HISTÓRIA SEM DESTINO CERTO 10

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            A semana seguinte e a seguinte transcorreram como combinaram, sem percalços no trabalho, cheias de paixão depois. No fim de semana ela ia para a casa dele e foi impossível evitar que sua mãe aparecesse para conhecer a “futura nora”. Questão de tempo que ela acabasse se mudando definitivamente para a casa dele, sem que ninguém se opusesse, a não ser o ex-namorado, que continuava a insistir em voltar com ela, depois que alguns dos antigos amigos foram presos. Mas ela não vacilou, decidida que estava em continuar nessa nova vida. Só faltava ter certeza de que Robson não atrapalharia seus planos de continuar os estudos, certeza que veio quando ele também decidiu procurar um Cursinho com ela. E também era preciso controlar o ciúme dele, que se manifestava das maneiras mais estranhas — quando ela conversava com algum colega no trabalho, quando ela elogiava a beleza de um ator de um filme que viam juntos, ou toda vez em que ela se referia ao ex-namorado.
            — Ah não, Robson! Namorado ciumento já basta aquele que eu larguei! Eu não aguento homem no meu pé!
            — É que você vive falando nesse cara...
            — O que você queria? Namorei com ele muitos anos e eu gostava dele. Você quer que eu finja que isso não aconteceu?
            — Às vezes parece que você ainda está a fim dele...
            — Se eu estivesse a fim dele, eu voltava pra ele. Agora eu estou com você e só com você. Ou você confia em mim, ou a gente não vai dar certo. E quer saber? Isso é problema seu, da sua cabeça. Você sente ciúme até de ator de cinema...!
            — O que eu posso fazer. Eu sinto ciúme, porra!
            — Eu também sinto, você pensa que não? Outro dia você estava lá conversando com a Celina, ela é bonita, mais que eu, senti ciúme... Mas eu não fiquei no seu pé depois, fiquei?
            — A Celina? A gente estava conversando coisa do trabalho, reposição de estoque, você sabe...
            — Eu sei sim, por isso não fiquei no seu pé. E também porque eu confio em você, eu sei que você não vai aprontar comigo.
            — A Celina não é mais bonita que você. Nenhuma mulher é mais bonita que você.
            — Menos, Robson, eu sei que não sou, mas é muito bom ouvir isso. Vem cá juntinho de mim, vem, meu homem ciumento... Isso, assim... Você promete se controlar?
            — É difícil, mas vou me esforçar.
            — Olha, vamos fazer um trato. Se um de nós se encher do outro, ou se interessar por outra pessoa, fala logo que isso está acontecendo e não engana o outro. Certo?
            — Eu nunca vou me encher de você, nem me interessar por outra.
            — Eu também não. Então vamos parar com ciumeira? A gente se gosta e pronto.
            — Tá bom, mas se eu sentir ciúme, eu falo, tá bom?
            — Melhor do que ficar carrancudo, como você fica...
            E naquele fim de semana ela disse que traria suas coisas para a casa dele, porque era melhor para os dois, porque era mais perto do emprego e do cursinho, porque seus pais não se opuseram, porque mais uma porção de razões a que ele não se opôs, mas não sua mãe, que achava que eles deveriam era logo se casarem. “Mas ele não me pede...”, argumentou ela, o que provocou a reprimenda da mãe a ele. “Pra quê?”, ele se defendeu, “está bom assim”. Nada disso atrapalharia a relação deles, nem a inesperada visita do pai, num sábado de manhã, apresentando sua irmã e sua mulher, finalmente assumida. E

           
           
            E essa história poderia continuar indefinidamente, porque provavelmente eles conseguiriam atingir seus objetivos e talvez tivessem filhos e talvez viajassem e com certeza teriam suas desconfianças, suas decepções, como costuma acontecer com todo mundo, comigo, com você.
            Gostaria de falar um pouco dessa história, agora que ela se finda. Bem sei que nem sempre atendi às expectativas de quem a acompanhou até aqui. A propósito, agradeço as sugestões de continuidade que li no facebook e que ouvi das pessoas mais próximas. Se não as segui, é porque decidi me manter fiel ao minha ideia inicial de falar de pessoas comuns, seus dramas cotidianos, seus sonhos e expectativas. Nada de grandes conflitos, como, por exemplo, me sugeriram que explorasse a possível relação edipiana entre Robson e a mãe. Quando escrevia, pensava nessas pessoas com quem convivo diariamente e com quem convivi sempre.
            São balconistas, atendentes, caixas, garçons, funcionários, gente que nos atendem, nos servem, facilitam a nossa vida. Muitas dessas pessoas foram alunas minhas, principalmente na época em que dava aulas em Cursinho. Quantos Robsons e Martinas tive como alunos... E mesmo não dando aulas em Cursinho, continuo convivendo com elas. De algumas delas, me considero amigo, converso com elas, sei de suas vidas, ouço confidências, troco ideias — isso tudo que fazemos com amigos. Tenho enorme respeito por elas, essas pessoas que vivem na periferia da cidade e da sociedade, as por vezes alcunhadas por “maioria silenciosa”. E respeito suas vidas duras, a maior parte delas diariamente “viajando” horas para seus empregos em ônibus e trens lotados, porque aquele salário no fim do mês é muito importante, sustentará filhos, pais, irmãos e sonhos. É delas que eu queria falar, não porque imagino suas vidas, mas porque as conheço e convivo com elas. Porque as admiro e respeito.
            São essas pessoas que fazem o país funcionar. Por trás dos números frios da economia, estão elas, anônimas, levando suas vidas e a vida do país. Mas não quis, na história, fazer demagogia ou dramatizações exageradas. Queria ouvir suas vozes o mais próximo possível da realidade, o mais próximo possível de pessoas que eu realmente conheço. Até pensei em caracterizar as personagens como algumas pessoas que conheço. Mas optei por não descrevê-las, às vezes nem mesmo o nome, como “a mãe”, para que quem lesse as imaginasse como quisesse. Quase não há descrições das personagens (a não ser a pinta no seio esquerdo de Martina, ou uma ou outra descrição ocasional). Queria que você imaginasse pessoas como elas, que tenho certeza que você conhece e com quem convive. E assim que você participasse da história mais efetivamente do que simplesmente votar numa das opções. Participasse com sua imaginação, com seu imaginário, se sentisse identificado(a) com as personagens como eu me sinto.
            Do que apreendo e aprendo do convívio com essas pessoas, o que mais me impressiona é o pragmatismo e o senso prático com que tocam suas vidas e definem suas ações. Acho que consegui mostrar bem isso no Robson e, sobretudo, em Martina. Talvez você tenha achado que essas personagens são inteligentes demais para a condição de vida que têm. Se pensa assim, é porque não convive com elas. E se não estranhou suas inteligências, deve lamentar, como eu, a injustiça que se comete com elas não lhes dando as oportunidades que merecem. Muitos dos meus alunos de cursinho, batalhadores como Robson e Martina, hoje são pessoas proeminentes. São professores universitários, economistas, agentes da ONU, políticos. Já outros nem sei no que deu a vida deles. Mas nunca duvidei do potencial deles, nem da determinação que mostravam ter.
            Espero que tenha gostado da história como eu gostei de escrevê-la. E agora que termina, peço um último voto seu, para o título da história:
            A – Passos Incertos
            B – Gente Comum
            C – Vidas Assim:


            Agradeço sua leitura.

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