JUVENAL - CAPÍTULO 2

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            O banho fez-lhe bem. Também, há três dias não tomava. Gostou da água e do perfume do xampu, caro, como a colônia francesa e o desodorante. Depois, roupa limpa, bem passada; Lurdes é caprichosa. E discreta, ordeira, calada. Certamente um mal necessário. Vem de manhã, arruma a casa, vai à tarde e recebe seu salário no fim do mês. Incrível que alguém tenha desejado essa mulher, e que tenha filhos. Mas ela se diz casada e com filhos já adolescentes. Terá quanto? Trinta anos? Quarenta? Cinquenta? Nunca perguntou, nunca se interessou. Lurdes é a serviçal, impossível despertar o sentimento de amizade ou qualquer outro de proximidade. Mas faz bem o seu serviço; não há do que se queixar.
            Fome. Talvez deva ter alguma coisa para descongelar, alguma sopa para fazer... Fome sim, vontade de comer não. Menos ainda de preparar a comida. Por que se vestiu assim após o banho? Com certeza não iria sair. A calça de gabardine creme, vincos perfeitos, camisa branca, colarinho e punhos engomados, sapatos marrons. Ainda precisava engraxar os sapatos. Mas para quê? Para ver TV? Para ouvir discos? Se segurasse a escova e a pusesse sobre os sapatos, ao menos aquele tremor nas mãos teria uma utilidade. Quase sorriu da ideia. E sem atinar muito com a razão daquilo, abriu a porta do guarda-roupa, pegou a escova e lustrou os sapatos.
            Telefone. Tocou oito vezes antes que chegasse à sala e atendesse. Já sabia que seria o filho e era. Nada de premonição, apenas o fato de que só seu filho ligava para ele; vez ou outra um engano... Os amigos se foram há muito tempo, a maioria mortos, como Veridiana. “Ao menos me restam poucos enterros para ir”, costumava dizer à nora, que insistia em que procurasse amizades. “Há até bailes da terceira idade, sabia?” E ele olhava com o desdém que verdadeiramente sentia por ela, sem responder. Mas o filho não costumava ligar no meio da semana, a não ser que precisasse de dinheiro. E precisava. Uma oportunidade imperdível de um Pancetti; tinha que comprar. Depois pagava com juros. Pagava nada, como das outras vezes. E acabaria tendo um bom retorno do investimento, ganharia outra viagem para a Europa levando a mulher idiota e o neto chato e ele não veria o dinheiro de volta. Concordou em “emprestar” o dinheiro, sem muita discussão. E daí? Ele morreria logo mesmo e o que tinha ficaria para o filho de qualquer maneira... Só estava adiantando parte da herança e ajudando o filho a ser o bom marchand que de fato era. Pelo menos isto. Tinha desenvolvido no filho o gosto pela arte.
            — O senhor não me parece bem, pai. Algum problema?
            — Nada não, Raul. Só estou meio desenxabido hoje. Logo passa.
            — O que é, pai? Se tiver algum problema, me fala, eu vou aí, levo o senhor ao médico.
           — Não, não. Nada de médico, eu estou bem. É só que eu dormi um pouco à tarde. Velho não pode sair da rotina, sabe como é. Só estou mal humorado, só isso.
            Despediram-se sem formalidades, prometendo se verem no fim de semana, como sempre. E ele ficou ali, calça creme bem passada, camisa branca engomada e sapatos lustrados, parado em frente ao telefone sem saber o que fazer. Do fundo de sabe-se lá de onde, alguma coisa parecida com angústia apertou-lhe o peito, os lábios finos tremeram e ele se entregaria a um choro convulsivo, se o estômago não ardesse e ele se lembrasse da fome que o levou a passos rápidos para a cozinha. Abriu a geladeira. Primeiro o leite; depois pensaria em que comer.
            Comeu uma coxa de frango assado fria que não saciou a fome. Mas os outros pedaços que Lurdes deixou na geladeira iriam para o forninho elétrico — queria comê-los quentes. Enquanto esperava, abriu a garrafa de Valpolicella e cortou uns pedaços de queijo parmesão. Comer era bom. Alimentado, levemente entorpecido pela meia garrafa de vinho tinto, percebeu que o tremor das mãos tinha diminuído um pouco. Ficou vendo sem ver um filme besta na televisão, sentado na mesma poltrona de sempre, esperando o sono que viria devagar.
            No sobressalto de ouvir sua própria voz, foi-se o cochilo. Não, não foi a voz no final do filme da TV que o acordou, que nem era voz, era uma perseguição desenfreada da polícia a um carro azul metálico. Falou dormindo; e repetiu a palavra:
            — Veridiana.
            Nada de lembrar-se do sonho, só a sensação de sonhar com ela, sepultada há vinte anos na terra e na memória. Há anos não sentia sua falta tão intensamente. Veridiana. Onde? Queria que seu espírito se materializasse agora à sua frente; falar com ela, pedir-lhe ajuda, carinho, “sei lá...” Olhos fechados, pálpebras apertadas, acreditou que quando os abrisse, veria a mulher sorrindo à sua frente, luminosa e branda como era na juventude. Concentrou-se nela, pediu a Deus, desejou com força, e ao abrir os olhos o que viu foi um carro capotar e uns policiais americanos dizerem umas frases prontas. Num rápido olhar, viu o controle remoto na mesinha ao lado da poltrona bordô. E em gestos mínimos desligou a TV. Olhou o aparelho desligado, a parede bege, quase da cor da calça, as cortinas fechadas de voal escondendo a janela de vidros fechados, a porta da sala fechada à sua esquerda, o tapete persa envelhecido, mas não desgastado, e os sapatos marrons recém-lustrados. Com força apertou os olhos desta vez sem ilusões de ver ninguém e sem vontade de abri-los. Um soluço fundo brotou de dentro da tristeza do peito junto com o balbucio que articulou nos lábios trêmulos:
            — Por que eu não fui com você? O que eu estou fazendo aqui, meu Deus?...

            Nem colocou o pijama para dormir. Apenas descalçou os sapatos e desabotoou o colarinho da camisa. O calor do banho tinha sumido. E assim entrou embaixo das cobertas, amassando a calça creme e a camisa branca. Sentia frio, muito frio.

4 comentários :

  1. Talvez seja a hora de Veridiana aparecer...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Estou adorando. Nossa quantos detalhes.

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