CAPÍTULO SETE

7


       É, dia ruim. Bolsa em baixa. Ainda bem que soube conservar suas posições. Estava no empate; melhor que aqueles que perderam muito dinheiro. Fim do expediente, gravata bordô puxada no peito, mangas arregaçadas, sensação de alívio por sair ileso daquele perde-ganha. “Roubalheira... Será que as pessoas sabem o desgaste que custa ganhar dinheiro neste trabalho? Será que alguém se importa com isso? Onde mesmo estacionei o carro?”
            Como sempre, ruas entupidas no trânsito de fim de tarde. Acende o cigarro, liga o ar condicionado, fecha o vidro, abre um pouquinho, fecha de novo, “dane-se a fumaça”, coloca um CD para tocar. Wagner, romântico, dramático. Não, não é isso. Troca o disco. Billie Holiday. Também não. Desliga o toca CDs. Só sons abafados das ruas. Em casa, talvez ligasse para Silvana. Sem talvez; ligaria. Prometeu encontrar-se com ela na sexta. “Hoje é quarta. Até sexta é muito tempo”. É porque tinha urgência de Silvana que não via desde Paraty.
            Ela chegou na terça; ele na segunda. Ainda deveria estar em Paraty; suas férias iriam até a semana que vem. E ela que teria voltado no domingo... Ficou por ele; resolveu pelo telefone os problemas com a loja. Por ele... Mas não deu, de fato não dava mais... Não deveria ter deixado que ela ligasse; já sabia que não ficaria. Não, não dava. Ligou na sexta mesmo para o escritório e pediu que lhe permitissem voltar ao trabalho na segunda. Melhor a bolsa em baixa... Para as mulheres disse o contrário, que estava sendo convocado com urgência pela corretora de valores, “sorte que telefonou, não faziam nada direito sem ele” e coisas assim. Silvana aceitou, “fazer o quê?”
            Mas Laila não. Sentiu o desespero e o despreparo dele. Com a tranquilidade de quem foi obrigada a aceitar duas mortes de pessoas amadas, ficou claro para ela, naquela tarde, que estava irremediavelmente atada a ele. E ele a ela. Como sempre pressentiu, desde que a levou para passear no parque do Ibirapuera, três anos atrás, e segurou sua mão. Ou desde o momento em que se mudou para a casa dele e o tranquilizou sobre a morte, e lhe deu vida à vida. Ou desde o enterro de seu pai, quando o viu chorando como uma criança, mais criança do que ela. Ou desde o primeiro chocolate com beijo de bigode; ou desde que nasceu, ou antes de nascer, sabe-se lá...
            Sua mãe, antes de morrer, por premonição ou sabedoria, lhe ensinou sobre o renascimento na morte. Naquela noite tinha acordado chorando com o sonho da mãe morta. Núbia acendeu o abajur, secou umas lágrimas de seu rosto, pegou suas mãos trêmulas e lhe disse que não se assustasse que ela estava ali. E pediu que fechasse os olhinhos e visse dentro de si, que ela continuava ali. Então soltou suas mãozinhas e disse que continuasse olhando dentro de si, vendo como ainda estava com ela. Continuaria com ela, ainda que saísse do quarto ou que saísse do corpo, na morte. “Morrer é nascer para uma mesma outra vida, acho que melhor que esta” — disse-lhe. “Não há como mudar isso, filhinha, eu sou e serei sempre sua mãe. Em vez de chorar a morte, vamos cantar a vida.” E cantou-lhe a mesma música que ela cantou no barco para ele, na volta da Ilha do Ventura. Era uma música que falava de manhã e de passarinhos fazendo seus ninhos.
            Com certeza era um sentimento assim que a envolvia com ele. Ele era o encarregado de lhe cantar a música da vida, como foi seu pai, antes dele, e sua mãe, desde seu nascimento. A quem mais oferecer-se? E por que sonegar de si toda aquela energia que lhe enchia o corpo de formas arredondadas e pelos? Era seu tio, mas seus corpos pareciam ignorar esse fato. Nenhum dos dois desejou que se tivessem desse jeito, sobras de uma família que se extinguiu. Entretanto souberam construir uma vida feliz nos últimos anos, em que ele se deu a ela como conseguia: como tio, como pai, como irmão, como amigo. Agora era o momento de dar-se como homem — mesmo que ainda não aceitasse essa vontade.
