HISTÓRIA SEM DESTINO CERTO 4

          Ler. Quase uma compulsão, muitos livros, um sebo, livros usados, baratos, porque lhe disseram que era bom, porque gostou da capa, porque gostou de ler a orelha, porque foi best seller, porque estava sem nenhum novo... Ler. Só faltava com quem comentar, dividir o que aprendia. Às vezes Martina, impressionada com seus comentários. No mais, conversar com seus botões, pensar... Até começava a fazer sentido um curso universitário, talvez Letras ou Administração de Empresas ou Ciências Sociais ou Geografia ou... Na verdade havia coisas mais urgentes para resolver. Como seria sua vida, se sua mãe se juntasse com aquele mecânico? Com certeza não iria morar com eles, isso estava decidido. Então teria que bancar sozinho o aluguel e a casa. Ou encontrar alguém com quem dividir as despesas. Não iria atrapalhar a vida da mãe, isto também era certo. Se existe uma mulher que merece ser feliz, é ela. Aguentou anos aquele marido ausente, sem reclamar, para ser largada depois, como se joga fora um sapato velho, e agora que aparece um cara que a trata bem, com respeito, não será ele que vai estragar sua felicidade. “Melhor conhecer logo esse cara, sentir se a imagem que a mãe passa dele é verdadeira.”
            Ao chegar em casa, já anoitecendo, trazia numa sacolinha de plástico três livros, o suficiente para a semana e uns dias mais, se regulasse a leitura. Uma biografia, um romance de Clarice Lispector e um livro de culinária; “vai que precise cozinhar, melhor aprender mais do que o pouco que sei”. Como andava acontecendo ultimamente, a mãe não havia chegado. Tomou um banho sossegado e pacificador do espírito e já se preparava para terminar a leitura de um livro de História do Brasil, sentado numa poltrona da sala, quando a mãe chegou com o mesmo sorriso satisfeito que costumava exibir ultimamente.
            — Tava namorando?
          — Não era bem isso. Ele me trouxe de carro e a gente ficou conversando, parados ali na esquina, nem vi a hora passar...
            — Já tá aceitando carona do cara?
            — É bom, né. Economiza o dinheiro da condução.
            Os dois sorriram.
            — Traz ele aqui para eu conhecer.
            — Sério?
          — Ficar parado na esquina conversando no carro é que não está certo. É convite pra assalto. Traz ele no sábado...
            — Tá bom, vou convidar. Faço um almoço, tá bom?
            — Tudo bem.
            — E filho, posso convidar a Daniela também?
            — Quem é Daniela?
            — A filha dele.
            — Mãe, ‘cê tá parecendo que é minha filha, pedindo permissão ao pai. O namorado é seu, ‘cê faz o que quiser.
            — É que eu tenho medo de estragar tudo. É muito importante pra mim que você aceite...
            — Se o cara for legal, tá tudo certo.
            — Ele é legal. O que eu faço no almoço?
            — Que tal você pensar na janta? Eu tô com fome.
            — Aguenta aí lendo seu livro, que eu já preparo.
            Não voltou a ler. Melhor continuar a conversa. E contou sua decisão de preferir morar sozinho, de não atrapalhar a felicidade da mãe e constatou, com surpresa, que ela não havia pensado nisso (“a gente ainda nem namora...”). Então era preciso que pensasse, porque era esse o rumo que seu relacionamento estava tomando, que ela não era mais uma adolescente. Sim, ela precisava pensar em muitas coisas e ele também, se bem que, como sempre, ele era muito mais objetivo que ela. Procurou aliviá-la de preocupações inúteis, “pense em você, não em mim, eu sei me virar”. E mais uma vez ela agradeceu aos céus o filho que tinha.
            — Mas o que eu faço pro almoço...?
Também ele tinha muito em que pensar, nos rumos a dar para sua vida, como cuidar de uma casa sozinho, aprender a passar roupa, conseguir ganhar mais... Essa moleza de ficar lendo todo o tempo livre ia acabar, “fazer o quê”, mas desta vez todas essas mudanças não o deprimiam, ao contrário, via nelas uma oportunidade de dar mais consistência à sua vida. “Pensando bem, todas as mudanças importantes que tive na vida, apesar dos transtornos iniciais, acabaram sendo pra melhor. Por que esta também não será?” De imediato precisava pensar em ganhar mais. Não que o ganhava não desse, mas ficaria no limite, sem possibilidades, por exemplo, de pagar um cursinho e futuramente uma faculdade, se não conseguisse vaga numa pública. Faculdade... “Qual eu faria...?” Talvez Administração de Empresas, já que parecia ter visão de negócios. Pois não tinha aumentado o faturamento da papelaria só mudando a vitrine? A propósito, já pensava em sugerir ao patrão o uso de jaleco para os funcionários e a retirada de duas gôndolas que atravancavam a passagem, dando mais espaço para os fregueses e eliminando a preocupação dos vendedores com as tentativas de furto. Iria pedir aumento, afinal estava com o mesmo salário de quando começou no emprego; só aumentou a comissão. Depois pensaria no resto.
