CAPÍTULO OITO

8


            No dia seguinte não conversou nada. Noite mal dormida. Levantou-se muito cedo e foi correr. E correu, correu até cansar-se, perder o fôlego. A vontade era de não voltar mais para casa. Por que não conseguia amar Silvana? Por que lhe disse aquelas mentiras ao telefone? Voltou para casa disposto a fazer terapia — justo ele que sempre ridicularizava os colegas que faziam. “Basta uma boa noite de sexta-feira como as que tenho, e ninguém precisa de analista” — quantas vezes disse isso...
             Laila preparou o café da manhã perfeito, como tudo que ela andava fazendo na cozinha. Sem dúvida seria uma ótima mulher para qualquer homem. Não tocou no assunto e ela respeitou. Só lhe pediu que deixasse o dinheiro da faxineira e para compras. (Deixou muito mais do que o necessário). De conversa, o estritamente necessário. Ela percebeu que ele se sentia culpado. E ele voltou do trabalho mais tarde do que o costumeiro. Cheiro de bebida, silêncio. Na sala à meia luz, ele ficou horas ouvindo discos, até dormir. Ela ficou com ele, lendo “Uma aprendizagem”, quieta.
            Só na sexta-feira à noite saiu do silêncio. Comentou que tinha marcado para a semana que vem uma consulta com um analista e que havia pedido um tempo para Silvana. Antes precisava compreender por que essa aversão ao casamento, essa dificuldade em viver relacionamentos mais profundos. Também queria compreender o que havia mudado nele, “por que, por exemplo, eu não estou sentindo vontade de sair hoje.” Ela só balançou a cabeça, acariciou-lhe os cabelos e deu-lhe um beijo na testa, como uma mãe que consola o filho. E disse-lhe que não precisava explicar nada, ela entendia.
           Os olhos não precisaram ser abertos para que Laila sentisse sua presença na porta de seu quarto a olhá-la. Porque esse fingimento era necessário para que ele a olhasse com tranquilidade. Há duas horas também fingiu estar com sono. Antes de ir para a cama, deu-lhe uma rosa vermelha, um botão começando a desabrochar:
            — Isto é para que você não fique sozinho aqui na sala — disse, beijando a flor antes de ofertá-la. Tímido, ele sorriu e aceitou.
            Aquele pijama foi cuidadosamente escolhido. Sem que ele soubesse comprou-o no começo da semana, depois de resolver a dúvida entre a camisola rosa, o baby doll branco e este que vestia. O tecido de lingerie bege brilhante harmonizava-se com a cor que seu corpo tinha adquirido na praia. Bem simples, sem enfeites, o short curto, ligeiramente solto nas coxas; a blusa de mangas curtas, propositalmente desabotoada nas duas casas de cima, aberta o suficiente para que ele visse metade de seu seio esquerdo. Os cabelos em estudado desalinho sobre o travesseiro, a respiração a custo mantida suave. E o rosto sereno ligeiramente voltado para a esquerda, os braços soltos, ligeiramente dobrados, e a perna esquerda também um pouco dobrada.
            Ele ficou ali, parado, longos minutos, olhando aqueles pés, aquelas mãos soltas, aquele corpo, aquela mulher, sem saber o que sentir, hipnotizado. Mais uma vez estava sobre aquela linha imaginária a cem metros do chão, sem poder se mover. Por fim, respirou fundo e andou para seu quarto. Então ela pôde abrir os olhos e mover-se na cama.
            Em silêncio, foi adivinhando todos os movimentos dele. O barulho da torneira e da escovação dos dentes. Depois os ruídos da urina na água e da descarga. O silêncio das roupas trocadas, do corpo dele na cama e do escuro do quarto. Mas o abajur dela ainda estava aceso, na penumbra amarelada em que se mostrou a ele. Deu-lhe tempo para que construísse seu imaginário com sossego — uns vinte minutos, meia hora, de ansiedade e expectativa.
            Por fim, trêmula e emocionada, fez o que devia fazer. Encheu-se de apaixonada coragem, levantou-se, acendeu a luz do corredor e postou-se à porta do quarto dele, que sempre estava aberta. Insone, como ela esperava, ele a viu e perguntou assustado:
            — O que foi?
            — Estou com medo...
            — Medo? Você nunca teve medo. Medo de quê?
            — Não sei. Acordei e tive medo de ficar sozinha.
            — Mas você nunca vai ficar sozinha.
            — Posso me deitar aí com você?
            — Acho que não há razão para ter medo...
            — Deixa, vai... por favor...

            Não disse nada. Apenas moveu-se e deu lugar para ela. A respiração de ambos era rápida. Como em uma ilha deserta, nenhum dos dois conseguia disfarçar a natureza deles. E sobre o criado-mudo um botão de rosa vermelha num copo de água.

3 comentários :

  1. Acho que o final tinha que ser assim mesmo... A Laila tem uma personalidade muito forte.

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  2. Muito bonito, envolvente. Senti um "quê" de Nelson Rodrigues. Gostei muito. Parabéns!

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  3. Oi, Gilson! Li o texto todo, em momentos diferentes, e gostei bastante. Em especial o capítulo da praia (realmente excelente, como você já havia alertado). Por que você não o lê na oficina à noite? Tenho certeza de que o pessoal iria ficar bem feliz em ouvi-lo. Abraço!

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