HISTÓRIA SEM DESTINO CERTO 8

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Nos dias que restavam de férias, dedicou-se à culinária. Tinha dado uma passada rápida na papelaria para agradecer a seu Matias pela viagem, mas foi logo mandado embora pelo patrão para continuar suas férias, assim que ameaçou atender a um freguês que esperava junto ao balcão. Só cumprimentou Martina e os demais funcionários e logo voltou para casa para a segunda tentativa de fazer arroz. A primeira tinha sido catastrófica. Na panela jazia uma gororoba pastosa, qual um rizoto insosso, de que ele comeu umas três colheradas, jogando o resto no lixo. E novamente teve que se contentar com o miojo, igual ao almoço e ao jantar do dia anterior. Na terceira, o arroz saiu já mais solto, mas o fez numa quantidade que quase transbordava a panela e foram necessários três dias para comer a metade. “Se eu soubesse, tinha aceitado os insistentes pedidos da mãe pra cozinhar para mim...”.
Só que ele é do tipo meio obsessivo, daqueles que não desistem facilmente. O amigo jornalista havia dito naquele jantar em Brasília que se conhece um bom cozinheiro pelo arroz que ele faz. Daí que fazer um bom arroz virou questão de honra. As misturas e os acompanhamentos eram mais fáceis, bastava ter os ingredientes e seguir as instruções do livro de receitas. Até o bacalhau que sua mãe fez naquele jantar era mais fácil. Mas o arroz exigia know-how, muita prática e acerto na quantidade de água e sal, não como aquele primeiro que fez, em que pôs muita água e se esqueceu do sal. Já lidava bem com a carne, com o peixe, com as saladas e com os ovos mexidos. Mas não os ovos estrelados, que sempre estouravam as gemas ou ficavam com a clara sapecada nas pontas. Esse problema, após muitas tentativas frustradas, resolveu com um telefonema para a mãe.
No último dia de férias, finalmente preparou-se um jantar que o satisfez. Havia uma sopa, melhor dizer um consomé, arroz, bolinho de arroz feito com as sobras do almoço, um filé à parmegiana, feijão (desta vez acertou o tempo de cozimento na panela de pressão), mandioca frita e de sobremesa um sorvete com cobertura de chocolate, que comprou no supermercado. “Já posso casar!”, e sorriu do próprio pensamento. Inevitável que pensasse em Martina. Iria arrumar coragem para falar com ela e fosse qual fosse sua resposta, resolveria de vez essa situação de incertezas. Se não fosse ela, seria outra, mas estava certo de queria, enfim, conhecer intimamente uma mulher. Com certeza não seria uma prostituta, nem um encontro fortuito numa balada, como sugeriu seu amigo jornalista. Queria intimidade, identidade, compreensão pelo fato de ser completamente inexperiente em sexo. Talvez Martina fosse a mulher ideal, mas havia o complicador de trabalharem no mesmo lugar, potencialmente gerador de conflitos, não só com ela, mas também com os outros empregados. E se acontecesse com ela, essa questão deveria ficar muito clara. “Mas calma, Robson. Você nem sabe se ela está a fim de você”. “Amanhã começo a trabalhar e é nisso que devo me concentrar”.
Primeiro fazer a transição de atendente a caixa e gerente. Seu Matias fez um breve discurso de agradecimento a todos os funcionários e anunciou o que todo mundo já sabia, que de agora em diante o gerente era Robson. E que estaria à disposição de todos sobre qualquer problema, bastava um telefonema. Entregou-lhe solenemente as chaves da loja depois de abrir pela ultima vez as portas, sob aplausos dos funcionários. De novidade nesse primeiro dia como gerente, apenas a mudança de função, uma reprimenda educada a um dos atendentes pela demora em atender um freguês, a preocupação em não errar o troco nos pagamentos em dinheiro e a tarefa final de fechamento do caixa com os registros de entradas e saídas. Já havia pedido a Martina que o esperasse no final do expediente, que gostaria de falar com ela. Pacientemente ela esperou aqueles registros finais, sem sinais evidentes de ansiedade para ir embora, porque também ela queria falar com ele, saber da viagem e das novidades. A loja estava fechada e os dois estavam sós.
— E aí, como foi a viagem? Estou supercuriosa pra saber.
— Você teria saco pra ler minhas anotações das impressões da viagem? Fiz um pequeno diário contando sobre as coisas que mais me impressionaram...
— Claro que eu quero ler! Mas só depois de você me dizer alguma coisa...
— A viagem foi das melhores coisas que aconteceram na minha vida...
— Mas e o avião, como é viajar de avião?
— O aeroporto é uma coisa chata, você tem que esperar pra fazer o check-in, esperar para embarcar, fila... Mas a viagem em si é legal, rápida, tranquila. Só dá um pouco de medo na hora de pousar, mas é besteira, o pouso é tranquilo.
— Eles servem comida, bebida?
— Você tem que comprar, mas eles servem. Não é sobre o avião que eu quero conversar com você. Depois, se você quiser, a gente conversa, tá bom?
— Tá bom. Sobre o que você quer conversar?
