HISTÓRIA SEM DESTINO CERTO 9


            De fato sua mãe tinha razão. Uma namorada muda a vida. Tudo que era sempre igual parecia diferente naquela manhã sem cansaço, apesar das poucas horas de sono. Até o vagão do metrô lotado parecia um lugar agradável, porque o levava para perto de Martina em pouco tempo. E não havia como não notar o céu azul, as poucas árvores da cidade, as poucas coisas de natureza que se tem num lugar como São Paulo. Sim, sua natureza exigia natureza, seu corpo pedia outro corpo, aquele corpo, apenas pressentido envolto em roupas femininas, misterioso e desejado. Logo estaria com ela, mas sabia que esse desejo de proximidade só poderia ser satisfeito depois do final do expediente. Será que ela também estava se sentindo assim?
            Chegou bem antes do horário de abrir a papelaria, quase meia hora. Porque era seu primeiro dia como gerente sem a presença de seu Matias e queria se certificar de que tudo estivesse em ordem quando abrisse as portas para que os funcionários entrassem. Entre eles Martina. Como agir com ela? Nem conseguiu conversar com ela ontem sobre a relação no trabalho. E de agora em diante não poderiam mais conversar na hora do almoço e no intervalo para o lanche da tarde, porque no rodízio definido por seu Matias ele seria o último a almoçar e sozinho, não em duplas como os demais funcionários. Martina almoçaria com um rapaz do almoxarifado ou com a moça recém-contratada como balconista no lugar do Sérgio, que saiu para trabalhar como atendente de uma loja de roupas.
            Ao chegar, Martina disse em voz baixa que queria falar com ele no final do expediente. Nenhum gesto de afeto, nenhum olhar cúmplice, nada que demonstrasse qualquer relação com aqueles lindos loucos beijos e excitados abraços do dia anterior. Preocupou-se. E passaria o resto do expediente de trabalho lutando para concentrar-se no trabalho e evitar a necessidade de falar logo com ela. Até tentou, quando ela, no meio da tarde, aproximou-se do caixa. Mas ela somente respondeu seca: “depois”. E o depois chegou finalmente, no horário que tinha que chegar, no fim da tarde. Esperou já agora angustiado que o último funcionário se despedisse, enquanto Martina fazia hora para se arrumar.
            — Tá tudo bem, Martina?
            — Tudo bem, tudo bem, e você?
         — Eu? Não sei. Você disse que precisava falar comigo, ficou indiferente... Fiquei preocupado. Depois de ontem... você fica assim, distante...
            — É sobre isso que quero falar com você.
            — Então fala, fala logo, por favor.
            — Aqui é nosso lugar de trabalho. Você sabe quanto este emprego é importante para mim e eu não quero perder. Pra você também este emprego é importante, talvez mais do que pra mim. Então aqui eu sou empregada, você é meu gerente e só. Vou me esforçar para ser a melhor atendente que você tem, não vou faltar, não vou me atrasar, vou atender bem todos os fregueses, vou fazer de tudo que seja preciso para ajudar você a ser o gerente que o patrão espera que você seja. Não quero saber de fofoca dos outros funcionários, porque isso não constrangeria só a mim, mas a você também. Fora daqui, somos livres e fazemos o que quisermos e ninguém tem nada com isso. Mas aqui nós não podemos dar o mínimo motivo para alguém pegar o telefone e ligar pro seu Matias, entregando a gente. Aquilo que aconteceu ontem de eu beijar você aqui dentro da loja não vai acontecer mais, mesmo quando a loja já estiver fechada, como agora. Nós temos todo o espaço do mundo para isso, mas aqui nós só trabalhamos. Espero que você concorde comigo, porque, se não, não vai dar pra gente trabalhar juntos e eu vou ter que procurar outro emprego.
            Em parte pelo alívio, em parte porque ela antecipava a conversa que ele achava que seria muito difícil de ter com ela, ele apenas sorriu, olhou firme nos olhos dela, pensando: “essa mulher é melhor do que eu pensava...”.
            — E eu que achava que essa conversa ia ser difícil de ter... Eu só fiquei preocupado, porque a gente pouco conversou ontem, poderia ser que você estivesse arrependida... Mas sobre o que você falou eu penso igual. Sei que não vai ser fácil fingir indiferença com você. Acho que com o tempo me acostumo. Fico aliviado se for só isso. Mas você não se arrependeu, se arrependeu?
            — Vamos logo lá pra fora que eu estou louca pra abraçar você. E Robson, a partir de amanhã eu espero você lá fora, enquanto você fecha o caixa. Tá bom?
            Mas não se abraçaram; apenas se deram as mãos, andando devagar pela Sete de Abril em direção à Praça da República, numa conversa que começou tímida e foi se animando, primeiro sobre trivialidades do trabalho, depois sobre particularidades da vida de cada um. E assim deram duas voltas em torno do quarteirão da Praça, até que começasse a escurecer e ponderaram que era hora de irem para casa. Dessa conversa ficaram vários pontos de entendimento entre os dois. Ela ficou entusiasmadíssima quando soube que ele cozinhava, ela própria pouco afeita às tarefas domésticas; e da curiosidade de experimentar as comidas que ele disse que fazia surgiu o compromisso dela de ir à sua casa no sábado almoçar com ele e “quem sabe a gente ficar mais à vontade”, conforme palavras dela, acompanhadas de um olhar cheio de segundas intenções. Inseguro, ele tremeu e ela sentiu, mas não recuou e disse-lhe baixinho ao ouvido:
