JUVENAL - CAPÍTULO14

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            E foi por isso que procurou Marta. Nunca havia conversado com ela, a não ser rapidamente, meses atrás, ele chegando e ela saindo, depois de mais uma visita. Trocaram cumprimentos formais, depois das apresentações de Juvenal, disse a ela algumas frases de agradecimento pelos cuidados com o pai e despediram-se formalmente, ela dizendo que já estava atrasada para outra visita. Nesse breve encontro, achou-a jovem e bonita, e até comentou com o pai que a imaginava mais velha. Juvenal lembrou-se de que o pediatra que cuidou dele, quando era apenas Raulzinho, era velho, passado dos sessenta. “Vai ver que é isso; — brincou — para cuidar de criança, velho; para cuidar de velho, moça bonita.” Portanto esta era a primeira vez que conversava mais longamente com a médica de seu pai, a que havia feito a magia de rejuvenescê-lo.
            Mas não demorou muito tempo a conversa para que estabelecessem uma cumplicidade fundada em preocupações comuns. Ela pediu para anotar as observações e os dados trazidos por Raul, já que o esforço de Juvenal para esconder seu estado psicológico real muitas vezes a confundia. Em contrapartida ele pediu que ela não omitisse nada do que fosse profissionalmente possível sobre o verdadeiro estado do pai, desconfiado que estava de que ele ocultava alguma doença grave. E não eram médica e filho do paciente conversando, mas duas pessoas preocupadas com o retrocesso daquele velho que rejuvenesceu e agora envelhecia novamente. Raul temia que ele estivesse se desanimando da vida e queria compreender o que acontecia. De dentro dessa preocupação, ficava atento às ponderações de Marta, aos seus registros e proposições, não só na primeira entrevista com ela, mas também na segunda, na terceira, na quarta, nos telefonemas motivados pelos fatos novos que tinha a relatar das visitas agora mais constantes ao pai e pela admiração crescente por aquela moça inteligente e sensível, admiração cada vez maior, até apaixonar-se.
            Só que, diferente de seu pai, não se passou nem um mês para que isso acontecesse; mas não se pode dizer que tenha sido rapidamente, dada a intensidade e a profundidade desses encontros e conversas. Também foi possível, aos poucos, que falasse de sua vida e de suas atividades, que estabelecessem uma intimidade de amigos, feita de muito respeito um pelo outro. E também diferente de seu pai, não ficou ruminando solitário esse sentimento; declarou-se assim que sentiu que a procurava não mais pelo pai simplesmente, mas por si mesmo.
            Marta ficou abalada com a declaração inesperada e foi só isto que respondeu, da surpresa que sentia, do seu despreparo para ouvir aquilo. Talvez estivesse mesmo estressada, pois nem se deu conta do apaixonamento de Raul, que, sabia, não deve ter acontecido de uma hora para outra. Sentiu-se frágil e vulnerável. Em vão procurava situações que o tivessem estimulado, mas não encontrava nenhuma, sempre lhe parecendo que apenas o interesse por Juvenal os unia. E buscava em si as mesmas razões inconscientes que de alguma forma revelassem um desejo oculto de que isso acontecesse. Só conseguia reforçar a sensação de vulnerabilidade, mas nada a ver com ele.
            Sim, precisava afastar-se; Raul era apenas o filho de Juvenal. Suas ponderações de que ele era casado, filho de um paciente seu; seus argumentos de que ele deveria estar projetando nela suas carências, transferindo para ela a frustração pela perda da mãe — nada disso adiantou, porque Raul estava mesmo apaixonado. Apenas conseguiu suspender as entrevistas, depois que ele tentou beijá-la na boca, aproveitando-se do momento da despedida, quando trocavam beijos na face. Mas não conseguiu evitar os telefonemas, os recados gravados na secretária eletrônica e os presentes quase diários: flores, bombons, gravuras, livros... Indiferente às recusas, Raul escancarou-lhe a solidão e as carências, de que só se apercebeu depois que se apaixonou por ela.

            Até que a ideia de ter um caso com Raul passou-lhe pela cabeça. Estava sozinha mesmo, ele era um homem inteligente, bonito, e, como o pai, tinha um viço sedutor, uma integridade física invejável, um ótimo senso de humor e uma relação apaixonada com a vida. Enfim, não havia nada que obstasse um namoro com este homem. 
           O problema é que essa percepção era meramente objetiva, não se sentia nem um pouco atraída por ele, nada mesmo. Até poderia ser um bom amigo, mas só isso. E foi o que acabou dizendo a ele, como um argumento definitivo.

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