Dia normal de trabalho num fim de ano: muitas vendas, muito papel de presente, muitas caixas decoradas, além do que era normal vender. Ainda bem que havia os temporários ajudando. Mesmo assim estava exausto no fim do dia. Talvez não fosse o melhor momento para falar com o patrão, também ele deveria estar exausto, se apressando para que não houvesse fila no caixa. Mas, por outro lado, deveria estar satisfeito com todo esse movimento que aumentava seus lucros, girava seu capital. “Pensando bem, não existe momento certo pra certas coisas, sobretudo as urgentes; e esta tem urgência” — pensou e decidiu apressar a conversa, enquanto ajudava o patrão a fechar loja.
— Boa noite patrão, boa noite Robson.
— Boa noite, Vagner.
— Boa noite, até amanhã...
— Boa noite Martina.
— Seu Matias, posso conversar com o senhor?
— Pode, sempre pode, Robson.
— A gente pode conversar lá dentro?
— Você não prefere conversar num bar, tomar uma cerveja...
— Eu não bebo, patrão, não gosto.
— Tudo bem, eu pouco bebo também. A gente toma água gelada. Tá calor, né?
— O senhor nunca me deu essas intimidades, e o que tenho pra falar é rápido...
— Acontece que eu também estou querendo falar com você. Pretendia falar em janeiro, mas já que você está querendo conversar, a gente conversa hoje mesmo. Vamos ali no bar? A gente se senta, estou cansado, não tenho mais idade pra aguentar essa pauleira de hoje.
Numa mesa na calçada, em frente ao bar, pediram água com gás, e comentaram sobre o movimento da papelaria, sobre o aumento das vendas, sobre trivialidades do trabalho. Paciente, Robson esperava a deixa para falar o que queria, o que aconteceu depois de matarem a sede e se esgotarem os assuntos.
— Diga o que você quer falar comigo.
— Minha mãe arranjou um namorado, parece ser um cara de bem, e é questão de tempo que acabem morando juntos. Eu não quero depender do dinheiro deles. Hoje minha mãe ajuda nas despesas da casa, mas se ela se casar, quero viver minha vida sem depender de ninguém. Além disso, pretendo voltar a estudar à noite, no futuro, sem contar os gastos com livros, gosto muito de ler. Enfim, eu preciso aumentar meus rendimentos e preciso saber se o senhor estaria disposto a aumentar um pouco meu salário. Se não, eu teria que procurar outro emprego que me oferecesse mais do que eu ganho, aproveitar essa época que tem emprego sobrando.
— Sua mãe arranjou um namorado, é?... Você conhece o homem?
— Ainda não. Mas vou conhecer sábado, pedi pra mãe trazer o cara em casa pra almoçar.
— E você não fica com ciúme?
— Ciúme? Não! Só fico preocupado se o cara é boa gente mesmo como ela fala. Se for, boa sorte pra ela. Ela merece ser feliz, depois do que o pai aprontou pra ela, o senhor sabe, eu contei quando me contratou.
— Você sabia que foi por isso que eu contratei você? Eu pensei: “tá aí um rapaz responsável, que precisa mesmo trabalhar”. Você me provou que eu não estava errado. E é muito bonito o jeito que você gosta da sua mãe, desprendido, generoso. E ele faz o quê?
— Ele é dono de uma oficina mecânica. Mas seu Matias...
— Já sei, o aumento, eu não me esqueci não. E você pretende morar sozinho. Não pretende se casar?
— Eu ando pensando mais em recuperar o tempo perdido na minha formação do que em me comprometer com casamento. No futuro, se aparecer uma moça que eu goste e goste de mim, pode ser. Primeiro quero deixar minha vida mais consistente.
— Interessante... Estou gostando desse seu novo jeito. Mais decidido, mais determinado. Interessante...
— Mas seu Matias...
— Está bem, entendo sua ansiedade. Mas deixa eu falar um pouco de mim antes. Quer mais uma água? Quer comer alguma coisa?
— Não.
— Eu quero. Garçom, traz uma porção de calabresa e mais duas águas. Obrigado. A calabresa dá sede e você vai me ajudar a comer. Deve estar com fome também.
— É, estou.
— Enquanto a calabresa não chega, vamos conversando. Meu caro Robson, você sabe que eu já estou numa idade avançada...
