JUVENAL- CAPÍTULO 3

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            — Alô, pai, tudo bem?
            — É... Vai-se indo...
            — Liguei antes, o senhor não estava...
            — Fui ao supermercado.
            — Ô, pai. Manda a Lurdes fazer as compras. O senhor não precisa fazer essas coisas.
            — Não, não. Era só para comprar suco de laranja.
            — Mas eu vi na geladeira, domingo, tinha bastante.
          — É, na verdade não precisava. É que eu queria sair um pouco, andar... Você está ligando por causa do dinheiro? Já passei para a sua conta, por telefone.
            — Eu sei, já conferi. Não é por isso que eu estou ligando.
            — O que é? Está precisando de mais?
            — Não, pai. Até já tenho um comprador em vista para o quadro. Vai dar um bom lucro.
            — Não precisa se preocupar em devolver o dinheiro. Não estou precisando.
            — Esquece o dinheiro um pouco. Presta atenção, pai. É por outra razão que eu estou ligando.
            — O que é?
         — Fiquei preocupado com o senhor ontem. Eu conheço o senhor. Senti pela voz que não estava muito bem, não é verdade?
            — É... Mais ou menos...
            — Mais ou menos como? A gente fica bem ou não fica. O senhor estava doente? Alguma dor?
            — Dor nenhuma.
            — O que, então?
            — Nada. Só que aumentou o tremor nas mãos, sei lá...
            — Tremor? O senhor tem febre?
            — Não. Minha saúde está normal.
            — Seja o que for, pai, vamos ver isso...
            — Ver o quê?
            — Sua saúde.
            — Já disse que minha saúde está normal.
            — Sabe, pai, eu tenho uma amiga, a Marília, o senhor conhece...
            — Que Marília?
         — A Marília, marchand como eu, o senhor a conheceu num dia em que veio aqui em casa, ficou conversando com ela um tempão sobre o Volpi...
            — Ah, essa Marília, sei, o que tem ela?
            — Ela é uma pessoa em quem eu confio. A Marília me falou de uma médica...
            — Já disse que minha saúde está boa! Você é surdo?
            — E o tremor?
            — Ara o tremor! Diminui quando bebo vinho. Se me atrapalhar, eu encho a cara.
            — Pai, me deixa falar da médica, é para o seu bem. Só me deixa falar...
            — Vai, fala.
            — O senhor promete que vai me ouvir?
            — Estou ouvindo, fala logo!
            — Essa médica é especialista em idosos...
            — Tá, uma geriatra.
            — É, mas não é uma geriatra comum.
            — Uma geriatra incomum? Seria uma geriatra que cuida de pessoas novas?
            — Pai!
            — Ou uma geriatra de duas cabeças?
            — Pai, é sério! Dá para o senhor me ouvir?
            — Então não me enrole. Eu não sou um dos seus fregueses.
          — “Clientes”, “compradores”, não “fregueses”. Está bem, vou direto ao assunto. Essa médica tem uma tese diferente sobre geriatria. É uma pesquisadora. Se o senhor for consultá-la, ela nem cobrará a consulta.
            — Valha-me Deus! É sem dúvida uma geriatra incomum!
            — É sim. E se ela se interessar, cuidará do senhor.
            — O que é? Uma espécie de SUS chic?
            — Não. Ela precisa de material para a tese dela. É uma tese subvencionada.
          — Mas essa é muito boa! Você quer me transformar numa cobaia de uma médica principiante! Minha resposta à pergunta que você não me fez é não!
            — Mas pai, pensa bem. O senhor teria uma consulta sem ônus com uma especialista. Que mal há nisso?
           — Mal nenhum. Apenas, provavelmente, os efeitos colaterais das drogas que ela vai me fazer engolir.
            — Ela não receita remédios, a não ser que o senhor esteja com alguma doença. Não é o seu caso, é?
            — Ah! Então temos uma médica que não medica. O que ela faz? Passes? Búzios? Psicanálise?
            — Ela não é mística nem psicanalista?
            — Já sei. Ela assassina os velhinhos.
            — Pai!
        — Sabe o que eu precisava mesmo? Precisava andar a cavalo. Precisava era ter quarenta anos menos... trinta já estava bom.
            — Andar a cavalo? Pra cair e quebrar a perna de novo?
         — Acidentes acontecem... Eu não devia ter vendido a fazenda. Pelo menos eu podia andar numa charrete...
            — Pois vá para a fazenda. O dono é seu amigo.
            — Não é a mesma coisa...
            — Pai. Eu marquei consulta com a médica.
            — O quê? Então vá você!
            — Pai, faça esse favor a você mesmo. Não lhe custa nada, em todos os sentidos.
            — Eu tenho dinheiro para pagar as minhas consultas médicas, se e quando eu precisar.
            — Eu passo aí à tarde para pegar o senhor. Marquei a consulta para as quatro.
            — Eu não vou!

Um comentário :

  1. Dialogo interessante, muito real. E no final da vida nos tornamos filhos.

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