SOBRE NOMES

SOBRE NOMES


            Por fim retomo o blog. Havia uma questão pendente sobre a escolha do título da História Sem Destino Certo. Mas confesso que não consegui me decidir, porque entre os que votaram (infelizmente não foram muitos) há um equilíbrio e não me senti seguro por escolher um. Os três sugeridos me parecem interessantes e então deixo para quem quiser assumir um deles como o que nomeia a história. Na verdade esperava que um dos três disparasse na votação, mas isso não aconteceu...
            A propósito de nomes, aproveito para introduzir as próximas publicações. São duas novelas (acho que podemos classificar assim), escritas há uns vinte anos, que relutei em colocá-las no blog, primeiro porque são textos longos e segundo (principalmente por isto) porque foram concebidas para serem publicadas em livro, já que na minha percepção se complementam. Mas o editor que se interessou por elas negou fogo e acabaram por ficar adormecidas num arquivo do computador. Não tenho o perfil de quem fica correndo atrás de um editor e acabaram me convencendo de que publicá-las no blog não invalida uma eventual futura publicação em livro.
            Além disso, há outra decepção com esses textos. Tinham um título comum que as agregava num conjunto, um título, aliás, de que eu gostava muito e que eu achava que poderia ser bom atrativo para interesse pelo livro. Mas apareceu um filme exatamente com esse título e “queimou meu filme”. O meu título “surrupiado” pelo filme (que nem cheguei a assistir) era: “Histórias de Amores Possíveis” e abaixo o nome das duas histórias: “Juvenal” e “Laila”. Agora, pensando em marcar que formam um conjunto, decidi bolar um novo título, que não me é tão simpático como o original, mas que cumpre a mesma função: “Histórias de Amores Assim: Juvenal e Laila”.
            As duas histórias têm muito em comum, apesar das imensas diferenças entre as personagens. Quando as imaginei estava interessado em refletir sobre o sem limites das possibilidades das relações amorosas, por vezes acima das convenções, dos preconceitos e até da legalidade. Seriam uma espécie de ensaio narrativo sobre a relação amorosa. Mas o que saiu é muito mais um “ensaio” sobre a solidão, e o amor como uma saída quase desesperada para superá-la. Claro, há outras questões igualmente importantes nas conotações das duas histórias; isso deixo para que você perceba.
            Nem só no conteúdo há semelhanças entre as histórias. Também a estrutura narrativa é muito semelhante, com a presença de elementos comuns às duas. Nas duas aparece um poema no meio da história, marcando a passagem de atitudes mais decisivas das personagens; há também a presença simbólica da água ligada à sexualidade; e outras tantas semelhanças que você irá percebendo. Tudo isso é intencional e foi produto de um exercício de narrativas que eu estava experimentando na época da redação dos textos, preocupado que estava em observar a construção mental de estruturas e das infinitas possibilidades que oferecem. Não é assim com os romances, novelas de televisão e filmes? Antes de levar minhas conclusões aos alunos, na época, eu quis experimentar.

            Enfim, essas ideias estavam na minha cabeça quando Juvenal e Laila foram escritos. Claro, espero que as histórias agradem. Pretendo publicá-las aqui em capítulos semanais, como se fosse um folhetim, daqueles dos jornais do século XIX. Veja você: um anacrônico folhetim num blog, na internet... 





Histórias de Amores Assim:


