JUVENAL - CAPÍTULO 11

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            Marta tinha, entre outras tantas, a qualidade de ser pontual. Assim ele a via, uma moça de qualidades. Precisava contar a ela sobre vontades que andava sentindo, não só a de viajar, já comentada antes e que ela insistia em que concretizasse; ontem sentiu vontade de dançar. Nada de dançar sozinho; ir a um baile mesmo, com orquestra, muitos casais. Fez muito isso na juventude e ontem os bailes lhe vieram à memória, ouvindo um programa de músicas do passado numa rádio FM. Também era importante comentar sobre isto; foi sugestão dela que explorasse as rádios em FM, procurando músicas de seu gosto, em vez de anular as rádios todas no comentário sarcástico de que só tocavam essas bobagens modernosas, músicas de consumo fácil. De fato, descobriu programas de música clássica, de músicas antigas e gostou muito de algumas músicas atuais com letras que eram belos poemas. Estava desenvolvendo esse prazer da pesquisa, de “garimpar” músicas no rádio, muitas delas gravadas na fita que estava montando com suas prediletas. Ultimamente andava mais ouvindo rádio do que vendo televisão.
            Ela pediu logo na segunda visita que ele comentasse qualquer mudança que tivesse, fosse física, fosse de comportamento. Quando ela chegou, na hora marcada, naquela segunda-feira, encontrou-o assim animado com as novidades, ultimando os preparativos do almoço. Ela entendeu o mau humor de Lurdes com a invasão desordenada de seu espaço por aquele velho de avental azul marinho, que andava com a mania de cozinhar, aquele metido, que raramente acertava o sal.
            Mas a salada realmente estava bonita, com seus tons de verde, vermelho e branco, pronta para ser temperada au gout com os diversos molhos, vinagre argentino e azeite italiano. Havia no almoço uma intimidade que ia além da relação médico/paciente, feita da conversa solta, dos risos, das cumplicidades. E foi neste clima que ela comentou sobre o andamento da tese. Finalmente tinha resolvido o problema de juntar todos os dados e distribuir mais eficazmente as citações, consideradas excessivas, antes, pelo orientador. Tinha feito um plano do texto, ordenando na sequencia os diversos tópicos, já definindo alguns subtítulos. Mas faltava ultimar umas pesquisas, completar alguns relatos de casos, concluir umas leituras, conferir com o orientador; e o resto era o “trabalho braçal” de redigir. Sim, ela também tinha seus problemas e ele sentia-se bem se entendendo como solução, não como mais uma dificuldade para ela. Ele era a própria evidência das ideias dela; era a sua tese comprovada, e interessava-se por aquele texto como se fosse por si mesmo. Por isso, quando ela não só o animou a ir a um baile, mas sugeriu também que visitasse velhos amigos, pareceu-lhe que falavam da mesma coisa.
                Oitenta e dois anos e jamais tinha pensado que alguém dessa idade pudesse sentir-se vivo, com vontade de dançar. “Essa menina...” Há meses atrás, afundava-se em depressão e agora, casa e corpo mudados, estava à mesa, comendo um almoço preparado por ele — “quem diria!” — interessado em problemas de redação de uma tese sobre medicina geriátrica. Talvez devesse atenuar a modéstia e sugerir que a auxiliasse na redação. Quando advogava, redigia muito bem — quantas vezes ouviu elogios dos juízes... Ela andou insegura sobre a possibilidade de terminar o texto. Mas parece que com o plano as coisas melhoraram. Logo terminaria e viria a defesa. Terminaria? A ideia de fim cutucou-lhe o estômago como um susto. Atenta, ela percebeu.
            — O que foi?
            — Nada... é que você... nada, nada.
            — Pode dizer. O que deixou você preocupado?
            Ele falou. Agora estava mais acostumado a revelar seus sentimentos, embora ainda fosse difícil. A possibilidade de que, terminada a tese, ela deixasse de visitá-lo deixava-o preocupado. Emocionada, ela sorriu com a preocupação quase infantil.
            — Não, Juvenal. Você acha que eu iria abandonar este velhinho tão simpático?...

            Disse isso tocando com carinho a mão dele espalmada sobre a toalha de linho. E ficou assim, acariciando por alguns segundos a pele enrugada daquela mão nodosa, mantendo no rosto um sorriso meigo, enquanto ele tentava articular alguma resposta. Difícil. Porque aquela sensação no peito travava-lhe a garganta que engolia ansiosa sua própria saliva. E porque aquela emoção mais escondida que a vontade de dançar tomava-lhe o corpo todo, tremendo-lhe os joelhos sob a mesa, sob a calça, percorrendo-lhe o ventre e as coxas finas e fazendo movimentar, levemente, mas vivo, como há anos não sentia, o pênis. E antes que o constrangimento, a vergonha e o exacerbado senso crítico o reprimissem e o fizessem retirar a mão esquerda trêmula submissa sob a dela, ele percebeu, claro como a água do copo dela, verdadeiro como o vinho de seu copo, que estava apaixonado. 

Um comentário :

  1. Estou adorando a leitura deste conto, daí que fico esperando e imaginando com será o próximo capítulo. E achei muito legal o final do ultimo parágrafo. " ... claro como a água do copo dela, verdadeiro como o vinho de seu copo, que estava apaixonado."

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