CAPÍTULO SEIS

6


            O sol de verão iluminava generoso aquela paz das dez horas da manhã. Sob ele, eles se passavam as últimas carícias do creme com filtro solar, na inocente promiscuidade de se tocarem. O jantar da noite anterior havia criado suficiente intimidade para que esse tatearem-se fosse natural. E a linha traçada na mente das garotas tinha sido obedientemente seguida pelo casal. Não reprimiram seus sorrisos e olhares furtivos, satisfeitos com a amizade das meninas, e bem simpatizados entre si. Vividos, sabiam que um encontro mais significativo era só uma questão de tempo e de oportunidade.
            A manhã de hoje seguia no ritmo da noite de ontem. E foi sugestão dela que alugassem um barco e fossem ali para a ilha do Ventura, que virou “ilha da Aventura”, para Laila. Prepararam lanches, levaram muita água, para as mulheres, e algumas latas de cerveja para Lúcio. Agora eles estavam vivendo perfeitamente seu papel de turistas em férias, satisfeitos e maravilhados com a beleza de uma ilha deserta. O barco foi dispensado para voltar somente às três da tarde e, também por isso, os movimentos deles eram sem pressa.
            Logo as garotas foram para a água transparente e sem ondas do mar daquele lugar. O casal deixou-se levar pela modorra preguiçosa do sol e ficou ali na areia, ela deitada de bruços sobre a toalha, ele de costas, sobre os cotovelos, vendo sem pressa, por trás dos óculos escuros, a larga paisagem iluminada, os reflexos sobre as águas, as garotas brincando na água, a branca areia pontilhada, aqui e ali, por conchinhas e o corpo de Silvana bronzeando-se sob o sol.  Sem dúvida era uma mulher bonita, bem cuidada. Crítico, procurou e não achou celulites e varizes. Avaliou as coxas, as nádegas e as costas. Para seu gosto era melhor que a bunda fosse um pouquinho mais cheinha, mas, no conjunto, até que não ficava mal. Não tinha gordura na cintura e os seios, viu-os de relance ontem à noite, num movimento para apanhar um guardanapo no chão, e aprovou. Talvez, se tudo desse certo, hoje à noite conheceria os prazeres que aquele corpo poderia propiciar. Sentiu-se excitado, sorriu satisfeito e acendeu um cigarro antes de deitar-se de costas olhando os albatrozes que voavam alto.
             Calma. Somente alguns pássaros confabulavam na mata do morro logo além da praia não muito larga. O sol, o mar e a terra confabulavam na natureza, enquanto Laila e Luana confabulavam dentro da água numa conversa só delas. “Fofocas de meninas” — pensou — “essas meninas de hoje em dia crescem rápido demais” — e entrou numa confabulação consigo mesmo, em que se misturavam fantasias eróticas com Silvana, preocupações com o futuro, trechos de músicas e muito nada, no meio disso tudo. Calma.
            Deve ter cochilado uns vinte minutos. Mas acordou sem sobressaltos e com sede. Silvana havia se virado e ele pode ver com calma seu umbigo (uma ligeira depressão na barriga sem estrias) e perceber o volume dos seios e da vulva sob as peças do biquíni estampado em tons pastéis de verde, rosa e amarelo.
            Que bom, a cerveja ainda estava bem gelada. Bebericou uns goles e procurou as garotas que haviam sumido. Mas não se preocupou. Deveriam estar além das pedras, ou olhando o fundo do mar com as máscaras de mergulho. Com poucas palavras ofereceu um gole de cerveja para Silvana, que aceitou. Sentou-se para beber e ele pôde observar as curvas de suas pernas. Sim, perfeitas.
            — E as meninas?
            — Foram andar além das pedras procurar uns caracóis.
            — Acho que eu cochilei...
            — Você dormiu mesmo! Eu também quase dormi, mas as meninas me acordaram. Vieram me pedir se podiam dormir no mesmo quarto...
            — Como assim?
            — Acho que elas estão tramando para que eu e você durmamos juntos...
            — É...
            — Acho melhor conversarmos logo sobre isso, já que nossas filhas resolveram decidir por nós.
            — Laila não é minha filha.
            — Eu sei. É modo de dizer.
            — Tá bom. Você quer?
