CAPÍTULO QUATRO

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            Não era comum Diana vir ao apartamento dele; ao menos depois que Laila se mudou para lá. Vez ou outra, nos aniversários, nas doenças, nos problemas. Ultimamente vinha quase todas as semanas, desde que Laila decidiu cozinhar. Para Lúcio era mais um capricho de menina, semelhante à abandonada coleção de papéis de carta. Não para Diana, que sabia que comidas não se colecionam. Também não se coadunava com Laila a imagem de “prendas domésticas”, de “moça casadoira”, ou coisa assim. Desde já era explícita nela a futura mulher independente e determinada — que atraía a amizade de Diana, num outro nível de identificação mais forte que coleções. Não ousava questionar quais eram os secretos propósitos de Laila com o súbito interesse por culinária. Mas sabia que eles existiam. Como ela, a mocinha não fazia nada sem fundas intenções. Um dia tudo ficaria claro, e saberia o que estava por trás da lula en su tinta e do tender à Califórnia.
            Em consequência, sofisticaram-se os jantares em restaurantes e os gastos com livros. Lúcio gostava disso. Sempre se preocupou com o desinteresse de Laila pela leitura. Quantas vezes teve que ler em voz alta para ela os livros recomendados na escola, porque a menina achava chato. Valeu a pena. Talvez estivessem surtindo efeito os livros que sempre dava de presente nos aniversários e Natais. Não fazia mal que fossem livros de receitas. Importante era a relação de empatia com o objeto “livro”: de Dona Benta para Graciliano Ramos, que ele gostava tanto, era só mais um passo. Por certo passaria antes pelos best sellers, mas chegaria ao crèmme de la crèmme dos escritores.
             Laila, como sempre, o surpreendeu. Enquanto ele saboreava os pedaços de frango preparados com mel e ervas finas, luzes apagadas e velas no castiçal, ela rompeu o silêncio, sem desviar o olhar atento às suas reações:
            — Tenho um ótimo acompanhamento para este prato que você está comendo.
            — Hum hum?...
            — Mas não é aquele vinho que você prometeu trazer para o jantar.
            — É. Eu esqueci...
            — Tudo bem. Ouça.
            E pôs-se a dizer de cor um poema.
            — Fantástico! Você que fez?
            — O frango?
            — Não, o poema.
            — Claro que não, ignorante. É da Cecília.
            — Que Cecília?
            — Cecília Meireles. Não é você que diz que leu tudo?
            — E desde quando você lê Cecília Meireles?
            — Ah, sei lá. Mas você não achou o poema adequado ao jantar?
            — É... acho que tem a ver... Pareceu-me um pouco amargo. Como se chama?
            — O frango?
            — Não, o poema!
            — Vinho.
            — Já sei que não trouxe o vinho!
            — Não seja burro! “Vinho” é o título do poema.
            — Não me lembro desse poema da Cecília...
            — E você se lembra de algum outro poema, além da “Pedra no meio do Caminho”?
            — Lembro. “Batatinha quando nasce”.
           — Esse não ia bem com o frango. Com esse frango agridoce era necessário um vinho branco e seco, como o poema da Cecília.
            — Diz de novo para eu degustar melhor.
            — Você gostou?
            — Do poema?
            — Não, do frango.
            — E você acha que eu estaria repetindo se não gostasse?
           — Sei lá. Você faz de tudo para me agradar... Acho que vai continuar comendo mesmo sabendo que isso aí não é frango, é urubu...
            — Laila! Não estrague o frango!
            — O urubu, você quer dizer...
            — Laila!
            — Tá bom, coma seu melífluo urubuzinho, que eu digo novamente o poema. Mas dessa vez sinta o bouquet das palavras, hein!...
VINHO
                                               A taça foi brilhante e rara,
                                               mas o vinho de que bebi,
                                                com os meus olhos postos em ti,
                                                era de total amargura.

                                                Desde essa hora antiga e preclara,
                                                insensivelmente desci,
                                                e em meu pensamento senti
                                                o desgosto de ser criatura.

                                                Eu sou de essência etérea e clara:
                                                no entanto, desde que te vi,
                                                como que desapareci...
                                                Rondo triste, à minha procura.

                                                A taça foi brilhante e rara:
                                                mas com certeza enlouqueci.
                                                E desse vinho que bebi
                                                se originou minha loucura.

            Ele olhou o rosto redondo dela iluminado pelas velas, a moldura negra dos cabelos, os olhos que ficaram semicerrados alguns segundos após o último verso e se abriram enormes junto com o sorriso de dentes brancos, brilhantes. Até parecia que ela sabia que o tinha emocionado, e ele ficou ali parado, buscando alguma coisa inteligente para dizer, adequada à situação. Mas o que lhe saiu da boca foi a frase que nem ele entendia por que estava dizendo:
            — Vai devagar, Laila. Eu não estou conseguindo acompanhar você.
            Ela levantou-se lépida, de um jeito meio infantil, um pouco envergonhada, apressada, em direção à cozinha.
            — Não se levante. Agora vem a sobremesa. E depois o seu cafezinho. E aí acabou a mordomia: você lava a louça!
            E ele ainda tentava atinar com o significado da frase que tinha dito. Diana entenderia. Por certo, o convívio mais constante e o fato de ser mulher ajudariam a norteá-lo na educação dessa mulher que estava surpreendentemente nascendo em Laila. Precisava conversar com ela, como fez na primeira menstruação e na compra dos primeiros soutiens. Daqui a pouco Laila apareceria com um namorado, iria querer transar... O que estava acontecendo com ela? Precisava conversar com Diana; ela saberia o que estava mudando. Amanhã mesmo ele...
            — Tchan! A sobremesa!
            — Mas está lindo demais! Eu não tenho coragem de cortar esta obra de arte.
           — Pois não corte. Pegue direto com a colher, que é um pavê. Vamos, homem, que eu também estou louquinha para comer. É uma receita francesa, sabe? “Pavet au chocolat”. Eu achei na Cláudia.
            — Que Cláudia?
            — A revista, ora.
            — E as flores?
            — Simples: chantilly e anilina.

            Admirou uma última vez a tigela de vidro com o doce tão carinhosamente arranjado, pegou a colher e enterrou bem no centro de uma das flores vermelhas que decoravam a iguaria.

3 comentários :

  1. Já quero ler o próximo capitulo.

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  2. É muito interessante perceber a história pelos detalhes.

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