            Por isso, respeitou seu desespero e suas mentiras em Paraty. Precisava dar tempo para que aquele menino crescesse e se enfadasse das brincadeiras mal escondidas de sexo às sextas-feiras. Breve, ele atingiria a adolescência e encontraria a mulher que o destino lhe reservou. E não havia dúvidas, naquela sexta-feira, de que era ela, mesmo que passasse a noite com Silvana; mesmo que dormisse com ela no sábado e no domingo, como fez. Não era ela, como não era Diana, que ao menos tinha a sabedoria de reconhecer isso. Mas era preciso orientá-lo, preservá-lo, para que não fizesse a bobagem de se casar com Silvana, como intuía que ele estava pensando. Era preciso preparar-se para este momento decisivo, em que finalmente se restabeleceria a ordem natural das coisas.
            Longe dos ruídos e do silêncio da rua, abriu a porta do apartamento e entrou como tinha feito ontem, sem procurar ou chamar Laila. Estava frio e magoado com ela, desde aquela maldita sexta-feira. Por que tinha de olhá-lo daquele jeito? Que espécie de sobrinha estava criando? Falava com ela igual à viagem de volta, apenas o estritamente necessário. E ela parecia entender seus propósitos, pois não o provocava com suas gracinhas e vestiu-se com inusitada discrição, desde então. Bom que houvesse Silvana. Não era uma mulher excepcional na cama, mas também não decepcionava. Afinal ele também não era e nem era disso que estava precisando. Precisava assentar-se, parar com essa bobagem infantil de nunca casar-se. E precisava de uma mulher que lhe despertasse o senso de proteção, que lhe desse segurança, que o estimulasse a viver mais profundamente o amor, que o fizesse sentir-se dela, que o amasse. Silvana poderia ser essa mulher, por que não? Só precisava decidir-se. E decidiu-se. Procurou recados no caderninho ao lado do telefone. Como esperava, Silvana. Digitou o número.
            — Pra quem você está ligando?
            — Silvana.
            — Ela ligou...
            — Eu vi o recado.
            Terminou de digitar. Esperou tocar três, cinco vezes.
            — Ela não está. Saiu.
            — E por que não me disse?
            — Você não perguntou.
            — O que ela lhe disse?
            — Convidou você para sair.
            — Ela disse para onde?
            — Um concerto. Ela ia antes. Ia passar na casa de uma amiga, deixar a Luana.
            — A que horas é o concerto?
            — Nove horas.
            — Preciso me arrumar rápido. São sete e meia. E por que ela não deixou a Luana aqui?
            — Eu disse para não trazer.
            — Por quê?
            — Porque sim.
            — Tá. Eu desisto de entender você. Vou me trocar.
            — Não precisa.
            — Preciso, esta camisa está suada e a calça amassada.
            — Eu disse que você não ia.
            — Como!? Por quê?!
            — Eu disse que você já tinha prometido ficar comigo hoje.
            — Mas eu...
            — Quer jantar?
            — Não! Em que lugar é esse concerto?
            — Na sala do Cultura.
            — Eu vou!
            — Não vai não. Eu não quero ficar sozinha.
            — Então vá para a casa da Diana, ou assista TV. Eu vou sair.
            — Se sair, não me encontra mais quando voltar.
            — Mas o que é que há com você?
            — Eu é que pergunto: o que é que há com você?!
          — Eu preciso sair, preciso me encontrar com a Silvana, preciso conversar com ela, ver se me aceita, e se aceitar, eu vou me casar com ela, entende? Eu vou me casar com a Silvana, entende?
            — Por quê? Você a conhece há uma semana... Por quê?
            — Porque eu preciso, porque eu gosto dela, porque cansei de ficar sozinho...
            — Você não está sozinho. Nunca esteve. E você não precisa, nem gosta dela!
            — Ah é? Agora você sabe dos meus sentimentos?
            — Eu sempre soube.
          — O que há com você? Eu não estou entendendo. O que você quer de mim? Há dias que eu não compreendo mais você, que você me olha diferente...
            — Eu, pelo menos, olho para você. Você nem me olha...
            — É porque eu não entendo você.
            — Mentira.
            — Mentira? Mentirosa é você que disse para a Silvana que eu não podia sair com ela.
            — Chega de Silvana! Pare de usar a coitada como escudo! Sabe o que acontece com você? Você está com medo!
            — Eu, com medo? De quê?
            — De mim.
