HISTÓRIA SEM DESTINO CERTO 6


Aquelas pessoas com suas vestes simples, aquelas crianças, aquela solidariedade entre eles; o que significava aquilo? Queriam uma casa para morar. Mas quem daria a eles essa casa? Nunca tinha pensado sobre isto, de que havia pessoas com problemas muito maiores que os dele, muito mais complicados que os dele. Até se lembrava das aulas do professor de História, sempre se referindo a problemas dessa ordem, mas naquela época só lhe parecia uma chatice, problemas que não eram dele. Agora começava a fazer sentido a preocupação do professor, mas ainda continuava sendo um problema que não era dele; o que poderia fazer para resolver? Nada, com certeza nada. E quem resolve? Talvez aqueles que protestavam soubessem a quem recorrer. Na saída do metrô, indo em direção ao ponto do ônibus que o levaria à sua casa, não pôde ignorar a mulher idosa, sentada na calçada, vestida em andrajos, que lhe estendia a mão, pedindo uma esmola. Tirou da carteira uma nota de vinte reais e deu a ela, sem esperar para ouvir os efusivos agradecimentos da mulher. Mas sabia que não solucionava os problemas dela, talvez apenas resolvesse sua fome naquele dia e no seguinte. Mais um problema que ele poderia pouco fazer para solucionar. Melhor ir logo para casa e ouvir mais sobre aquele bacalhau. Finalmente amanhã será sábado e sua mãe mudará de assunto... Será que ela começou a dessalgar?

