JUVENAL - CAPÍTULO 12

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            “Outra vez!” Segunda vez na semana que sonhava com ela. Mas desta vez, nada de ruas escuras e ele perdido, procurando-a. Sonho claro, muita água, sol e ela acariciando seu cabelo, seu peito... “Sonho erótico nesta idade!...” Deveria contar para ela? “Acho que não”. Iria revelar seu desejo de forma muito explícita. Ainda se lembrava de sua explanação sobre Freud, Jung, essas coisas. Melhor era esconder esse amor, conforme tinha decidido antes. Ela não entenderia; nem ele entendia... Para que estragar essa proximidade, esse afeto respeitoso dos dois? Ela deveria ter um homem que de fato a merecesse e a completasse, não um velho como ele, com um pé à beira da cova, vivendo seus últimos momentos da vida. E deu-se por feliz de ainda conseguir, na sua idade, ser capaz de experimentar um sentimento tão forte. “É. O amor é poderoso.” Mas ela terá quem a mereça. É certo que neste quase um ano de contato com ela, nunca soube de que ela estivesse se relacionando seriamente com nenhum homem. Uma vez disse, quatro meses atrás, — ele nem tinha se conscientizado ainda de que estava apaixonado — que tinha saído com um “amigo”. Mas não falou mais nele. Também falou do casamento desfeito três anos atrás. Estranho uma moça bonita como ela ficar sozinha. Mais estranho que não parecesse solitária, envolvida que andava com a tese e com o trabalho. Mas não era fria. Ele viu como ela chorou quando morreu dona Escolástica, uma de suas pacientes. E foi no ombro dele que ela chorou, lamentando-se do que poderia ter feito, embora soubesse muito bem que tinha sido um sopro de vida nos últimos meses daquela velha. Sopro de vida... Certamente ela choraria quando ele morresse... Outra vez lhe vinham na cabeça os substantivos abstratos. Vida, morte... os definitivos, a síntese máxima do que é um homem. Quantos anos lhe restariam? Seriam meses? Dias? A Escolástica, que nem conheceu, era mais nova que ele. E este velho, muito próximo de virar defunto, tendo sonhos eróticos com uma moça que só estava interessada em lhe oferecer mais uns dias de sobrevida.
            Que fazer? Contar a ela só reforçaria aquela história da transferência de que os psicólogos falavam. É, é isso na verdade o que ele sentia. Mas por que não passava? De nada adiantou a viagem que fez, assim que se percebeu apaixonado, para ver se a esquecia, se apagava da memória este sentimento extemporâneo e incômodo. Até que foi bom ficar na fazenda que foi sua — muito bem cuidada, melhor do que quando lhe pertencia; foi bom arriscar-se a cavalgar um cavalo manso, apesar das dores nas pernas no dia seguinte; foi bom pescar na represa, agora com peixes de qualidade, bons de briga; e sobretudo foi bom ir até Ribeirão Preto encher a cara de chope no Pinguim, jogando conversa fora com o amigo que o recebeu tão bem, cercando-o de atenção e de cuidados; um verdadeiro amigo... Mas a paixão, essa só fez aumentar e a viagem despertou com mais intensidade o sentimento da saudade, muito maior do que a que sentia por Veridiana. “Saudade de gente viva é muito mais doída...” Ao menos esta paixão tinha uma coisa de bom. Superou o amor desesperado e mórbido pela esposa falecida. E principalmente superou a raiva que sentia por ela ter lhe abandonado, como se entendesse que cada um tem a sua hora. Talvez seja esta a marca de seu fim de vida: experimentar o concreto destes abstratos — paixão, amor, saudade, solidão... velhice.
            Não. Não contaria o sonho para ela. Muito menos que acordou com o pênis ereto, que a ereção demorou bem uns dez segundos depois de acordado, e, como a paixão, esses acontecimentos ficariam na vala das coisas que não se contam, que nunca se revelam para ninguém. Mas também, que diabo! Ele não poderia ser um velho normal? Por que não era como os outros, resmungando, mastigando a dentadura ou a gengiva nua, se arrastando pela casa com seu velho chinelo... Mas não. Estava ali, com aparelho nos dentes como uma criança, apaixonado como um adolescente, tudo isso num corpo decrépito, beirando o túmulo. É, sua nora é que tinha razão. Ele era um velho pervertido. Por quê? Ou então, ele estaria diante da existência da alma, algo vital que resiste à morte do corpo, algo que não tem idade, tão forte que ressuscitou seu sexo morto e enterrado há muitos anos. “Quem sabe a alma, o espírito, é isso.” E pensou em retomar as leituras sobre Espiritismo que tinha feito há mais de quarenta anos, quando pela primeira vez sentiu de perto o temor da morte.

            Foi logo depois da morte de seu pai. Naquele tempo, recém-casado, o filho ainda de colo, era cheio de vida e de planos. Um advogado promissor, com poucos clientes e poucas posses que iria herdar com a morte do pai e ainda divididas entre os outros quatro irmãos. Os irmãos. Dois deles ainda são vivos, um morando em Mato Grosso, fazendeiro bem sucedido; outro vivendo no Rio, advogado aposentado como ele, mais rico que ele, por sua especialização em Comércio Exterior. Por que se viam tão pouco? Por que se contentavam com as esporádicas conversas ao telefone? Estranho como a vida junta e separa as pessoas... Na infância eram tão unidos... O pai, aquela presença forte, aquela autoridade, tinha muito orgulho deles todos. Sem dúvida ele não tinha decepcionado o pai, isso ele lhe disse no leito de morte. O pai. Agora era ele próximo da morte. Será que seu filho ficará também preocupado com o sentido da vida quando ele morrer?

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