JUVENAL- CAPÍTULO 1

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            O que preocupava Juvenal Martins naquele momento era o tremor nas mãos, que o impedia de pegar com a colher de sopa a quantidade exata de pó de café, porque a água já borbulhava na caneca de alumínio em que tinha posto o equivalente a um copo para ferver, o velho copo de requeijão, ainda com restos de rótulo, usado como medida para duas xícaras — uma que tomaria em seguida e outra, mais tarde, requentado. Ai essa maldita mão cada dia com menos firmeza...; se demorasse mais, a água evaporaria, e ele certamente iria perder o paladar esperado, nem forte nem fraco, como gostava. Preocupante... Baixou o fogo no mínimo e concentrou-se na mão direita, apertando os dedos na colher. Ufa, deu certo. Lentamente foi levando a colher cheia de pó, tremor controlado, até despejá-la de uma vez no filtro de papel descartável, cuidadosamente dobrado nas partes coladas do fundo e do lado, que tinha acomodado ainda há pouco no porta-filtro marrom. O tremor não atrapalhou muito o despejar da água sobre o pó. Mas atrapalharia depois o levar a xícara aos lábios. E um pouco de café molharia o tilintar no pires, até que sorvesse o último gole mais doce pelo restinho de açúcar pousado no fundo, remexido involuntariamente pela mão trêmula.
            Nenhuma vontade de lavar a xícara e o porta filtro abandonados na pia. Só abriu um pouco a torneira para que a água caísse sobre a xícara, enxaguando o suficiente. Mais tarde, quando requentasse o café (se requentasse...), simplesmente a esvaziaria daquela água e pronto. A cozinha entardecia e o relógio pequeno sobre a geladeira deveria marcar qualquer hora entre três e meia e cinco. Que importa a hora exata? Nesta idade o tempo se conta em horas, sem importar os minutos — quando não em períodos, como agora: era de tarde e só. O tempo de verdade se marca em tremores, em tosses crônicas, em rugas ou em chinelos se arrastando pelo piso de ladrilhos quadrados brancos e pretos, neste jogo de xadrez de uma peça só — ele — indo em direção à copa ou à sala.
            Hoje pés mais arrastados do que de costume. Preguiça de erguê-los, de aparentar mobilidade e lepidez. Preguiça e preocupação com o tremor nas mãos, que vinha aumentando. Como era o nome da doença? Parkinson? Ausheimer? Sentiu-se velho como de fato era, não os oitenta e dois que tinha, mas cem, cento e vinte anos. “Ninguém tem cento e vinte e cinco anos”, pensou. E sorriu o primeiro sorriso daquele dia e talvez o último. Como as horas, tanto faz ter setenta, oitenta ou noventa anos. Velho é velho e assim estava, arrastando os chinelos velhos em direção à velha poltrona, sem vontade de ouvir os velhos discos de ópera na velha vitrola. Nem tão velha assim. Seu filho a chamou “som” no último Natal, quando a trouxe junto com meia dúzia de CDs de ópera, olhando com prazer sua expressão satisfeita em ouvir La Traviatta sem chiados. Se fechasse os olhos, parecia que ouvia a própria orquestra no Municipal. Isso foi no Natal, noite quente de 24 de dezembro. Agora era junho, sabe-se lá que dia, era à tarde e a casa estava fria.
            O corpo deixou-se cair pesado sobre a poltrona de braços generosos e veludo bordô. Certamente não havia nenhuma razão para sentar-se ali, naquela hora, a não ser um cansaço que parecia brotar dos ossos. Fosse o normal de seus dias, estaria andando em direção à praça ou à padaria ou ao supermercado, cumprimentando sem muito entusiasmo, como era seu jeito, uma ou outra pessoa. Metodicamente fazia esses passeios, exercícios de andar para manter a forma. Sim, andar era bom. Não dava o mesmo prazer do remo praticado na adolescência e juventude, nem da equitação, que ocupava seus fins de semana até vinte anos atrás. Mas andar lhe dava a agradável sensação de exercitar os músculos, ainda rijos sob a pele já flácida e sobretudo lhe assegurava a agilidade pouco comum em homens da sua idade. Esforçava-se para aparentar um ar juvenil, nos agasalhos de moletom, nos cabelos grisalhos bem penteados, na coluna ainda ereta e no passo firme e ritmado. “O senhor não aparenta a idade que tem” — gostava de ouvir frases assim.
            Não hoje. Ali, sentado e sem forças em frente ao som desligado ao lado da televisão também desligada, era só ele e ele mesmo, sem ninguém para enganar. Nada de rememorar. Para quê? Não reprimiu o desejo de que a morte chegasse e o levasse, ato definitivo que acabasse de vez com a degradação desse corpo que viveu muitos momentos bons — nem é bom lembrar...
            Já deveria ser por volta das oito horas quando acordou. Nenhum sonho de que lembrasse, mas o mesmo cansaço, profunda preguiça que não o animava a levantar-se dali, lavar a boca seca e beber água. Como se o corpo avisasse que ainda estava vivo, um ardor parecido com fome cutucou-lhe o estômago. Requentar o café? Asco. As pálpebras piscaram lerdas, os olhos mirando as pontas dos pés nas meias pretas ainda nos chinelos de couro macio. Levantar? Vontade de ceder definitivamente à abulia e ficar ali, bloqueando este maldito cérebro que teima em funcionar. E abandonar este corpo que insiste em viver sem para quê, e quer urinar. Isto não! Urinar nas calças, na poltrona, na sala, não! Mentalmente traça o caminho até o banheiro de cima: sala, escada, corredor, banheiro, privada. Levantar a tábua (sempre abaixada), abrir a braguilha, procurar o pênis e sentir o único prazer que ainda lhe proporciona. Também o intestino ainda vive. Soltará gases, talvez defeque... E se levanta.         



Um comentário :

  1. Muito delicado este texto. Um olhar para para a velhice que as vezes nos assusta, nos incomoda muito, mas mostra que mesmo assim queremos continuar a viver.

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