— Deixa que eu atendo a porta!
— Claro...
— Oi, tudo bem? Não repare, a casa é simples, como eu lhe falei. Entra Daniela, fique à vontade. Este é o Robson, meu filho. Filho, este é o Germano e essa lindeza é a Daniela.
— Prazer... Fiquem à vontade.
— Sua mãe fala muito bem de você...
— Fala bem de você também...
— Daniela, vem comigo pra cozinha me ajudar, assim vai aprendendo alguma coisa. A Daniela quer que eu a ensine a cozinhar...
— Então vai aprender, você cozinha bem.
— Vem Dâni, vamos deixar os rapazes conversando...
— A casa é simpática, simples mas simpática...
— É...
— Aqueles livros são seus, né? Você lê todos?
— Leio.
— Gosta muito de ler, então...
— Germano, vamos deixar de papo furado e vamos conversar o que interessa. Tá bom?
— Certo. Eu vim aqui pra isso. Você deve querer saber sobre minhas intenções com sua mãe, não é?
— É.
— No seu lugar eu também estaria preocupado, você sabe melhor que ninguém a mulher extraordinária que sua mãe é, e não ia querer que ela se envolvesse com qualquer um. Vou me abrir com você. Gosto da sua mãe como não gostei de nenhuma outra mulher, nem da mãe da Dani. Eu já não acreditava mais que isso pudesse acontecer comigo, mas no dia que pela primeira vez eu vi sua mãe saindo da confecção, me deu um susto no peito, como se eu estivesse vendo a mulher da minha vida. Sei lá o que é isso, se é destino, mão de Deus... Então você quer saber o que eu quero com a sua mãe. Eu quero viver com ela o resto da minha vida, disso eu tenho muita certeza.
— E vocês pretendem se casar, se juntar, enfim viverem juntos, quando?
— Por mim, a gente já estaria morando juntos. Mas ela se preocupa com você, é muito ligada em você e não quer deixar você sozinho. Por isso, se você morar com a gente, minha casa é grande, teria um quarto só pra você...
— Não se preocupe comigo. Se eu sentir falta, vou lá visitar a mãe, se bem que, se eu conheço bem minha mãe, ela vai estar sempre aqui...
— Quanto ao dinheiro que é da parte dela aqui, não se preocupe, eu ganho bem, graças a Deus a oficina dá lucro, então você pode contar comigo. Não quero que sua mãe continue trabalhando na confecção, não precisa. Ela quer continuar costurando e eu reservei um quarto no fundo da casa para isso. Até já comprei a máquina de costura pra ela...
 — Não vou precisar mais do dinheiro dela, nem do seu, não se preocupe com isso.
— Não? Mas o que você ganha não dá pra sustentar esta casa...
— O que eu ganho, não; mas o que eu vou ganhar, sim.
— Você arrumou outro emprego?
— Não. Continuo no mesmo, mas fui promovido.
— Promovido a quê?
— A gerente.
— Gerente? Mas sua mãe não me falou nada disso!
— E dá pra falar de outra coisa nesta casa nos últimos dias que não seja bacalhau... Foi no começo da semana e não deu pra conversar com ela, ela nem está sabendo... Melhor você não falar, deixa que eu falo.
— Claro, claro!
— E você trate de gostar desse bacalhau que ela está preparando, que ela está na maior expectativa do que você vai achar.
— Eu gostaria dessa comida até se ela fizesse sola de sapato...
— Mas não se preocupe, ela cozinha bem.
— Quer uma cerveja, Gê?
— Se o Robson me acompanhar, aceito.
— Eu não bebo bebida alcoólica. Mas aceito um suco, mãe.
Depois que pai e filha se foram, enquanto se lavava, enxugava e guardava a louça do almoço, cabia repercutir o almoço com o devido entusiasmo da mãe. Que tinha sido um sucesso, que todos tinham repetido o prato (“ainda bem que eu comprei bastante bacalhau!”), que “eu não pensei que fosse tão fácil fazer”, que as conversas foram animadas, que a menina era muito simpática, que era bom repetir esses almoços de vez em quando, que a menina (“moça, mãe”) adorou o brigadeirão da sobremesa, que todo mundo saiu feliz e satisfeito, até que as considerações começaram a se repetir, e então ele considerou que era a hora de falar sério.
— Mãe, tá bom. Agora chega de bacalhau, que eu preciso falar com você.
— Tá certo. Fala, filho. Mas você viu como a Daniela é bonitinha?
— Vi. Mas posso falar de outra coisa?
— Você pode, claro! Mas só mais uma coisinha. Você viu o vestido dela...
— Mãe!
— Tá. Depois eu falo do vestido dela. É que...
— Mãe! Eu preciso conversar sério com você! Dá pra me deixar falar?
— Desculpe, filho. Fala então.
— Eu falei com o Germano e...
— Você gostou dele?
— Quem tem que gostar dele é você. Então, eu falei com ele...
— Você viu? Ele gostou mesmo do bacalhau!
— Mãe, para de falar e me ouve, pode ser? Tô há uma semana e não consigo, só fala nesse maldito bacalhau...
— Você não gostou do bacalhau? Mas você repetiu...
— Gostei, gostei muito! Só que agora quero falar com você e você me interrompe toda hora, que saco!
— Tá bom, tá bom! Só espero que não seja pra falar do seu pai, porque aquele lá...
— Não, não é do pai! É de mim!
— Você tá com algum problema? Não é nenhuma doença, é?
— Mãe, por favor, tô pedindo educadamente, cala essa boca e me ouve!
— Tá bom...
— Falei com o Germano e ele me disse que quer que você vá morar com ele.
— Mas você não se preocupe...
— Mãe...
— Também, não se pode falar nada?...
— Pode, depois que eu acabar de falar você fala quanto quiser. O que eu quero lhe dizer é que se você quiser morar com ele, se ele faz você feliz, por mim tudo bem. Não tenho nada contra. Ele me pareceu uma pessoa séria e bem intencionada. E gosta muito de você. Não me parece um cara que vá aprontar com você. Se você também gostar dele, vai morar com ele, numa boa. E não se preocupe comigo, que comigo está tudo bem.
— Posso falar agora?
— Pode.
— Eu me preocupo com você sim! Quem vai cuidar de você? Quem vai fazer sua comida, lavar e passar sua roupa, limpar a casa e tudo o mais?