            — Quer o quê?
            — Dormir comigo.
            — Espera aí, você não está pensando...
        — Eu não estou pensando nada. Você disse que precisávamos conversar sobre isso e eu estou conversando. Quer outro gole?
            — Quero, obrigada.
            — E então?
            — Bem... eu não sei...
            — Presta atenção, Silvana. Eu poderia ser mais sutil, cantar você, seduzi-la. Eu não teria precipitado as coisas assim. Mas já que essas pestinhas empurraram a gente neste dá-ou-desce...
            — Sabe, é que eu — como dizer — não tenho prática nessas coisas. Depois que me separei, tive dois namorados em cinco anos. Não sei o que dizer... Me ajuda, né?
            — Vamos direto ao ponto: você se sente atraída por mim?
            — Bom, você é um homem bonito, atraente, gentil...
            — Se sente ou não se sente?
            — Tá legal. Me sinto.
          — Então pronto. Eu também me sinto atraído por você. Poderia transar com você agora mesmo, aqui nesta praia.
            — Eu acho que também, mas não na frente das meninas.
            — E quando é que essas aprendizes de cupido não estarão na nossa frente?
            — Bem, só se à noite...
            — Então está certo. Posso beijá-la?
            — Mas as meninas...
            — Pois é. Não vamos decepcioná-las.
            Foi um beijo breve, mas intenso. E havia um odor de cerveja e dois pares de olhos fechados. Olhos abertos em seguida, buscavam entender o que estava acontecendo entre eles. Sorriram e se acariciaram os rostos besuntados de creme.
            — Acho que vai ser bom, Silvana.
            — Tenho certeza que sim. Há muito carinho no seu modo de me tocar.
            — Deixamos rolar?
            — Deixamos.
            — O depois, depois a gente pensa, tá certo?
            — Tá certo.
            Mas havia alguma coisa que não estava funcionando bem, como se fosse um beijo sentindo um grão de areia no olho. Era um desses momentos em que o sorriso não se desenha exato no rosto, sai mais largo ou mais contido do que deveria ser. Como dizer?... É que havia um tanto de postiço no jeito deles, como se uma expectativa não revelada se expusesse sutil detrás da pele. Um desconforto de atitudes mal dosadas, na intensidade dos beijos e dos toques, como personagens mal interpretadas pelos atores. Sim, era isto: um teatro de conveniências.     
            Lúcio sabia que a continuidade desse desacerto de base levaria à angústia. E um gole de cerveja desceu como um nó na garganta. Discretamente repeliu Silvana, que acariciava sua coxa, junto ao maiô. Claro, ela sentiu. Expressou-se num contrair e morder os lábios finos e retirou a mão. Então se olharam, mas não sustentaram muito esses olhares de Ray Ban. O dele foi para o mar; o dela, para a areia. Mas ela recusou sua oferta de cerveja e foi buscar água. Entre descontrolada e prazerosa, deixou que água gelada escapasse de seus lábios, rolasse pelo pescoço, entre os seios, pela barriga, e escorresse pelas pernas, já aquecida pelo quente da pele por onde veio passando. Bebeu mais do que necessitava. De onde estava, ele olhou sua demora e viu a água escorrendo pelas pernas dela como urina.
            Levantou-se do chão e foi procurar uma sombra. Então entrou no caramanchão de uma pitangueira e meteu-se sob os galhos. Havia pitangas maduras. Ávido, comeu algumas, chupando seu caldo parco, cuspindo longe as sementes. Pensou em Laila.  Porque Laila gosta de pitanga. Pitanga Laila. Ai esse gostoso gosto duro e estranho, ácido doce da pitanga... Colheu dos galhos altos as mais maduras, guardou-as na mão em concha, em tímido carregá-las para que não amassassem. Agora pitangas para ofertar. Ele pitanga.
            Finalmente saiu debaixo da árvore fechada e se postou a uns passos da sombra, sentindo a areia branca a queimar-lhe os pés, ali, parado de óculos escuros, pateticamente de pitangas na mão — não como quem ofertasse, mas como quem pedisse uma esmola. Na areia quente e branca, parou debaixo do sol de verão das onze horas, como se estivesse se equilibrando sobre um fio a cem metros de altura, ali, na areia branca quente e perversa, ofertando/pedindo suas patéticas pitangas — parado no limite de coisa nenhuma, num fio a cem metros do chão, no chão de areia branca quente perversa e viva no sol de verão.