            Ele riu uma gargalhada nervosa, resmungou umas frases e foi para o quarto. Indeciso, confuso, ficou um bom tempo para decidir-se sobre que roupa usar. Teria que ser apropriada para pedir uma mulher em casamento. Qual? Um terno escuro pareceu-lhe formal demais. Talvez um terno claro. Não, muito jovial. Um conjunto esporte era inadequado. E as roupas iam saindo do guarda-roupa, se amontoando sobre a cama. Mentalmente, tentava ridicularizar Laila. Mas do estômago vinha a sensação de uma comida indigesta a rolar, a rolar e subir pelo esôfago, invadindo o peito, um aperto, uma dor de dúvida que lhe cutucava o plexo cada vez que tentava criar e decorar o speech de pedido de casamento. Por que não se decidia de uma vez? Laila. E se ela tivesse razão? E se fosse verdade mesmo que estava com medo ficar sozinha? Havia dito isso. É. Ele não poderia ter decidido casar-se sem falar com ela. E ela tinha razão: estava com medo.
            Encontrou-a na sala arrumando impecavelmente a mesa, com os copos para vinho e tudo mais.
            — Preciso falar com calma com você.
            — Eu estou calma. Conversamos depois do jantar: coq au vin.
            — Não. Durante o jantar.
         — Eu só não queria atrapalhar seu prazer com o frango e com o vinho francês que comprou ano passado.
            — Aquele? Era para uma ocasião especial.
            — Sim. Era para esta ocasião.
            — E por que coq au vin?
          — Fiz o melhor que pude. A geladeira está praticamente vazia. Não fazemos compras desde duas semanas antes de irmos para Paraty, e você não tem deixado dinheiro para a feira...
            — É precisamos fazer compras...
           No centro da mesa, os pratos fumegavam. Cavalheiro, como sempre brincavam, ele ajeitou a cadeira para que ela se sentasse. Ficaram os dois apenas dialogando nos gestos de se servirem e de comer. Depois, comentaram sobre a comida, o vinho e outras trivialidades, até acabar o jantar. Ela levantou-se, preparou o café, e enquanto o fazia, trouxe-lhe uma mouse de maracujá comprada pronta.
            — Enquanto eu vou buscar o café, você vai pensando no que me dizer.
          Trouxe o café fumegando, servido em xícaras de porcelana. E esperou que ele adoçasse, mexesse, desse o primeiro gole, e lhe perguntou:
            — Por onde quer começar?
           — Estou confuso. Acho que quero seus conselhos. Todos esses anos temos decidido tudo juntos, ou pelo menos tenho tido o cuidado de comunicar a você minhas decisões. Foi assim com o carro novo, com a aplicação daquele dinheiro no exterior... Eu não posso me casar sem perguntar sua opinião.
            — Com a Silvana?
            — Você sabe que é. Acho que ela será a mulher da minha vida.
            — Não concordo.
            — Talvez você esteja com ciúme e...
        — Não tenho nem um pouco de ciúme da Silvana. Já disse que gosto dela. É por isso que não concordo.
            — Está bem. Façamos assim. Em respeito a sua opinião, eu não vou procurá-la hoje. Vamos pensar os dois na solidão de nossos quartos e amanhã voltamos a conversar.
            — Concordo, embora ache inútil.
            — Por que inútil?
            — É só adiar. A saída é uma só, diferente de enganar Silvana.
            — Eu não estou enganando...
            — Está sim. Enganou-a com suas declarações de amor, com o motivo repentino da volta de Paraty e agora com o casamento. Entenda. Não tenho nada contra ela, que é uma excelente pessoa. Gosto dela...
            — Pois é. Chega de enganos. Vamos colocar tudo em pratos limpos.
            — Por falar em pratos limpos, eu lavo, você enxuga e guarda.
            — Mas por que você tem essas certezas?
            — Prometemos conversar amanhã, não foi? Você não vai sair mais, vai?
            — Não. Vou pensar e dormir. Leva a travessa que levo os pratos e os copos.
         — Está precisando comprar detergente também... Que bom que você não vai sair. Eu estava com medo de ficar sozinha...
            Sobre a mesa, ainda a toalha, umas migalhas de pão e um solitário com uma flor vermelha de plástico que enfeitou o jantar.
            

2 comentários :

  1. Acho que essa conversa não pode passar de amanhã.

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  2. Esta chegando o grande momento. Hummm o que será que vem por ai.

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