JUVENAL - CAPÍTULO 13

13


            Quando ela chegou naquela tarde, ele estava mergulhado nessas indefinições e se amargurava por não poder revelar os sentimentos mais fundos. A autocensura bloqueava a facilidade da conversa. Por mais que disfarçasse, ela percebeu e preocupou-se. Inventou uma enxaqueca, que provocou um torturante exame, com as mãos dela tocando seu ventre, apalpando fígado, intestinos. A custo conteve o impulso de tocá-la, ao ver o redondo dos seios expostos no V do decote da blusa branca, e maldisse a hora em que inventou a dor de cabeça.
            — Aparentemente não há nada, Juvenal. Você bebeu?
            — Água.
            — Comeu alguma comida pesada?
            — O trivial.
            — Tem dormido bem?
            — Não.
            — Então deve ser isso. Tome uma aspirina e procure dormir bem. O que tem tirado seu sono?
            — Sei lá...
            — Alguma coisa que não quer me contar?
            — Não, não... não sei. Só tenho tido um sono agitado.
            — Você anda preocupado com alguma coisa?
            — Nada que não me preocupasse há três meses.
            — E o que o preocupa há três meses?
            — Nada não. É só um modo de dizer.
            — Tenho notado que você anda inquieto, um pouco tenso. Não quer me falar?
            — É só isso. Ando inquieto, um pouco tenso...
            — Não quer me falar. Está bem, então.
            Ela mudou o rumo da conversa, visivelmente procurando assuntos que antes agradavam a ele e o faziam falar muito. Mas o exame o deixou mais perturbado e lacônico, forçando uma espontaneidade que não conseguia ter, até que a conversa dissolveu-se em silêncios prolongados e tensos. Ela abriu o jogo.
            — Estou preocupada, Juvenal. Você parece que está voltando para a depressão de quando o conheci. Se estiver difícil abrir-se comigo, posso indicar-lhe um terapeuta.
            — Que é isso! Estou longe daquele velho depressivo de um ano atrás. Não sei... acho que estou parado, não sei...
            — Pode ser isso, Juvenal. Você agora tem uma vitalidade que não tinha e continua fazendo praticamente as mesmas coisas...
            — Não. Agora eu cozinho.
            — É verdade. E muito bem, diga-se de passagem.
            — E vou a bailes.
            — Você foi uma vez...
           — É, mas fui. E leio, e ouço FM, e passeio mais, e compro coisas, e reformo a casa, e viajo, e visito pessoas, e converso muito mais com meu filho, e recebo você três vezes por semana, e vou à feira, e vejo TV e tantas coisas mais.
            — Então por que está se sentindo parado? Você é mais ativo que a maioria das pessoas de sua idade.
            — Não sei. É assim que me sinto.
            — Talvez fosse bom sair da rotina. Viajar...
            — Outra vez?
            — Uma viagem diferente, para um lugar que nunca foi. Não há lugares que você gostaria de visitar?
            — Houve...
            — Houve?
            — É, quando eu era jovem.
            — Juvenal! Para com isso!
            — Está bem. Há.
            — Onde?
            — Há, mas não estou com vontade.
            — Onde?
            — Sei lá... Fernando de Noronha, talvez...
            — Fernando de Noronha? Deve ser lindo...
            — Deve, mas eu não vou.
            — Por quê?
            — Porque não adianta.
            — Não adianta o quê?
            — Acontece que eu vou pra lá, entende? E tanto faz lá como aqui. Além do mais, na minha idade...
            — Juvenal!
            — Desculpe, eu sei... sua tese... Mas eu não sou uma tese. Eu sou eu.
            — Sim, você é você. Mas lá, você será mais você, porque estará fazendo uma coisa que quis fazer.
            — Está bem, desculpe. Não tenho dormido bem e estou mal humorado. Mas e se fico doente lá?
            — Qualquer pessoa pode ficar doente lá, não importa a idade.
            — Mas a minha chance é maior.
            — Mas há a chance de que não fique também. Desde que eu o conheço, você só teve um resfriado no inverno. E quando estamos bem, adoecemos menos.
            — Aquele lugar deserto...
            — Fernando de Noronha deserto, Juvenal! Onde já se viu!? E se você adoecer, eu cuido de você.
            — Você?!
            — Você acha que eu iria deixar meu velhinho simpático sozinho exposto às sereias e aos golfinhos?
            — Você iria comigo?
            — Não sei, Juvenal. Eu não tinha pensado nisso; ocorreu-me agora... Também estou precisando de férias. Você falou de Fernando de Noronha, me deu vontade... Eu também sempre quis conhecer. Até que seria um bom lugar Fernando de Noronha...
            — Não sei se quero viajar com você.
         — Desculpe, acho que o invadi demais. Vá sozinho, então... O importante é que busque seu bem estar.
          — Não é nada com você. Na verdade, se fosse para viajar, preferia com você. Estou meio confuso... Sei lá... Não estava pensando em viajar... Você sim deve ir. Só trabalha, só estuda, não se diverte. Não sei como você aguenta.
            — Seria bom... Mas você iria comigo? Assim nós dois resolveríamos nossos problemas.
      — Problema! Eu seria um problema para você. Estaria atrapalhando suas férias. Você ficaria preocupada em cuidar de mim. Você precisa se desligar. Vá você.
            — Juvenal! Mas que bobagem! E desde quando cuidar de você é problema para mim? Você seria uma boa companhia.
            — Por que não leva uma amiga; um amigo, um namorado...
            — Porque ninguém é mais interessante que você.
            — Puxa-saco...
            Aos poucos os apelos da paixão foram prevalecendo e ele começava a se envolver com a ideia de estar com ela o dia todo, vários dias, até que a razão se impôs definitiva, adiando sine die a decisão, no “está bem, vou pensar” com que encerrou a conversa sobre a viagem. Durante o resto do dia e no dia seguinte e no outro, ele oscilaria indeciso entre o desejo de estar com ela e a lúcida compreensão da impossibilidade de uma relação mais funda. E desse modo imobilizou-se, perdendo interesse por tudo, apenas se permitindo, de vez em quando, ouvir uns CDs que tinha comprado recentemente.

            Foi assim, sentado na velha poltrona bordô, que Raul o encontrou, janela da sala fechada, barba por fazer. Preocupou-se. De novo o pai voltava a ser econômico e sarcástico no diálogo, impondo uma distância segura que não permitia trânsito de emoções. Juvenal imóvel. Para Marta, um penoso fingimento de estar bem, umas comidas de temperos errados. E para Raul, um enorme silêncio, feito de conversas fúteis e sem brilho. Por isso, naquela tarde, barba por fazer, afundado na poltrona, Raul teve muito medo de perdê-lo. Preocupou-se.

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