— Pode deixar que eu me viro. Se não der conta, contrato uma empregada.
— Uma empregada? Posso saber com que dinheiro?
— Com o meu dinheiro.
— Essa é boa! Com o que você ganha mal paga o aluguel... Se bem que o Germano disse que me ajuda com as contas...
— Ele também me disse isso e eu dispensei, não vou precisar.
— Agora deu pra ser orgulhoso, é?
— Não, mãe. Como eu achei que você ia se enrolar com o mecânico, fui falar com o seu Matias que queria um aumento. Afinal eu ganho a mesma coisa desde que comecei a trabalhar lá. Ele me ofereceu mais do que um aumento. Ele me ofereceu a gerência da papelaria, com um aumento muito maior do que eu jamais imaginei, fora a comissão em tudo que a loja vender...
— Gerência? Você vai ser gerente? Quando isso aconteceu, meu filho?
— No começo da semana.
— E só agora que você me conta?
— E dava pra falar com você de outra coisa que não fosse bacalhau?
— Mas isso é muito bom, filho! Eu sabia que algum dia alguém iria reconhecer o seu valor. Por isso anda até pegando táxi...
— Pois é, lembra que naquele dia eu disse tinha uma coisa boa e outra nem tanto? Essa era a coisa boa.
— Desculpe, filho. Eu aqui preocupada com esse almoço só pensava no bacalhau, sabe como é, eu nunca tinha feito... Mas ficou bom, não ficou?
— Já disse que sim. E mãe, o seu Matias me deu um mês de férias em janeiro e uma passagem de avião pra Brasília...
— De avião? Mas é muito perigoso! Não quero que você viaje de avião. Por que não vai de ônibus?
— Ônibus é mais perigoso. Tem mais desastre de ônibus do que de avião.
— Tem certeza?
— Tenho. O que me preocupa é antes da viagem e depois da viagem...
— Por quê?
— Eu nunca viajei, né... Nem sei como é que pega o avião... E lá. Vou ter que ficar num hotel. Eu nunca fiquei num hotel, nem sei como que chega no quarto. O seu Matias disse que reservou pra mim um quarto num hotel bom. Sei lá o que é um hotel bom ou um hotel ruim...
— Esse seu Matias está sendo um pai pra você, não é?
— Foi o que eu disse pra ele. Mas eu tenho vergonha de perguntar essas coisas pra ele. Ele me acha competente, não quero decepcionar. A Martina me aconselhou a ir até o aeroporto e me informar lá. Ela também nunca viajou de avião. E no hotel, ela aconselhou que chegue no balcão — deve ter um balcão — e diga que nunca fiquei em hotel e que eles informem o que tenho que fazer...
— E essa Martina, hein filho. Essa moça é esperta, mais esperta que você. Essa moça está a fim de você, escuta o que eu estou dizendo...
— Que é isso, mãe! A gente é só amigos! Por falar em Martina, ela me convidou pra almoçar na casa dela num fim de semana...
— Essa moça está a fim de você, não tenho dúvida.
— Ela tem namorado, não está a fim nada.
— É por causa dessa viagem que você está desde ontem com essa cara preocupada?
— Não. A viagem me preocupa, mas me desafia, é uma preocupação boa. O que me deixou preocupado foi o que eu vi na cidade...
— O quê?
— Uma passeata de gente que não tem um lugar pra morar. E gente que fica pedindo esmola. Eu aqui todo feliz porque agora vou ter dinheiro e até viajar de avião e tem gente que não tem onde morar e o que comer.
— Isso é triste, filho; mas o que a gente pode fazer? Não se esqueça que a gente quase ficou nessa situação quando seu pai nos abandonou. Mas a gente se virou, arranjou nossa vida e hoje estamos bem. Não se desmereça, meu filho. Se tem alguém que merece essa situação em que você está, esse alguém é você. E essa Martina, tenho certeza, vê o homem de valor que você é e por isso está a fim de você. Pensa que é fácil encontrar um homem igual a você por aí? Tem muita injustiça nesse mundo, mas de vez em quando a vida faz justiça com alguém, como fez a você. Vamos resolver o que a gente pode resolver. Quando você viaja?
— Vou dia dez e volto dia dezessete. E mãe, comprei um presente pra você. Espera aí que eu vou pegar no quarto. (...) Toma, abre.
— O que é isto? Deixa ver... Um celular?
— É, comprei um pra mim também, assim posso ligar de Brasília pra você.
— Você pensa em tudo. Como é que isso funciona?
— Depois explico, não é complicado. Tá aqui o número do seu e o do meu. Decora. E mãe, quando eu voltar, não quero ver você aqui. Vai morar com o Germano, assim eu viajo despreocupado. Não quero deixar você sozinha nesta casa.
— Mas a gente nem namora...
— Sem essa, mãe. Vocês já estão noivos! Você já transou com ele?
— Isso é coisa que um filho pergunte pra sua mãe?!
— Transou ou não transou?
— Não! A gente só ficou no carro dele, deu uns amassos, você sabe...
— Então resolve isso de vez. Vai que você não goste dele na cama ou ele não goste de você...
— Difícil... Nos dois somos experientes. Disso não posso me queixar do seu pai, ele era um bom professor. E se o Germano não for bom, eu ensino ele...
— Então vai logo morar com esse cara, chega de enrolar o coitado.
— É, mas se eu fosse fácil, ele não estaria tão fissurado como está...
— Certo. Você fisgou seu peixe direitinho, agora aproveite. Foi por isso que você encurtou os vestidos, não é?
— As mulheres se fazem de coitadas, de bobas, mas disso não têm nada. Veja a sua Martina. Quando você menos esperar, cai na rede dela.
— Para com isso, mãe. Nós somos só amigos, nada além disso.
— Sei...


Para continuar:
A – Ele aceita o almoço na casa de Martina e ela serve bacalhau.
B – Ele viaja para Brasília e conhece um jornalista.
C – Na casa de Martina, ele conhece o namorado dela, que o ameaça.
D – Em Brasília ele conhece um deputado.
E – A mãe vai pra cama com Germano e ele pensa que precisa ter sua 1ª vez.
F – Ele vai ser agredido pelo namorado de Martina e seus amigos, mas Martina
o salva.

G – Todas as opções.

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