            Ela viu aquela figura patética de maiô vermelho parada na areia, de pitangas nas mãos em conchas. Atrás dos óculos escuros adivinhou uma súplica ou um pedido de socorro. Uma profunda pena invadiu-lhe a alma ao ver aquele órfão de maiô vermelho e mãos de pitangas suplicantes; e se despindo das vaidades feridas; e se vestindo de mãe na manhã de verão, abandonou a garrafa vazia de água na mesma areia viva perversa quente branca e fina em que caminhou em sua direção.
            E ele nem sorria, nem chorava, nem nada, só ficava com a boca semi-aberta vendo os pés dela andando na mesma areia da praia deserta que ele pisava, sustentando seu deserto de maiô vermelho patético de pitangas maduras. Ele via e viu sua aproximação, sem soluços, suado e inerte, com ele, Laila, ela e Luana nas mãos em pitangas pedido/oferta, de pés postados no limite de nada, deserto de si.
            E ela disse em absoluto silêncio que sim, que aceitava, com o polegar e o indicador trêmulos colhendo das mãos dele uma frutinha cor de maiô e a levando lentamente aos lábios desertos agora de água, comendo-a toda, até o caroço, com medo de cuspir qualquer pedaço daquele beijo órfão que ele pedia que ela aceitasse, antes que fosse tarde. Porque era manhã de sol a pino, onze e pouco.
            E ele comeu a pitanga dos lábios dela com os olhos, até que ela colheu outra do pé de pitanga de suas mãos e enfiou-a na sua boca de deserto semiaberta, até que os dedos dela tocassem sua língua seca e esmagassem a frutinha na areia fina, seca, eunuca de suas papilas desérticas. Os dedos na língua, em sabor pitanga, ele chupou, chupou e chupou, para que água de sua saliva brotasse de suas glândulas, pouca e parca, de início, volumosa, depois, envolvendo os dedos dela em babas. E como ela, e porque ela, também ele engoliu as duas sementes daquela pitanga, envoltas, como os dedos dela, no leite terra de saliva e pitanga.
            Delicada e materna, ela puxou sua concha de pitangas junto com ela para o caramanchão-ventre da pitangueira, sentou-se à sombra, tirando uma a uma as pitangas de suas mãos; ajeitou confortável a cabeça dele em seu colo, e num gesto pleno de calma e decisão, tirou, de dentro da peça do biquíni, os seios para que ele chupasse. E ele besuntou os seios dela com o suco de pitangas esmagadas em sua mão, para que mamasse daquela terra sobre a areia fina fria branca e generosa daquela praia da ilha do Ventura.
            Distantes vozes meninas se misturaram aos ziz-ziz das cigarras e às confabulações dos pássaros. Cúmplices, se recompuseram adultos e emergiram da sombra com mãos plenas de pitangas. Elas chegaram chapinhando com os pés as marolas, sorrisos puros e mãos com caracóis. E acataram as puras pitangas e a água fria oferecida, nos lábios de puros sorrisos, banhadas da manhã das onze e meia e sol a pino. Eram uma alegria que só um deserto de ilha sabe provocar. Ali, natureza não se disfarça.
            Ele olhou as meninas, ainda um pouco desequilibrado nas linhas de seu limite. Ali havia sentimentos nunca sentidos, ali, ali onde a natureza não se disfarça.
            — Sabe o que eu e a Laila gostaríamos de fazer?
           — Seja lá o que for, ainda temos tempo. Pedi para o barqueiro voltar às três horas. Mas o que é que as lindas sereias gostariam de fazer?
            — Top less.
            — O quê?!
            — Top less, garanhão das praias. Tirar a parte de cima do biquíni...
            — Não!
            — Por que não? E você, mamãe, deixa?
            — Por mim, tudo bem...
            — Como tudo bem?
            — Que é isso, Lúcio. Não vai me dizer que você é tão puritano assim...
            — É que pode chegar alguém...
            — Quem?
            — Sei lá, alguém, alguma pessoa...
