JUVENAL - CAPÍTULO 5

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            As respostas às perguntas cheias de curiosidade de Raul vinham lacônicas, no trajeto de volta do consultório para casa, porque a curiosidade do filho dava-lhe a sensação de invasão de privacidade. Ora, não tinha que lhe dar satisfações de nada sobre a consulta, só porque foi ele que o levou à médica. De evasivas e lacônicas, as respostas passaram a resmungos e silêncios, como se não tivesse ouvido pergunta alguma, olhos fingindo olhar alguma coisa fora do carro. Tentava, em meio ao ruído das falas interrogativas de Raul e à profusão de imagens e barulhos do carro em movimento, articular algumas ideias sequentes, que organizassem as dúvidas. Na verdade, sentia-se confuso frente àquela menina, tão segura nos seus trinta e cinco anos. Queria pensar, não conversar com esse filho intruso.
            De fato ela parecia competente, com aqueles olhos grandes e negros e aquele olhar meigo e firme pousado sobre si. Os olhos. O que ela viu nos seus? Como podia ter adivinhado que ele andou chorando? E como conseguia falar de coisa tão constrangedora como se fosse normal, como se fosse uma enxaqueca? E por que não lhe receitou nenhum remédio? E por que não se mostrou interessada em impor sua autoridade médica, nem quando ele a cutucou com sua ironia? E por que, se não viu nele nada tão grave que merecesse medicação, ela iria à sua casa e não ele ao consultório? E — mais estranho ainda — por que ele aceitou esse procedimento inabitual com normalidade? “Mas que diabo! Essa menina mexeu comigo!” Isto era certo: teria muito em que pensar. E teria que pensar em como recebê-la. “Como se recebe um médico, quando não se está doente? Na cama ou na sala?”
            O carro rodava pelo trânsito complicado da Paulista em direção aos Jardins, e ele não conseguia prestar muita atenção ao movimento lerdo dos carros e ônibus e nem às observações e perguntas ansiosas do filho. As perguntas que ouvia mesmo vinham de dentro e sem respostas.
            — Pai, é a terceira vez que lhe faço a pergunta. O senhor está surdo?
            — Ahn? Que pergunta?
            — A doutora constatou alguma disfunção no senhor?
            — “Disfunção”? Que disfunção?
            — É o que eu estou perguntando!
            — Ah, sei lá!... Sabe o que é, Raul; para ser sincero, não estou nem um pouco interessado em ficar respondendo as suas perguntas. Estou aqui pensando... Está tudo normal comigo, não se preocupe. Desculpe, não estou com disposição para conversa. Não é nada com você; só não estou disposto a ficar conversando sobre a consulta, é só isso. Tudo bem?
            — Parece que a doutora mexeu com o senhor...
            — É. Ela me fez pensar.
            — Ela receitou alguma coisa? O senhor quer que pare numa farmácia?

            — Não. Ela não receitou nada.

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