CAPÍTULO TRÊS

3


       Você tem dois fios de cabelos brancos aqui...
            — Tô ficando velho, né?
            — Trinta e cinco não é velho...
            — Mas eu me sentia bem melhor com vinte e cinco.
            — Quando você tinha vinte e cinco, eu tinha três. Eu me lembro de você chegando, enorme, me pegando no colo, me espetando com seu bigode num beijo que quase engolia minha bochecha, e me dando, por fim, o chocolate com a vaquinha holandesa.
            — Você se lembra? Você se lembra de quando tinha três anos?
            — Três, quatro, cinco, sei lá. Você chegou anos do mesmo jeito, o mesmo beijo, o mesmo chocolate.
            — É... eu nunca tive muita imaginação com criança...
            — Que é isso! Não diga bobagens. Eu adorava o chocolate, a vaquinha desenhada, o beijo, tudo. Acho que se você não tivesse trazido um dia, eu ficaria traumatizada.
            — Você sabe o que quer dizer “trauma”?
            — Claro, né... quem não sabe...
            — O que mais você sabe?
            — Para com isso! Eu cresci, não está vendo?
            Lentamente levantou-se do braço da poltrona em que Lúcio estava sentado e pôs-se à sua frente como se posasse para fotos, mostrando o corpo de mulher que se desenhava. Ele entrou na brincadeira, fingindo que a fotografava, imitando com a boca o som da câmera. E ela ficou de perfil, empinou os seios que despontavam firmes e arredondados, girou para que a saia rosa rodasse, puxou, com uma perna sensualmente dobrada, a barra da saia, mostrando um palmo da coxa morena roliça, enquanto ele, de joelhos, fotografava na memória aquelas poses femininas da mulher desabrochando naquela menina. Foi quando ela virou de costas e arrebitou as nádegas redondas próximo à câmera imaginária, que ele fingiu desmaiar e ela, gargalhando, atirou-se sobre ele, até que seu sorriso fosse desaparecendo dos lábios e ficasse somente aquele olhar que ele se recusou a ver. Por segundos eles se olharam a poucos centímetros, ofegantes pela brincadeira. Ele prestou atenção no próprio peito e sentiu, no inflar da respiração, os seios dela. Delicadamente afastou-a, levantando-se e ajudando-a a levantar-se e comentou, sem malícia:
            — É. Você cresceu.
            Sentiu-se orgulhoso por ter nesses três anos ajudado a formar a menina. Certamente Fábio gostaria de vê-la. Sem saudade, pensou no irmão. Foi até a janela da sala à procura de espaço amplo. Porque precisava olhar distante, perder os olhos num infinito qualquer, saborear seu carinho de pai, de irmão, de amigo, de tio. Responsabilizou-se, e gostou do que estava sentindo. Atrás dele, Laila olhava a figura desenhada no contraste da luz da janela. O sol invadia a sala naquela manhã de sábado. E o sol era dela, o dia era dela, e ele...
            — Aonde nós vamos hoje?
            Ele abandonou as lembranças do lado de fora e voltou-se para ela.
            — Hoje?... Não sei... onde você quiser. Aonde você quer ir?
            — Quero ir pra lua!
            Sem barreiras o afeto inundou-lhe o peito e abriu-se numa gargalhada satisfeita. Ele gostava do senso de humor que ela estava desenvolvendo; o humor do inesperado, do desconcertante, como o desfile que lhe tinha feito há pouco. Por trás havia o senso crítico que ela revelava agudo nos comentários sobre os filmes, sobre as peças de teatro, sobre os políticos e os fatos. Ainda que se esforçasse, não conseguia descobrir-se nesse seu modo de formar-se. Tampouco via Fábio, muito parecido com ele. A escola? Como, se ela destruía os professores num sarcasmo adulto demais para uma menina de treze anos? A pessoa mais próxima que ele via em Laila era Núbia. Com certeza foram os modos espertos, a vivacidade, o jeito inquieto de ser, que fizeram Fábio apaixonar-se por ela. E amou-a tanto, que nem a morte diminuiu sua dedicação. Mas Núbia se foi quando Laila tinha apenas cinco anos! Fosse lá o que fosse, ele gostava dessa presença viva dentro de casa, essa menina que se fazia bela e inteligente, apesar dele e de suas limitações.
            — Pra lua não dá. É de manhã e lua só tem à noite.
            — Tá bom, tá bom. Então vamos ao shopping mesmo.
            — Shopping? Fazer o quê?
            — Sabe aqueles menininhos bonitinhos, bem nutridos, que ficam paquerando menininhas bonitinhas, bem nutridas como eu? Então...
            — Era só o que me faltava, virar gigolô de shopping!...
            — O que é que há? O coroa tá com ciúme, tá?
            — Não! Você está sendo guardada para um príncipe, você vai ser rainha, minha bela donzela. Seu príncipe vai chegar num Rolls Royce branco e a levará para um reino europeu, onde vocês serão felizes para sempre. E não me consta que haja príncipes no shopping.
            — E quem disse que eu quero um príncipe?
            — Não quer?
            — Não. Eu me contento com um milhonariozinho, que me dê uma mansãozinha, uma viagem para a Europa por ano, uma mesada para eu sustentar meu amante professor de tênis e mais um dinheirinho por fora que garanta a sua aposentadoria e uma enfermeira para você bolinar na sua cadeira de rodas.
            — Tá certo, eu estou ficando velho. Mas não precisa humilhar, né?
            — Você não está velho nada! Essas olheiras mostram muito bem a longa noite de loucuras que você viveu ontem. Você é o solteirão mais charmoso da cidade. E é para manter essa imagem que nós vamos ao shopping. Você precisa de umas camisas novas, umas cuecas de seda e sua colônia está no finzinho. Depois das compras almoçamos, e o guerreiro volta para casa e vai repousar. À noite vamos ver o novo filme do Woody Allen e gastar num restaurante japonês mais um pouco da grana que você faturou esta semana naquela roubalheira da bolsa que você chama de “trabalho”. De acordo?
            — Você tem sempre tudo pensado?
            — Nem tudo. Você sabe, apesar de já ter aposentado minhas barbies, eu ainda tenho um coraçãozinho de menina.
            — Como você sabe todas essas coisas?
            — Eu estou sendo muito bem criada e educada por um ótimo professor...
            — Corta essa. Eu não lhe ensinei nada de professor de tênis, nem de roubalheira na bolsa. Onde você aprende essas coisas?
            Ela deu dois passos em direção ao aparador, pegou de um vaso solitário um cravo vermelho e colocou-o no cabelo comprido. Então olhou matreira para Lúcio e respondeu:
            — Eu cresci, titiozinho...
            

3 comentários :

  1. Uau! Que cabeça desta adolescente... Bem madura.

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  2. Esta história tá ficando complicada

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  3. De muita competência a maneira como você mostra a Laila mulher.

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