            — Teriam que vir de barco, não teriam? Então. Nós ouviríamos o motor e nos cobriríamos.
            — Mas Laila, é que...
           — Você está com vergonha, não é? Olhe para nós. Estamos quase nuas. Por que você não pode ver nossos seios? Se alguém tem que ter vergonha somos nós.
            — É. Deveriam ter vergonha.
            — Mas não temos, tio.
            — Não me chame de tio, que eu não sou seu tio.
            — Está bem, Lúcio. Eu não tenho vergonha de você.
            — Vai, Lúcio. Deixa de ser retrógrado. Deixa as meninas à vontade.
            — Só queremos um bronzeado homogêneo, ficar bonitas, entende?
            — Tá bem, tá bem! Acho que estou precisando de uma cerveja.
            Devagar, encaminhou-se para a sombra de árvore em que estava a caixa de isopor. Pegou uma latinha, abriu-a, bebeu alguns goles e tentou se interessar pela mata fechada que começava no pé do morro à sua frente, de costas para o mar. E viu bromélias, pequenas, médias, enormes, bromélias em pedras, em galhos de árvores, nas pedras do morro, lindas bromélias, verde-escuro, verdes, verdolengas, rajadas, vermelhas. Ficariam bem, se adaptadas, numas pedras, num canto da sala de seu apartamento. Então cerveja, uns goles. Bromélia avermelhada nas pontas das folhas verde-escuro, levaria aquela e outra rajada e umas menores, sem espinhos nas folhas. Mais cerveja. No porta-malas do carro caberiam, se bem arranjadas com as malas e as inevitáveis compras de artesanato que ele e Laila sempre faziam. “Meu Deus, Laila.” Ouviu seu riso divertido e sua voz sempre firme, sempre feminina, sempre bonita. Com certeza conheceria aquela voz no meio de uma multidão. Cerveja. E bromélias. Cerveja, lata vazia. Mais cedo ou mais tarde teria que se voltar.
            Respirou fundo e encheu-se de falsa segurança. Lentamente os olhos nas bromélias, mata, pedras, areia, areia, seus pés: virou-se olhando a areia e parou os olhos na caixa de isopor. Foi.  E lentamente a mão pegou a antepenúltima lata de cerveja. Leu: “levante o anel, puxe e empurre”. Lentamente abriu, bebeu. Longo gole de olhos fechados. E andou, vendo o mar à direita e o continente adiante. Lentamente o olhar percorrendo o mar, o continente não muito distante da ilha, os morros, o céu, o sol. Sol, céu, mar, praia, areia, Luana, seios. Que lindos, brancos, bicos rosados, seios pequenos, meninos, natureza feminina, sorriso de olhos fechados ao sol, cotovelos na areia. Beleza menina. Admiração.
            Depois areia, marcas de passos, pés, pernas, coxas, maiô rosa, verde, amarelo pastel, barriga, umbigo. Seios de Silvana. Há pouco amados, tocados, chupados, mamados, generosos, esparramados sobre o peito, em equilíbrio com a mulher, com o corpo, com a idade: maternos e putos. Mas nenhuma sensualidade naquela exposição ao sol. Brilho de creme protetor solar, igual ao colo, ao pescoço, ao rosto de olhos fechados sob os óculos escuros. Só Silvana e ligeira excitação. Areia.
            Ali estava Laila à sua frente. Os olhos focalizaram os seios dela; seu peito invadiu-se daquela emoção impossível, desconhecida; certamente condenável, proibida, culpada, irreprimível, pecadora. Antes que decorasse a anatomia daqueles seios, daquela sobrinha, daquela mulher, daquela filha, daquela fêmea, daquela filha de seu irmão, fechou os olhos. Mas precisava abrir os olhos. Soltou a lata de cerveja na areia, alheio à mãe e à filha, que, alheias a ele, se integravam na natureza do sol das quinze para meio-dia, a pino, sobre os seios delas e sobre os desejados seios de Laila. E abriu os olhos com o desejo mais forte que a censura, e naquele momento, por um buraco da fechadura de sua alma, permitiu-se olhá-la como olha um menino a pombinha de uma amiguinha; como olha um adolescente a calcinha branca de uma garota, entrevista embaixo de uma saia que mal cobre umas pernas cruzadas; como olha um homem os pelos púbicos e o que se esconde embaixo deles, antes que coloque sua ávida língua ali. Assim olhou os morenos mamilos dos amorenados seios de Laila, a auréola morena, de um amarronzado terra em torno dos mamilos nem pequenos nem grandes daqueles seios que se encaixariam perfeitos nas conchas de suas mãos, como um punhado de pitangas maduras. Assim olhou, e irreprimível, sentiu seu pênis crescer sob o vermelho do maiô.
