JUVENAL - CAPÍTULO 4

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            Quando Raúl chegou, a casa parecia vazia. Lurdes já tinha ido embora e tudo tinha o aspecto impecável de sempre. Depois de procurá-lo na sala e na cozinha, Raúl encontrou-o sentado na cama, bem vestido, terno cinza e gravata.
            — Você me deixou curioso com essa doutora. Além do mais, ir a médico é passeio de velho. Veja, até desenterrei este terno do fundo do guarda-roupa. É bom usá-lo; tira o cheiro de naftalina.
            — O senhor está elegante, como sempre. E o que estou sentindo é o cheiro de sua colônia, também como sempre...
            — Já está na hora?
           — Não, ainda é cedo. Não faça essa cara de quem vai para o sacrifício; tenho certeza de que vai ser bom para o senhor.
            — Quero deixar uma coisa clara para você: não tenho expectativa alguma com essa doutora. Não confio em médicos; médicos são menos confiáveis que advogados. Só estou curioso em saber o que a Medicina anda pensando de nós, pobres velhinhos desamparados.
            — O senhor não é pobre, nem velhinho, nem desamparado. E está muito bem para a idade que tem.
            — Não me venha com demagogias...

            A conversa rumou para o tempo em que tinham a fazenda, para o lucro das aplicações, para o preço dos aluguéis dos imóveis que tinham — coisas práticas, que preencheram o tempo de meia hora que ainda faltava para a consulta. Como sempre, não se falava muito do passado, com exceção da fazenda, vendida quinze anos antes, num excelente negócio. Juvenal detestava falar do passado. Desde a morte de Veridiana, lembranças tinham um peso doloroso. E o futuro também. Sentia-se traído pela mulher, que o abandonou sem aviso, eles, que se prometeram viver eternamente juntos. Se alguém tivesse que ir antes, deveria ser ele. Mas nunca pensou em morrer, até ontem. Um ser presente: era assim que se sentia nos últimos anos. Foi por respeito a esse gosto pelo presente que aceitou consultar-se com a tal médica. Afinal, o filho se preocupou com ele, procurou a mulher e marcou a consulta. Não custava aceitar, como aceitava os dias de chuva e as noites de inverno. E, de fato, era nova essa sensação de sentir-se velho, porque o presente nunca é velho. O exemplo de Raul de que levava o filho ao pediatra e que levaria seu pai ao geriatra caiu em seus sentimentos como uma bomba que detonou sensações nunca experimentadas, verdadeiramente de velhice. Quem sabe essa médica teria um remédio para o vazio de ontem. Imagine; ele que nunca tinha chorado, a não ser na morte de Veridiana, chorou ontem...

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