— Sobre mim, sobre você, em parte...
— Sobre mim? O que você quer conversar sobre mim?
— Em parte, na verdade eu quero falar com você sobre mim...
— Tá bom, Robson. O que você quer falar sobre você?
— Por onde eu começo...? Eu conheci em Brasília o Fabiano, um jornalista daqui de São Paulo, um cara legal, sabe?... A gente conversou muito, acho que ficamos amigos, ele é um cara bem mais experiente que eu...
— Sei, você quer falar sobre esse Fabiano...
— Não, não! É que eu conversei com o Fabiano sobre mim e em parte sobre você e...
— Robson, não enrola! Fala logo o que você quer falar!
— Então, o Fabiano me aconselhou a que falasse com você...
— Muito bem, eu estou aqui e até agora você não falou nada.
— É que é complicado, sabe? Eu nunca falei disso com ninguém, só uma vez um pouquinho com minha mãe...
— Robson, você está me deixando preocupada. Você se apaixonou pelo Fabiano, é isso?
— Não! Eu não sou gay não! Ele é só um amigo que me deu bons conselhos...
— O que é então? Fala logo!
— Não me pressiona que fica mais difícil.
— Tá bem, me desculpe. Deixa eu te ajudar: você queria me falar de uma coisa que é muito difícil pra você e que você só falou uma vez um pouquinho com sua mãe...
— É, é isso mesmo!
— E...
— Pois é... Então eu conversei com o Fabiano...
— E ele aconselhou você a falar comigo. O quê?
— Tá bom, seja o que Deus quiser (se é que Deus existe)... Eu nunca namorei...
— Nunca?
— Nunca. O mais próximo de um beijo de mulher que eu tive foram os que você de vez em quando dá no meu rosto. Nunca saí com uma mina, nunca fiquei de mão dada no cinema, nada. Antes que você me pergunte, tive vontade sim. Até me apaixonei por meninas, aos oito anos, aos doze aos quinze... Mas elas nunca ficaram nem sabendo, eu sou muito tímido...
— Robson você é virgem!
— Completamente.
— Mas que coisa linda! Como que um cara tão legal como você nunca teve uma namorada! Incrível! Mas continua...
— Então. Daí que acho que está mais do que na hora de isso acontecer.
— Isso o quê?
— Isso de eu conhecer uma mulher, ficar, sei lá...
— Só isso, “conhecer, ficar”?
— Não, não! Eu me expressei mal. Não quero só ficar. O meu amigo jornalista até se propôs a me levar pra uma balada, pegar umas gatas, essas coisas... Mas eu disse pra ele que não é isso que eu quero. Eu quero que seja com uma mulher com quem eu me identifique, com quem eu possa conversar depois, com quem eu sinta confiança, uma mulher de quem eu goste. Não quero um relacionamento fortuito de balada, você me entende?
— Entendo. E...?
— E então é isso.
— E eu com isso?
— Você?
— É, eu, Martina.
— É que eu pensei... me desculpe a ousadia... é que... sei lá, você... Eu pensei que, sabe, quem sabe você...
— Meu Deus! Esta é a cantada mais bizarra que me deram!...
— Não, não! Não é uma mera cantada! Tudo que eu falei pra você é verdade! Se pareceu só uma cantada, me desculpe, esquece tudo que eu falei, me desculpe, por favor!...
Ela não disse nada. Sem pudores, pendurou-se no pescoço dele e deu-lhe um beijo na boca, aproveitando os lábios semiabertos pela surpresa dele para meter a língua em sua boca, num beijo de mais de um minuto, a que ele correspondeu imitando o que ela fazia ao mesmo tempo em que se deixava levar por aquela emoção nunca sentida. Só depois ela falou.
— Robson, você é um cara inacreditável! Incrível que em pleno século 21 ainda exista um cara como você. Eu adoraria ser a primeira mulher da sua vida, não só por ser a primeira, a que vai inaugurar você, mas porque eu gosto de você, você já deve ter percebido isso. Gostei de você desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar aqui. Você me mostrou que existem pessoas boas, sem maldade. Você não faz ideia como eu fiquei feliz quando seu Matias convidou você para ser gerente. Eu pensei “esse moço merece, é tão íntegro...”. E a convivência com você só fez aumentar minha admiração por você, ver que você tem potencial, nunca tinha lido e em pouco tempo já leu mais que eu! Também tem o jeito como você lida com seus problemas, com seu pai e sua mãe, incrível! Por isso não deu mais para eu ficar com meu ex-namorado, apesar de a gente namorar desde os doze anos. Eu quero um homem como você, se não for você, será alguém parecido com você, que quer ter um futuro, como eu.
O beijo que se seguiu já foi sem sustos. E foram embora abraçados, sem muito o que falar, sem definições de como seria o dia seguinte, sem discussões sobre o fato de trabalharem juntos, sem combinar onde se encontrariam, somente carregando no peito essa emoção apaixonada e gostosa que se sente no primeiro dia de namoro, essa sensação de flutuar sobre o mundo, de a todo momento fechar os olhos para sentir melhor as sensações táteis e o peito tomado por vibrações sempre únicas, por mais que já se tenha vivido essas situações. Assim ele, assim ela. Fosse o que fosse que estivesse começando ali, a vida dos dois estaria inevitavelmente marcada por aqueles momentos, num fim de tarde na Rua Sete de Abril.