            Os olhos se despregaram dos seios segundos depois, movidos pela curiosidade de saber do semblante de Laila, na tênue esperança de que ela estivesse intimidada, infantil, e o recolocasse no seu antigo papel de tio, e lhe devolvesse a sanidade. Mas o que encontrou foi um olhar que lhe vazou os óculos escuros, encarou suas pupilas e penetrou despudorado sua alma pelo mesmo buraco de fechadura. Um olhar de mulher que lhe oferecia irresistíveis comidas, que escolhia sua colônia, suas camisas e suas cuecas, que se oferecia a ele adulta demais para ser menosprezada. Sim, Laila mulher. Tentou negá-la, mas os olhos dela o encaravam, ali, atentos a cada gesto seu, destemidos, sem provocação; uma mulher. Mas não era uma esfinge, não havia nem desafio, nem oferta, apenas o olhavam, despido de tudo que não o fizesse tão somente homem. Em meio a esse olhar, a razão ressuscitou. E antes que se entregasse ao impulso de abraçar aquele corpo e sentir seus seios esmagados em seu peito, arrancou os óculos escuros, fotografou na mente aquele corpo perfeito de mulher e correu com toda a velocidade que conseguia para o mar.
            Correu até que tropeçasse na água e se sentisse envolto pela água que esfriava seu corpo quente pelo sol das doze para meio-dia e transferiu seu impulso para largas braçadas que o levavam cada vez mais fundo dentro do mar. Quando se cansou, deveria estar a uns cem metros da praia. Então deixou que seu corpo boiasse abaixo do sol das dez para meio-dia, a pino sobre o mundo; abaixo do céu de um azul sem mágoas, abaixo dos albatrozes, sobre a água densa do mar que o sustentava e o envolvia. Boiou sobre essa água densa que lhe lambia da sola dos pés até as orelhas e os cabelos, sobre os peixes, crustáceos e moluscos que viviam nessas águas, sobre a areia branca que sustentava essas águas, sobre a terra e as pedras que sustentavam esse fundo de mar, sobre o magma que sustentava essa casca de terra, areia e água. Só, boiou sobre o mundo, inundado dessa energia e da do sol, do ar azul e dos seres viventes que o envolviam. E assim se sentiu homem, sem disfarces.
            Sozinho onde estava, no meio do mar e do mundo, era pesada, inútil e dispensável aquela peça de roupa que ainda o cobria. Sem pensar tirou o maiô vermelho e o segurou na mão esquerda. Deixou-se boiar nu. Livre de tudo que não fosse pele e água, sentiu na boca o salgado do mar; na pele, o carinho do mar — e permitiu-se sentir a água acariciar a rigidez do seu pênis, as rugas de seu saco, o livre nu de suas nádegas e de seu ânus. Olhou, no corpo que boiava, a ponta de seus pés fora d’água e a ponta de seu pênis inchado de puro desejo e viu as borbulhas de ar que se desprendiam de seus pelos púbicos. Assim se viu. Assim, envolto nu em água, ali, no útero do mundo, sentiu-se bem, e conheceu um sentido absoluto da palavra liberdade.
            Da praia, ouviu uns gritos longínquos de uma voz conhecida. Ergueu um pouco a cabeça e viu aquela mulher que o chamava com água até a cintura, e mais atrás, duas mulheres que lhe acenavam a mão. Só respondeu aos sinais, acenando com a mão direita, para que se tranquilizassem. As duas mulheres se dirigiram para o local onde estava a água de beber. E a outra, com água até a cintura, continuava chamando-o e acenando a camiseta estampada com flores vermelhas. Ele sentiu seu apelo, sem desespero, envolto que estava na mesma água que a envolvia, sereia, da cintura para baixo, sob o sol do meio-dia.

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