CAPÍTULO DOIS

 2

           

            Faltava ainda a coifa. Da casa do irmão aproveitou quase todos os utensílios de cozinha e o quarto de Laila. O restante, inclusive a casa, tinha vendido e depositado o dinheiro numa caderneta de poupança da menina. No começo, viveu dias preocupados com a ideia da morte, achando que não viveria muito. Providenciou um seguro em favor dela, nomeou-a sua herdeira e encarregou um advogado de assumir a tutela, obedecendo a uma longa série de procedimentos, em caso de sua morte. A cada passagem da vida dela procurou prever, até a universidade, de modo que em absoluto ela ficasse desamparada, se chegasse a vez dele, como temia.
            Mas as ocupações práticas, como a pintura das paredes, horários da escola, alimentação e outras tantas novidades, o ocuparam tanto, que a vida foi se impondo inevitável. Além disso, Laila era tão prenhe de futuro, tão mobilizadora de seu afeto, que por pouco não se esqueceu da missa de primeiro mês. Pouco ficou de seus hábitos antigos, além do trabalho na corretora de valores. Voltava sempre ansioso para casa, nos primeiros dias preocupado com a nunca observada solidão de Laila; e depois pela vontade urgente de vê-la, num afeto ainda mais forte do que aquele que sentia, quando menino, pelo cão vira-latas que o Fábio lhe deu num aniversário.
            Agora, acompanhava a novela das sete, ajudava nos deveres de escola, levantava-se cedo nos sábados e domingos e providenciava aulas de natação, passeios, cinema, teatro. O telefone era o veículo de manutenção de algumas amizades renitentes. Mas enviuvou-se de quase todas as namoradas, redescobrindo o prazer de dar-se a troco apenas do sorriso contente de Laila, mesmo quando exagerava nos mimos. Só faltava a coifa, que comprariam no próximo sábado, junto com um buquê de rosas que Laila queria pôr para enfeitar a mesa da sala.
            E a casa fez-se nova. Arrumada, limpa, numa anti-desordem do antigo apartamento de solteiro. Do Lúcio anterior restavam apenas as noitadas de sexta-feira. Laila ia para a casa de Diana, no andar de baixo, que se dispôs a essa tarefa no dia seguinte ao enterro. Naquele momento Lúcio achou de extremo mau gosto a oferta. Mas dias depois reconsiderou, porque não pretendia abrir mão de ser solteiro. Bem sabia que a vontade com que assumiu sua nova condição poderia criar o desejo de casar-se para dar um lar a Laila. Precisava lutar contra essa breguice, se não fosse por nada, pelo menos para não repetir a burrice do irmão, que pôs no mundo e agora deixava quase ao desamparo aquele anjo que o fazia reviver.
            E foi a paranoia da morte próxima que lhe deu o empurrão que faltava para que pelo menos as noites de sexta-feira mantivessem ativo o homem de sempre. Diana entendia tudo isso, ela mesma uma divorciada profundamente disposta a nunca mais cair na “armadilha do casamento”, como costumava dizer. Quando fez a oferta foi obedecendo a “ideais humanitários”, como justificou a Lúcio, que burramente entendeu que ela tentava consolá-lo pela morte do irmão. Portanto não foi surpresa, para ela, quando uma semana depois ele apareceu em seu apartamento com Laila, para que se conhecessem.
            Laila deu-se muito bem com Diana, especialmente com suas coleções de corujas e de rosebuds. Porque se identificava com ela, e levava toda sexta-feira sua coleção de papéis de carta para que Diana revisse, com as novidades que ela e Lúcio acrescentavam durante a semana, e para que juntasse o novo papel com que lhe presenteava em todas as visitas. Nessa cumplicidade de colecionadoras, elas ofereciam a Lúcio a liberdade de macho que ambas, a seu modo, sabiam que ele precisava ter. Nem de longe a atitude lhes parecia um favor. Muito menos uma chantagem, apesar de Diana ter vontade de que às vezes em que foi para a cama com Lúcio fossem mais constantes.
            A primeira foi na semana em que se mudou para o prédio, quando uma pane no elevador apressou o encontro. E assim foram tantas outras, ela sempre disponível, toda vez que Lúcio quis, especialmente no inverno, quando ele, por preguiça, ódio ao frio ou pelo conforto do aquecedor, visitava-a quase todas as noites. Era um bom amante, nada excepcional, mas muito solto e descarado, como ela gostava. E tinha aquela boca ávida abaixo do bigode. Também tinha o hábito de falar durante o sexo. Ela se excitava com isso. Melhor ele que os dois parceiros que mantinha. Muito melhor ele que o ex-marido.
            Laila não sabia de nada disso, quando começou a frequentar o apartamento de Diana. Só pressentia algum afeto entre os dois, feito de olhares sem barreiras e dos beijos na boca dos encontros e despedidas. Mas entendia perfeitamente as saídas das sextas. Isso, as novelas, os filmes de TV e as conversas das amigas de escola lhe ensinavam. Todo homem precisava disso, aceitava. “Toda mulher também?” A resposta evasiva e contraditória de Diana lhe disse que sim. Entre corujas, rosebuds e papéis de carta, as duas se davam compreensivas àquele homem.

            No sábado de manhã, Laila subia e esperava Lúcio acordar. Iriam, naquele sábado, comprar a coifa que faltava. E as rosas, que seriam vermelhas. Tinham que ser.

4 comentários :