JUVENAL - CAPÍTULO 6

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            “Há qualquer coisa parecida com esperança no meio desta tristeza na solidão da noite.” Quem diria!... Ele, sempre tão prático, tão controlado, tão avesso aos arroubos emocionais, justo ele, agora se pegava pensando nesses substantivos abstratos, mais adequados a romantismos adolescentes... “E eu que pensava que conhecia tudo de mim... ‘Tristeza’. Onde já se viu...” Olhava o copo de vinho há meia hora pela metade, quase sorrindo das palavras como “solidão”, “angústia”... Por que não pensar em “beleza”? Sem dúvida a menina médica era bonita. Esta era uma boa novidade: há quanto tempo não prestava atenção à beleza de uma mulher? Desde muito antes da morte de Veridiana. E deixou-se levar pela lembrança da moça, sua simpatia sem afetação, como se soubesse do constrangimento que sentia ao entrar na sala despojada, que mais parecia um escritório, não fosse a maca em que nem se deitou para ser auscultado e examinado por ela. Só agora se dava conta de que esperava uma mulher feia, de óculos grossos, talvez meio gorda, com certeza carrancuda, uma imagem produto de seu mau humor, do seu preconceito. É, foi ao vê-la que começou a se desarmar; não esperava uma pessoa tão... “tão... tão o quê? Tão humana. É, tão humana.” E não era só a beleza externa. Ela poderia ser bonita e antipática; bonita e metida; bonita e chata. Mas ela era bonita e... “bonita e... bonita e o quê? Bonita e bonita. É, bonita e bonita — e humana.” Estranha médica aquela moça, sem estetoscópio e sem avental branco, que quis apenas olhar seus olhos, bem de perto, lábios vermelhos ligeiramente afastados, mostrando a ponta dos dentes superiores harmoniosamente enfileirados, brancos. E o olho direito enorme, ampliado na lente da lupa, sem pintura, cada poro da pele macia, jovem ainda para seus trinta e cinco anos.
            — Quantos anos a senhora tem?      
            — Por favor, não me chame de senhora.
            — É falta de educação perguntar a idade da doutora, não é?
           — Também não precisa me chamar de doutora; vamos dispensar essas formalidades; mesmo porque eu ainda não sou doutora, ainda estou preparando minha tese. Chame-me Marta, simplesmente. E respondendo a sua pergunta, tenho trinta e cinco anos. Não foi mal educado não; uma pessoa que já viveu tudo o que o senhor viveu tem o direito de ser franca e perguntar o que quiser.
            — Trinta e cinco? Parece menos...
            — Devo considerar um galanteio ou uma alusão à minha experiência?
          — Você disse que eu tinha direito de ser franco. É só o que me pareceu. E não me chame de senhor.
            Por que tinha dito aquilo? Parecia um conquistador barato ou um velho metido a jovem, não querendo o respeito que merecia. “Não me chame de senhor... Que coisa ridícula!” Ela, está certo, estava se colocando  em seu lugar, mostrando-se respeitosa com ele, como devem ser os jovens com os velhos. Mas ele, o que queria mostrar? Uma humildade que nunca teve? Um poder de sedução? “De fato você não se conhece Juvenal... Num dia fica pensando em morrer, no outro, fica se comportando como um galã... Onde já se viu!... O que será que anda acontecendo comigo...” E agora estava ali, olhando meio copo de vinho, pensando em substantivos abstratos, sem saber como se comportar. Será que ela tinha visto nos olhos dele quanto ele era ridículo?

            Melhor pensar nos fatos. O fato é que, ridículo ou não, ela interessou-se por ele, tanto é que virá visitá-lo. Outro fato é que ele estava sentindo sua vida preenchida por um novo acontecimento; estar ali pensando e achar isso mais interessante do que o chianti italiano era sem dúvida novidade. Que dia mesmo ela viria? Quinta feira? Sexta? “Mas que dia é hoje?”

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