Juvenal


Laila

1



Fitou longamente os olhos fechados, tentando lembrar Fábio naquelas pálpebras embranquecidas e sem desespero. Quantas noites dormidas por aqueles olhos que a terra há de comer. Abaixo da testa de duas rugas, os olhos fechados de Fábio, serenos, debaixo das pálpebras baixas, de poucos cílios, abaixo das sobrancelhas de poucos pêlos, naquele pouco de Fábio que via ali. Fitou e olhou longamente os olhos fechados do irmão.
     E abaixo dos olhos, seguiu meticulosamente a linha do nariz, desvendando os nunca notados poros que sempre vertiam um nunca visto óleo, que deveria besuntar o nariz de Fábio sempre, sempre brilhante e meio adunco. Pela primeira e última vez reparou nas narinas de Fábio, pateticamente tampadas com dois chumaços de algodão; e assim, em minúcias, via pela última vez o irmão, em despedida sem pressas, captando pelos olhos aquela imagem amada, admirada, de irmão mais velho, de amigo, de cúmplice, de coragem, de homem, de tanto vivido junto, compartilhado, visto. Em minúcias, até que as lembranças brotassem espontâneas de dentro e se avolumassem incontidas nas lágrimas que de dentro turvavam o olhar.
            Chorou o mais sentido sentimento de perda, sem controles, no lento choro livre de quem chora só para si. Ali, ao lado do caixão de madeira, deixou-se chorar longo tempo, sem culpa, ausente dos demais presentes, tantas amizades inconsoladas, tantos homens e mulheres. Assim chorou, alheio a todos, alheio a Laila.
            Permitiu-se esse despedir-se sincero, esse consolar-se em amargura feito das lembranças do amado irmão, desde os tempos em que tinham pai e mãe e sorriam. Junto chorou todos seus mortos frente ao irmão imóvel de olhos fechados e nariz brilhante tampado com algodão. As lágrimas. Quanto mais se vive, mais mortos há para serem chorados. E a vida. Ausenta-se e leva, e deixa as lembranças e mais lágrimas. Como as choradas por ele, Fábio e a mãe, na morte do pai; as choradas por ele, Fábio e Núbia, na morte da mãe; as choradas por ele e Fábio, na estúpida morte de Núbia, frente ao caixão lacrado, escondendo o corpo estupidamente morto naquele acidente. As lágrimas por Núbia, mãe de Laila. Só ele restara para chorar todos os amados mortos. E se permitiu sorrir, no rosto molhado em lágrimas, revendo na memória o noivado, os Natais, as festas, o casamento de Fábio e Núbia. O parto, o charuto que fumaram, os abraços e aquelas outras lágrimas nos olhos agora fechados de Fábio. E agora só resta ele para chorar. Ele e Laila.
            Como não amar um irmão assim? Ele estava tão pequeno frente a Fábio, que mesmo morto era mais forte que ele, mesmo feito memória. Tão intenso irmão, tão perfeito pai, capaz de somar-se em Fábio e Núbia e prover-se pai e mãe de Laila. Sozinho e suficiente pai. Então era preciso que as lágrimas lavassem a imagem imensa do irmão para que ele se lembrasse de si e se oferecesse a Laila como seu último e restante pai, irmão, amigo e tio. Ele ali, Laila lá. Lento, olhou-a. Ela olhava para nada.
            Sentada num banco, encostada na parede, ela nada olhava. Os sapatos pretos de verniz mal tocavam o chão. E meias brancas longas cobriam as canelas, e os joelhos emergiam juntos, num ângulo reto, da saia xadrez, comprada no último Natal, como a blusa branca de cambraia. Acima da gola bordada em florzinhas vermelhas e folhas verdes, o rosto delicado de Laila, que olhava nada com seus grandes olhos negros como os de Núbia, como os seus cabelos e os da mãe. Os negros cabelos de Laila, cortados rente aos ombrinhos, acariciados de tempos em tempos pela mulher sentada ao seu lado.  
            Assim deixou-se fitar longamente a menina de rosto sério sem lágrimas, mãos postas sobre o xadrez da saia, tão digna nos seus nove anos, ali, ausente da mão da mulher que de tempos em tempos acariciava seus cabelos, num consolo desnecessário ou inútil. Ficou a ver a menina até chorar a última lágrima, até encorajar-se e amar-se suficientemente para aproximar-se dela. No lugar vago ao lado dela, o banco também chamava pelo cansaço da noite em claro, pela energia esvaída em lágrimas, e ele sentou-se ao lado dela, pai, irmão, amigo e tio.
            — Você não quer despedir-se de seu pai, Laila?
            Ela meneou negativamente a cabeça.
            — Não quer vê-lo pela última vez?
            — Aquele que está ali não é mais meu pai.
            Os olhos se desprenderam do nada e ela olhou os olhos vermelhos de Lúcio. Em resposta, ele semi-sorriu enternecido, e carinhoso passou a mão no rosto bonito da menina, deixando-a escorregar até a gola da blusinha e os dedos tocarem com ternura o alto relevo dos bordados das florzinhas vermelhas.


10 comentários :

  1. Texto forte, que promete boa história...Vai ser semanal?
    Gilson quanto ao nome gostei muito de “Histórias de Amores Assim: Juvenal e Laila”, para mim tão bom quanto o outro "surrupiado" pelo filme...
    Bel

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  2. Muito bom ter suas histórias de novo
    Noêmia

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  3. Estou gostando, Gílson! Pretendo ler os próximos capítulos do folhetim.

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  4. Gostei muito, professor. Principalmente de "o banco também chamava pelo cansaço da noite em claro".

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  5. Gostei muito, professor. Principalmente de "o banco também chamava pelo cansaço da noite em claro".

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  6. Gostei muito, professor. Principalmente de "o banco também chamava pelo cansaço da noite em claro".

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  7. Gilson, fiquei tão feliz em achar seu blog. Há anos sai da oficina, mas lembro muito de você. Vou acompanhar feliz.

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