JUVENAL - CAPÍTULO 8

8


            Quando a doutora Marta chegou, encontrou-o impecável no terno cinza claro, gravata bordô e sapatos marrons.
            — O senhor não precisava vestir terno para me receber... Quero que se sinta à vontade, vestido do seu jeito normal.
           — Mas este é o meu jeito normal. Fora a gravata, que normalmente dispenso. Se você quiser, posso tirá-la.
            — Não, não. Só quero que se sinta bem.
            “Ela me chamou de senhor...”
          — Desculpe-me ter pedido outro dia para que não me chamasse de senhor. Também só queria deixá-la à vontade.
           — Se quiser, posso chamá-lo por você. Fui educada para chamar as pessoas mais velhas de senhor. É um hábito de família.
            — Não, tanto faz. Chame-me como se sentir mais à vontade. Sua família é do interior?
            — Não, Norte.
            — Nordeste?
            — Não, Norte mesmo.
         — Ah, Norte mesmo... É que os nordestinos chamam o Nordeste de Norte. Quando alguém fala Norte, nunca se sabe se está falando Norte mesmo ou Nordeste, sabe como é...
            — Sei...
Estavam parados a dois passos da porta aberta da sala, a luminosidade de fora invadindo a penumbra, ele ainda segurando a maçaneta da porta, ela observando os losangos bordados no tecido da gravata, impecavelmente ajeitada no centro das abas da gola da camisa branca, ele tentando disfarçar o nervosismo, ela esperando que ele a mandasse entrar, ele ainda avaliando se tinha sido bem sucedido na correção do ridículo da primeira consulta.
— Posso entrar?
          — Ah... claro, claro. Entre por favor. Desculpe-me, estou meio destreinado de receber visitas. Entre, pode sentar-se, se quiser. Tenha a bondade, por favor. Isso. Sente-se no sofá. Faz tanto tempo que não me sento nesta poltrona... Costumo sentar-me naquela ali, de frente para a televisão. Nesta aqui, faz tempo...
            — O senhor não recebe visitas?
            — Ultimamente não, desde que... Só recebo meu filho, nos fins de semana. Meu filho, minha nora e meu neto.
            Desta vez ele foi cuidadoso para evitar falas de que depois se arrependesse, inclusive controlando sua curiosidade sobre os propósitos da visita. Esperou que aos poucos ela fosse revelando os objetivos de sua tese de doutoramento, sobre suas propostas de diagnósticos mais rápidos e eficientes, sobre o aproveitamento da Iridologia nesse sentido. E ele alimentava a conversa com perguntas pontuais e interessadas, que a levavam a falar com mais entusiasmo. Ao comparar o interesse dela com a retomada da prática dos antigos médicos de família, ela sorriu agradecida, dizendo que ele havia entendido muito bem os seus propósitos.
            — Mas quantos idosos você acompanha?
            — Com o senhor, são doze.
            — Devo então considerar-me um paciente seu?
            — “Paciente” não é uma palavra que me pareça adequada.
            — Cliente?
            — Essa é pior ainda!
            — Você usa muito as palavras “acompanhar”, “acompanhamento”. Posso considerar-me, então, um “companheiro” seu?
            — Perfeito! Um companheiro, porque o senhor também poderá acompanhar a elaboração de minha tese — se estiver interessado, lógico.
           — Estou sim, estou muito interessado. Posso até auxiliar na correção gramatical do texto, se você quiser.
            — Quero muito! O senhor estudou Gramática?
            — O necessário para não errar. Eu sou do tempo em que advogado sabia redigir. Mas então você acompanha doze, digamos, “companheiros”?
            — Por enquanto. Deverei ainda acompanhar mais alguns.
            — Ou seja, virá visitar-me a cada quinze, vinte dias...
            — Não. Pretendo visitá-lo três vezes por semana, pelo menos. — Se o senhor permitir, é claro...
          — Então você vai passar o dia em visitas, ou não ficará mais do que meia hora... Quando arranja tempo para estudar e escrever a tese?
       — A Medicina, desde a faculdade, nos faz trabalhar de doze a dezoito horas por dia, estou acostumada. E tem também que a maior parte dos “companheiros” são internos de uma casa para idosos em que trabalho. Isso facilita.
            — Um asilo de velhos.
            — Não gosto dessa palavra. “Asilo” tem conotações inadequadas.
            — E o que pretende de mim?
            — Não sei... Pretendo seu bem estar, mas é o senhor que me dará as coordenadas.
            Conteve o discurso de se considerar uma cobaia e o sarcasmo que aquele “não sei...” fez aflorar. Porém a lembrança do café na garrafa térmica que Lurdes deixou pronto o fez de novo cordial. Ela aceitou e preferiu ir tomar na cozinha.

            Mas não foi ao banheiro impecavelmente limpo. Depois do café, escreveu com uma caligrafia de letras redondas, que nada lembrava as tradicionais garatujas dos médicos, o nome de um remédio no papel timbrado, que retirou do talão e entregou a ele. Explicou que se tratava de um polivitamínico com sais minerais e metais necessários ao organismo. Ali mesmo, na cozinha, explicou alguns aspectos da rotina que seguiriam daí por diante, os relatos que teria que fazer, as anotações e os registros. Elogiou seu estado físico, o café, a arrumação da casa; sugeriu que abrisse as cortinas, pusesse uma luz mais forte na sala, colocasse uns quadros na parede. Mas não quis subir, ver seu quarto arrumado e as outras dependências. Precisava ir. Na terça voltaria.

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