JUVENAL - CAPÍTULO 10

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            A risada saiu fácil, despreocupada de mostrar o aparelho de ortodontia que prateava os dentes inferiores. Também Raul riu, porque ultimamente não se envergonhava mais de exibir seus sentimentos ao pai e até ousava contar piadas, como há pouco. Sentia uma forte identidade com esse pai rejuvenescido de uns meses para cá, desde que teve a feliz ideia de levá-lo àquela médica. Por certo o aparelho nos dentes o fez relacioná-lo com o filho, e no justo equilíbrio entre os dois, encontrou-se com o homem por quem sentia não o amor filial, mas a amizade de um igual. Os dois agora riam juntos e a mulher não entendia mais esse marido que ontem lhe mandou calar a boca. “Má influência daquele velho pervertido”, disse.
            A sala iluminava-se no fim da manhã de domingo. Talvez o neto estivesse brincando no quintal e os dois ali, bebericando a cachaça em pequenos goles, enquanto esperavam a costelinha de porco assar lentamente no forno, numa conversa fiada cheia de ironias e piadas, reveladora do desejo de rir. Não era hora de assunto sério. À tarde, veriam os rendimentos dos negócios e os planos de futuro. Agora era isso, envolver-se na luz da manhã refletida nas paredes recém-pintadas de branco, diferentes do tom bege de meses atrás. Cabia rever os quadros, analisá-los, revisitar as emoções que provocavam. E cabia comentar que foi boa ideia arrebentar a parede e colocar aquela janela maior, para que a luz entrasse como entrava neste momento. Depois, o almoço, os negócios e a despedida no fim da tarde. Bom domingo aquele! Segunda também seria boa.

            E viria a noite. Nenhum susto no ficar sozinho quando o filho se fosse. Havia tanta coisa para fazer... No jantar, comeria as sobras do almoço mesmo, nada de perder tempo com preparação de comida. A TV a cabo apresentaria Gilda, imperdível. Nenhum saudosismo em rever o filme, que assistiu pela primeira vez com Veridiana, há muitos anos. Não tinha, tampouco, uma predileção por filmes antigos. Só era um bom filme, como bom, no geral, era tudo que andava acontecendo com ele. Marta. Precisava lembrar-se de lhe dizer que houve boa melhora na escamação da pele do pé, depois que passou a beber mais água, como recomendou. E precisava dizer-lhe que, no que lhe dizia respeito, a tese dela era corretíssima. Ele se sentia hoje como há trinta anos. Não. Como nunca se sentiu antes.

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