JUVENAL - CAPÍTULO 7

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            Era sexta o dia em que ela viria. E os dias que antecederam a visita foram um transtorno para Lurdes, a ponto de ameaçar demitir-se. Atento a tudo, exigiu faxina completa, minuciosa, sobretudo da sala e do banheiro. Poderia ser que a doutora quisesse ir ao banheiro e por isso deveria estar impecável. Depois da faxina, não o usou mais, preferindo o do lavabo sob a escada. Mas e se ela não quisesse subir a escada e fosse àquele? Sem muita afetação como tinha se mostrado, era bem possível; ela poderia considerar invasão de privacidade usar a parte de cima da casa. Ordenou nova faxina no lavabo e passou a usar o banheiro de Lurdes. Na sala foi ainda mais exigente. Passar o aspirador somente era pouco; era preciso bater o tapete, deixá-lo ao sol pelo menos dois dias, escová-lo para que os fiozinhos aveludados ficassem no mesmo sentido, realçando as cores. Também os cristais bem guardados na velha cristaleira foram lavados, secos ao natural, sem pano de prato, e depois lustrados com uma flanelinha macia. E as pratarias... Até o desusado faqueiro de recepções de trinta, quarenta anos atrás foi retirado do seu quase esconderijo nos armários baixos da sala para ter suas peças polidas uma a uma. Os móveis da sala tinham que brilhar, mas não só os móveis; tudo que um dia pudesse ter tido brilho tinha que brilhar: maçanetas, puxadores, dobradiças, trincos, parafusos, bibelôs, vasos, vidros, espelhos, rodapés... Tudo devidamente supervisionado pelos olhos atentos dele, que só abandonavam as mãos ágeis e cansadas de Lurdes, quando ele ia ao banheiro urinar — muitas vezes ao dia, por causa da ansiedade — ou quando ia novamente engraxar ou lustrar os sapatos — várias vezes. A pressão só diminuiu, quando Lurdes disse, nervosa, quase chorando, que não viria mais no dia seguinte — exatamente a sexta feira! Então se desculpou, explicou-se, agradeceu muito, deu-lhe uma gorjeta e prometeu que no dia seguinte tudo voltaria ao normal, bastava uma manutenção do que já estava feito.
            Mas ele mesmo, só na sexta se deu conta de seus exageros e pôde avaliar a situação. Ficou claro que sua vida era muito vazia, e até que a nora tinha razão. É, deveria receber visitas, reatar amizades, fazer alguma coisa fora da rotina. Imagine: sua vida era tão sem graça que uma consulta médica era um fato extraordinário! Agora entendia a hipocondria dos velhos, que tanto condenava. Para muitos deles deveria ser um dos poucos momentos em que eram o centro das atenções e tratados com dignidade.
            O rotineiro passeio de sexta foi diferente. Nada da obrigação compulsiva de exercitar os músculos da perna, de oxigenar o sangue. Andar por andar, para notar o não visto, o mal visto, o desprezado. E assim olhar, ver, sentir, como a sua mesma casa tinha sido revista. O mato nascendo entre as pedras da calçada, a pintura descascada das paredes, o laranja escuro dos tijolos aparecendo nos pedaços caídos do reboco dos muros, os cães contidos por coleiras, a cor e a qualidade das roupas das pessoas, suas preferências, seus sapatos, as pombas, os pardais, o cheiro de pão da padaria, do suor dos passantes, da água servida da sarjeta, da fumaça dos veículos; a brisa no rosto, o azul do céu, o ruído dos automóveis, as folhinhas de sibipiruna no chão. Tudo poderia parecer novo, se tivesse um olhar novo. E certamente a cada hora do dia, a cada dia do ano, as coisas poderiam ser revistas, os lugares revisitados, para que pudessem mostrar suas novidades. Em frente à banca de jornal, aquele comércio de novidades, enquanto lia as manchetes dos jornais do dia, pensou em si. Poderia ele ser visto como novo?

            No peito misturaram-se os sentimentos depressivos do começo da semana e de ansiedade de receber a visita da doutora. Nenhum jornal olhava para ele. Nenhuma notícia sobre si, nem sobre a minuciosa faxina que obrigou Lurdes a fazer. Nenhuma notícia sobre a visita da doutora. Como ela o via? De novo sentiu-se velho. Que há de novo neste velho? Nada de novo. Só um velho corpo lutando para não encarar a proximidade da morte. Voltar para casa.

2 comentários :

  1. Muito bom! Gostei de "tudo que um dia pudesse ter tido brilho tinha que brilhar" (inclusive ele próprio).

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