            — Não se preocupe, meu virgenzinho assustado. Eu vou cuidar muito bem de você.
            Ele a acompanhou até seu ponto de ônibus e voltou para pegar o metrô. De novo, como pela manhã, o mundo parecia diferente e ele não conseguiria conter a excitação até chegar em casa. O telefone fixo tocava, quando abriu a porta e sua mãe exigiria que ele lhe contasse todos os detalhes, todas as conversas, num entusiasmo e curiosidade de quem assiste ao capítulo final de uma novela. Só então ele pôde ir para a cozinha preparar o jantar. Umas costelinhas de porco o aguardavam para serem assadas.
            E o sábado chegou. Tinha conseguido fazer sua mãe jurar que não apareceria em sua casa no fim de semana, como ela queria, curiosa de conhecer “a nora”. No momento certo ela a conheceria, mas não agora. Tudo que era possível estar pronto para o almoço já estava, no fogão, no forno, na geladeira. Agora era só cozinhar, assar, temperar. Como haviam combinado, foi encontrá-la na Praça da República; e diferente do que haviam combinado, foram de táxi até a casa dele.
            Ele não disse “não repare a bagunça”, porque sabia que a casa estava arrumada, muito mais do que quando sua mãe morava lá. Apenas esperou que ela notasse, o que aconteceu na primeira olhada.
            — Nossa! Como sua casa é bem arrumada! É sempre assim, ou você só arrumou pra me impressionar?
            — É sempre assim. Não gosto de bagunça.
            — Eu moro numa casa com um monte de gente, é impossível ficar arrumada.
            — Mas seu quarto era arrumado.
            — Eu arrumei pra impressionar você. Não é sempre assim.
            — É melhor saber onde as coisas estão, não é?
         — Claro que é. Sabe, eu gostei de arrumar o meu quarto quando você foi lá e até continuo arrumando. Mas não com essa perfeição aqui... Quero ver seu quarto. Você me mostra?
            — Ali.
            — Olha! Nenhuma dobrinha na colcha! Se prepara, caminha, logo logo vou fazer a maior bagunça em você. Você deixa eu desarrumar sua cama, não deixa?
            — Deixo.
            — Deixa eu me sentar nela, assim? Deixa?
            — Deixo.
            — Vem, senta aqui comigo...
            — Eu ia começar a preparar o almoço...
            — Depois você faz isso, eu ajudo você. Ainda não estou com fome. Só estou com vontade de ficar pertinho de você, vem... Isso, assim. Seu cabelo tá cheiroso, macio...
            — Eu tomei banho cedo...
            — Pra ficar cheirozinho pra mim, é? Eu também tô cheirosa, cheira aqui... Gostou?
            — Gostei.
            — Calma, meu bem, calma... Posso tirar sua camisa, posso?
            Sobre o criado-mudo o relógio digital marcava 10:05 e marcaria 1:16 quando finalmente ele se levantou da cama para preparar o almoço. Logo ela se levantaria também, vestindo apenas uma camiseta dele e a calcinha rendada rosa, que ela havia escolhido naquela manhã como a mais sedutora que tinha. Havia no rosto dos dois um resto de sorriso que só saía dali quando se abria completo mostrando os brancos dos dentes. Sem dúvida estavam satisfeitos um com o outro. Mas essa satisfação não foi imediata. Na primeira tentativa ele não conseguiu evitar a precocidade de seu prazer, antes mesmo de que consumasse o ato. Também da segunda vez, nem tão rápida, conseguiu se controlar. Só na terceira vez, obedecendo às carinhosas instruções dela, conseguiram se satisfizer os dois, desta vez sem pressa, sem ansiedade, com ele aproveitando para conhecer mais atentamente o corpo dela, as formas que lhe pareceram perfeitas, até mesmo aquela pequena pinta que ela tem no seio esquerdo.
            Ambos estavam famintos e devoraram o almoço que ele preparou enquanto ela arrumava novamente o quarto, lavava as poucas peças da louça e talheres que iam se acumulando na pia e arrumava a mesa. Talvez pela fome, talvez porque realmente estivesse bom, ela se desfez em elogios pela comida, “o melhor almoço da minha vida!”. Somente depois do almoço, os dois esparramados no sofá da sala, comentaram sobre o que havia acontecido antes no quarto. E foi difícil para ela conter o discurso entusiasmado dele, para que também pudesse manifestar sua satisfação. Mais tarde, ela ligaria para casa avisando que iria dormir fora. Nem perguntou para ele se tudo bem. Não precisava.


            Para continuar:
            A – Eles compartilham suas percepções de mundo.
            B – Ele sente ciúme dela.
            C – Eles decidem se preparar para continuar os estudos.
            D – Ela vai morar com ele.

            E – Todas as opções.

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