JUVENAL - CAPÍTULO 9

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            Trocou as lâmpadas da sala assim que ela saiu, perguntando-se como pôde ficar tanto tempo com aquelas lâmpadas de vinte watts no lustre. Também as de quarenta lhe pareceram fracas, precisava das de sessenta ou talvez cem. Para isso, teve que ir ao supermercado — nunca tinha comprado lâmpadas fortes, um desperdício inútil de energia. Raul, de certo, estranharia e também lhe daria uma bronca por ter carregado a escada e, sobretudo, por ter se aventurado a subir nela. Mas não lhe daria explicações de nada; afinal, estava inteiro na sala iluminada, que agora escancarava as ausências de quadros. Nisto permitiria que Raul interferisse. Até que enfim esse filho teria uma utilidade. Entendia de quadros e sugeriria os mais adequados à sala. Também acharia estranho esse súbito interesse por pintura. E daí? Não, não lhe daria explicações que não tinha nem para si mesmo. Ela sugeriu os quadros e isso lhe pareceu necessário. Ponto final.
            Não esperou o domingo. Naquela noite mesmo ligou para o filho surpreso, pedindo que lhe trouxesse no domingo alguns quadros para a sala. Pagaria por eles como qualquer comprador normal, ele que não se preocupasse nem economizasse, desde que não fossem raridades ou tivessem preços fora de suas possibilidades. Mas que fossem quadros de bom gosto, adequados à harmonia da sala, que dessem vida às paredes. Aos argumentos de que precisava discutir com ele as escolhas, possíveis compras, valores disponíveis, contrapôs sua vontade de ver logo a sala mudada, sua ansiedade e a confiança no bom gosto do filho. Pegou-o por aí. Nunca, que se lembrasse, tinha feito elogios a ele. Ouviu do outro lado o “pode deixar comigo” que queria ouvir. Enfim, na próxima visita, a sala estaria ao gosto da doutora. Uma grande satisfação consigo mesmo o invadia quando desligou o telefone.
            Dez horas da noite e ele andando pela Augusta à procura de uma farmácia aberta. Os carros passando devagar, na troca de olhares dos jovens que se procuram à noite nessa rua, as vitrines iluminadas, atraindo os possíveis compradores do dia seguinte, pessoas nas calçadas, nos caixas eletrônicos, entrando nos cinemas, na galeria, andando em direção aos bares dos Jardins. E Juvenal atento ao movimento, às luzes dos letreiros, ao ir e vir das pessoas, olhando vitrines, sorrindo, inexplicavelmente sorrindo. “Quanta vida tem a noite... quanta vida!” Achou a farmácia, pediu para aviar a receita. Mais: comprou um sabonete diferente, uma pasta de dentes diferente, importada. Estava um pouco longe de casa, não muito. Bom. Assim poderia passear um pouco mais na noite. O friozinho seria muito desagradável até uns dias atrás. Hoje não. Era só um friozinho que fazia... “Bom passeio. É gostoso caminhar à noite.”

            Não esperaria até o almoço de amanhã para tomar a pílula. “Meu corpo espera...” Tomou uma e foi dormir, imaginando os benefícios que as vitaminas estariam operando em seu corpo, impressionado que estava com as explicações da bula. “É. Ela quer o meu bem...”

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