— Alô, Fabiano? Sou eu, Robson, lembra-se de mim?
— (...)
— É que eu gostaria de conversar com você, coisas que aconteceram, me desculpe se estou invadindo...
— (...)
— É, é sobre ela mesma, a Martina.
— (...)
— Cara, ela topou, acho que estamos namorando...
— (...)
— Ô, me desculpe atrapalhar no seu trabalho!... É que eu precisava conversar com alguém...
— (...)
— Posso, posso sim. Onde é esse bar?
— (...)
— Espera um pouco pra eu pegar um papel para anotar o endereço... Pode falar... Sei... Já anotei.
— (...)
— Dez horas? Tudo bem, dez horas estou lá. Mas não é um desses bares barulhentos, é?
— (...)
— Então tá bom. Eu não janto e a gente janta juntos. Obrigado, Fabiano. Até mais, então.
O bar servia algumas porções, filé no palito, sanduíches, fritas, essas coisas. Até conseguiu controlar a ansiedade de falar sobre o acontecido no fim da tarde; e de perguntar sobre quais deveriam ser os próximos passos, como fazer para não estragar tudo... Perguntou sobre o trabalho do jornalista, interessou-se sobre a matéria que estava escrevendo, sobre os ganhos dele na viagem a Brasília, esperando que o amigo perguntasse sobre Martina. E ele não só perguntou, como quis saber de todos os detalhes, de como ele se sentiu — um jornalista entrevistando o amigo. Sobre o que fazer a seguir disse apenas “deixa rolar, Robson, deixa rolar. Na hora você vai saber o que fazer. E se não souber, deixa com ela, que ela sabe”. Surpreendentemente quis falar sobre o futuro profissional do amigo, ponderando que era um desperdício ele ficar a vida inteira trabalhando numa papelaria. Que com a curiosidade que ele tinha, a capacidade de se concentrar nas leituras, era óbvio que ele deveria estudar, fazer uma Faculdade. Só não aconselhava jornalismo, “tem jornalista demais pra pouco emprego”. E lhe falou de vários outros cursos universitários, alguns de que sequer ele havia ouvido falar, concluindo que a namorada dele estava certa em querer estudar; e se ele não a acompanhasse, iria se tornar descartável como o ex-namorado dela.
Voltou para casa depois da meia-noite, e apesar do cansaço, teve dificuldades para dormir. Então resolveu ler um pouco, para se acalmar e deixar o corpo cansado relaxar. No dia seguinte, logo cedo, ligaria para a mãe, contando que tinha arranjado uma namorada. Certamente ela dirá: “não falei que essa moça estava a fim de você?”.

Para que eu continue:
            A – Ela conversa com ele sobre a relação dos dois no emprego.
            B – Ele tem a primeira transa e tem alguns problemas.
            C – Ele conta para ela suas percepções da vida e do mundo em Brasília.
            D – Ele decide conhecer a irmã.
            E – Ele vai com Martina procurar um cursinho.
            F – Duas dessas opções.

            G – Todas as opções.

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