosta de flores.
            — Flores, doces, obras de arte, tudo.
            — Mas a mulher vale à pena, ou é outra chata igual a sua?...
            — Vale muito à pena. É uma mulher extraordinária.
            — Quem está apaixonado sempre acha a mulher fantástica...
            — Mas esta é, pai. Tenho certeza de que o senhor vai concordar comigo.
            — Você também achava sua mulher fantástica...
            — Minha mulher... Ela tem nome, pai. E eu não a achava extraordinária. Estava apaixonado e me achava fantástico.
            — É. Qualquer um se acha o máximo comparado com ela.
            — Mas isso não interessa, pai. Quero saber o que o senhor faria no meu lugar.
            — Você não está fantasiando, entusiasmado em excesso?
        — Não. Ela é demais. Não é só que seja bonita. É bonita, inteligente, sensível, uma grande mulher. Não é dessas mulheres que chamam muito a atenção à primeira vista. Em compensação, com a convivência a gente vai achando cada vez mais bonita, mais interessante...
            — Podemos não ter a mesma opinião sobre mulheres...
            — Não neste caso, tenho certeza. Sei que o senhor acha a mesma coisa.
            — Como você sabe? Eu a conheço?
            — Conhece.
            — Quem é? A Marília?
            — Não, a Marta.
            — A Marta?!
        E Raul iniciou um discurso apaixonado, fruto da necessidade de contar para alguém o sentimento escondido que alterava sua existência, uma fala obsessiva e entusiasmada, alheia ao silêncio do pai e às sutis transformações de sua fisionomia.
            Juvenal passou da lividez do espanto para a raiva, para o ódio que lhe dava vontade de dar um soco no nariz daquele idiota, um murro poderoso que o fizesse sangrar e calasse aquela boca estúpida e desrespeitosa, que falava de sua Marta como se pudesse ser dele, como se pudesse ser de algum outro homem. Friamente olhava o filho homem como alguém inoportuno, e enquanto não ouvia seu relato minucioso do processo de apaixonamento, imaginava-se o esganando, o rosto ficando roxo, até os estertores finais. Mas quando se levantou da poltrona bordô, já havia retomado a racionalidade e buscava forças para sentir-se solidário à dor daquele homem que sofria como ele. Só o que conseguiu dizer foi:
            — Filho, não sei o que dizer...
            Raul queria que ele intercedesse. E aí quem se recusou não foi o homem, mas o pai. Falou um pouco sobre o que conhecia de Marta, sobre seu casamento fracassado, sua personalidade, sua relação com o trabalho. Enquanto ia acendendo outras luzes da sala e abrindo cortinas e janelas, respondeu algumas perguntas, atendendo à ansiedade e à curiosidade do filho. A conversa terminou hora depois na cozinha, os dois petiscando um salame fatiado e bebendo um bom vinho; conversa fiada sobre temores e amores da adolescência e relatos bem humorados da primeira paixão. Em meio às verdades, a meia verdade:
            — Sabe, Raul, vou confessar uma coisa a você. A meu modo, eu também sou apaixonado pela Marta. É de fato uma mulher extraordinária, capaz de mudar a vida de um homem, como mudou a minha. Entendo muito bem o que você está sentindo. Só que entendo também que ela não pode ser minha e me conformo com isso...

            Raul emocionou-se com a declaração do pai, não porque acreditasse que ele estivesse verdadeiramente apaixonado, mas por entender que isso significava um esforço para identificar-se consigo, solidarizar-se. Ao despedir-se, tinha uma certeza. Seu pai estava saindo da depressão e ele creditava a melhora a mais um milagre da doutora Marta, para quem ligaria mais tarde e de quem ouviria um não definitivo e desanimador. Sorte que a esposa o seduziu naquela noite. De olhos fechados, ele imaginava Marta em seus braços.

Um comentário :

  1. Que dialogo bonito entre pai e filho. Quanta maturidade.

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