— O senhor está bem, está firme, nunca fica doente.
— Mas não é da minha saúde que quero lhe falar, ou até de certo modo é. Eu tenho dois filhos um rapaz e uma moça. Minha filha estudou Letras, é professora de Português, e gosta muito do que faz. Além disso, é casada, tem dois filhos, meus netos, e vive muito bem. Meu filho, dois anos mais novo, foi estudar antropologia, sei lá pra que serve isso, mas vive viajando, fazendo pesquisa... Resumindo: nenhum dos dois se interessa pelos meus negócios, até falam pra eu vender. E eu gostaria de parar, viajar com minha velha enquanto nós dois ainda temos energia para isso, conhecer a Europa, a Argentina, fazer um cruzeiro, essas coisas. São quase cinquenta anos trabalhando sem parar, sem férias. Então eu tenho uma proposta a lhe fazer. Opa, chegou a calabresa, veio rápido. Pega aí. Deixa de frescura, pega aí. Hum, tá boa! Pega aí.
— Tá bom, eu pego.
— O que eu quero lhe propor é que você seja o gerente da papelaria, assuma os negócios, cuide dos pedidos, da manutenção, de tudo. Só não precisa fazer a contabilidade, que pra isso tem o contador, você sabe. No mais é tudo com você. Você faria o que eu faço hoje. Tenho muita confiança em você. Nesses anos que trabalha comigo, nunca me deu motivo pra desconfiar de você. E conhece tudo da loja — quantas vezes me chamou a atenção para a baixa de estoque —, sabe o que precisa pro negócio andar bem. Seu salário? Claro que seu salário será maior e ainda eu proponho que você fique com a comissão que tem por todas as vendas da loja, ou seja, se a loja vender mais, você ganha mais. Não precisa me responder agora. Aliás, quero que você tire férias em janeiro. Desde que trabalha comigo, sempre vendeu suas férias. Quando voltar, em fevereiro, você me dá a resposta. Tá boa a calabresa, não?
— Muito boa.
— Vamos pedir outra porção? Garçom...
— Seu Matias, muito obrigado...
— Da calabresa? Não se preocupe, eu pago.
— O senhor é o pai que eu gostaria de ter tido...
— E você é um pouco meu filho também...
— E, seu Matias, não fique decepcionado com seus filhos, fique orgulhoso. Hoje eu vejo como foram importantes minhas professoras de português. Quando eu estudava, era meio vagau, só lia por obrigação, mas as lições ficaram na minha cabeça. Agora que eu descobri a leitura, tudo que elas me falavam faz sentido, minha cabeça mudou — o senhor deve ter notado. Imagina quantos caras iguais a mim a sua filha está influenciando. É um trabalho muito digno, muito importante. Bem que eu gostaria de ter a capacidade que sua filha tem. E aposto que ela não precisa trabalhar, o senhor tem posses e o marido dela também deve ter. Trabalha por amor, com certeza. E seu filho também deve ser apaixonado por seu trabalho. Mês passado li um livro de Antropologia e vi umas notícias na TV que me fizeram entender a importância desse trabalho. O senhor sabia, por exemplo, que descobriram na Amazônia uma terra preta que era preparada por uns índios, que é a terra mais fértil do mundo? A terra é tão boa que é melhor do que terra com fertilizante. E agora estão estudando a composição da terra pra poder fazer o que os índios faziam há séculos. Isso também tem a ver com Antropologia. Sem falar que ajuda a entender como o mundo era, como as coisas começaram, como se prevenir de catástrofes... Normal, seu Matias, que seu filho adore esse trabalho.
— Vejam só... Além de tudo este rapaz está ficando sabido. Eu sei, Robson, é mais ou menos isso que meus filhos dizem. E tenho muito orgulho deles sim.
Indo para casa, a cabeça de Robson oscilava entre a euforia causada pela proposta do patrão e a tensa insegurança de que não daria conta de tamanha responsabilidade. Sem dúvida essa era uma hora em que seria muito bom ter em casa um pai presente com quem pudesse se aconselhar, que lhe desse a confiança que lhe faltava. Mas ele ainda não sabia que havia acontecimentos que o abalariam ainda mais.
Escolha entre as opções:
A – Ele se encontra com seu pai.
B – Ele se encontra com o namorado de Martina.
C – Ele se vê envolvido numa manifestação política de rua.

D – Duas dessas opções.

4 comentários :

  1. Eu acho que a Martina poderia ser filha do namorado da mãe. Seria bacana.

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  2. Estou adorando participar da "feitura"do texto...bel

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  3. Está ficando boa! rs Voto em A e B.

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