CAPÍTULO CINCO

5


            Quando não chove, o que mais há em Paraty no verão é sol; sol e tudo que vem com as férias: os turistas, as praias. As pedras desiguais das ruas refletiam aquele calor sem brisa das duas da tarde. De bermuda, camiseta, e chinelos, Lúcio bebia devagar o último copo já meio quente da cerveja que tinha vindo gelada. E uma preguiça gostosa relaxou uns últimos músculos tensos da perna. Após o bocejo, encheu o pulmão de ar puro, e automaticamente procurou no bolso inexistente da camiseta o maço de cigarros que estava sobre a mesa. Buscou um cigarro, acendeu-o e esticou preguiçosamente a perna cabeluda e morena. No movimento, um pé resvalou no pé de Laila, que parou a leitura de uma revista e sorriu para ele.
            Não se disseram nada. Só sorriram. Estavam satisfeitos com o farto almoço caseiro do restaurante, com o doce de abóbora da sobremesa, com o insuportável ótimo calor da cidade, com o dolce fare niente daqueles dias, consigo mesmos, com a vida. Por isso sorriram e se entenderam, numa certeza de que estavam sentindo a mesma coisa. Dali voltariam para a pousada, ele se deitaria e se entregaria à preguiça até o fim da tarde; e ela leria sua revista, assistiria TV, ou leria um livro, ou tomaria sorvete. À noite, andariam pela cidade, paquerariam, fariam fofocas, talvez jantassem... E amanhã teriam a dura tarefa de decidir a que praia ou a que ilha iriam. É. Quase estavam felizes.
            Pela janela aberta do quarto, ele percebeu o fim de tarde, quando acordou. Sem dúvida era a hora de fechar as janelas, para que não entrassem pernilongos. Dormiu mais de três horas, um descanso merecido. Bom estar longe das gritarias e tensões da Bolsa de Valores, das correrias da cidade. Merecia. Na penumbra do quarto, deixou-se deitar mais um pouco, para espantar a preguiça, esperar alguma vontade de mover-se e procurar Laila. Cochilou mais um pouco.
            Já estava há cinco dias nessa rotina gostosa, a mesma do ano passado e do anterior, e de todos os cinco desde que Laila veio morar com ele. Iria encontrá-la na sala de estar da pousada, lendo ou vendo TV. Sem pressa experimentou a camiseta branca, a amarela e a verde-água. Queria um contraste para ressaltar o moreno da pele. E queria ficar bonito, exibir-se, nem sabia para quem. Optou pela verde-água e pela bermuda cinza claro. Nos pés, o chinelo de plástico moldado, listrado em azul e branco. Ajeitou cada fio de cabelo num penteado meticuloso, perfumou-se e foi para a sala.
            Como se fosse amiga de anos, Laila conversava com a garota de cabelos curtos aloirados. Ele parou uns instantes, antes de se aproximar, para lembrar-se se conhecia a amiga. Mas não se lembrou de ninguém. Aproximou-se e cumprimentou-as.
            — Até que enfim o lobo saiu da toca.
            — E saiu louco para devorar chapeuzinhos desavisados.
            — Esta é a Luana.
            — E quem é a Luana?
            — A Luana é a Luana, ora...
            Ficou sabendo, em poucos minutos, enquanto elas o acompanhavam à procura de um cafezinho num bar da Rua Dona Geralda, que se conheceram naquela tarde, na sorveteria, que tinham feito amizade logo; e mais: tinham a mesma idade, eram da mesma cidade, Luana estava em outra pousada, iria ficar até o fim da semana, não tinha namorado, gostava de MPB, dos Titãs, do U2, de sorvete de chocolate, era muito simpática e tinha uma mãe.
            Enquanto tomava o café e acendia o cigarro, falaram da mãe; ficha completa: bonita como a filha, dona de uma loja de cosméticos, trinta e três anos, divorciada, simpática, sem namorado atual, inteligente, disponível, tinha um carro do ano, corpo bonito... E na terceira tragada ele já havia aceitado ir até a pousada conhecê-la e convidá-la para jantar, divertindo-se, deixando-se levar pela óbvia campanha de sedução das mocinhas. Cúmplice, Laila finalizou:
            — Afinal, amanhã é sexta...

            E assim ele conheceu Silvana: de braços dados com a loirinha de short de jeans e blusa branca, de um lado, e do outro, com a morena de short rosa e blusa branca estampada com flores vermelhas.

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